quinta-feira, abril 24, 2008
quarta-feira, abril 09, 2008
quarta-feira, março 26, 2008
terça-feira, março 25, 2008
III Canto - I rascunho
Um pé no chão
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
A vida chama
que acende e queima
vida derrama
um balde de tinta na gente
E a gente vela
e desvela
a gente tenta
Pô-la na tela
Fazemos arte
a gente parte
e a vida
cumprimenta
Música: Gabriel Marques
Letra: Rômulo Arbo
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
A vida chama
que acende e queima
vida derrama
um balde de tinta na gente
E a gente vela
e desvela
a gente tenta
Pô-la na tela
Fazemos arte
a gente parte
e a vida
cumprimenta
Música: Gabriel Marques
Letra: Rômulo Arbo
Não consegui postar o link pro Cê, último do Caetano (2006, eu acho, mas nunca tinha ouvido). Então deixo uma frase dele que certamente antecipa um post meu, dita numa entrevista pra Folha, também lá por 2006. Mas se não ouviu o disco, procura e ouve, achei muito bom. E olha que nunca fui muito de Caetano.
Fica a frase...
"A esquerda é como torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela."
Fica a frase...
"A esquerda é como torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela."
Odes
quem sobrevive ao des
contexto?
ninguém contesta
- ninguém, constato
des
ocupa lugares
que nem ares
vão
des
de tudo o avesso
de nada também
...tem
des
cubro de versos
de poucas palavras
um único lúcido,
um único louco
des
arranjo dois tempos
e tento curá-los
espelho
mas sem solução
des
vi o olhar
de um desses óbvios
dessas causas, desses efeitos
des
acordo no meio
de uma aflição
des anima o profeta, o cometa e o avião
des arranca dores
amores e heróis
destrói a obra que começa
e a constrói num outro des aviso
des
liga a tv
passa o café e
cansa
desmorona também
aquele que mora
contexto?
ninguém contesta
- ninguém, constato
des
ocupa lugares
que nem ares
vão
des
de tudo o avesso
de nada também
...tem
des
cubro de versos
de poucas palavras
um único lúcido,
um único louco
des
arranjo dois tempos
e tento curá-los
espelho
mas sem solução
des
vi o olhar
de um desses óbvios
dessas causas, desses efeitos
des
acordo no meio
de uma aflição
des anima o profeta, o cometa e o avião
des arranca dores
amores e heróis
destrói a obra que começa
e a constrói num outro des aviso
des
liga a tv
passa o café e
cansa
desmorona também
aquele que mora
A vígilia (começa no sonho)
Dava-se assim. Sobre seu ombro tagarelava uma ave de penas aveludadas. Seus olhos diziam apenas - sem sobre isso deixarem dúvidas - que a habilidosa língua não cansaria nas horas vizinhas (eram olhos a verem dois lados de uma só vez, conscientes da enorme fila de idéias que se amontoavam na mente insana daquele papagaio). Seu ouvido direito, que tinha o privilégio de ouvir as últimas sempre em primeira mão, já funcionava como uma dessas desconhecidas vias por onde passavam seus próprios pensamentos, de modo que poderíamos dizer, sem prejuízo algum, que era a ave a pensar por ele - pelo menos enquanto desperta. É verdade que seus sonos nunca coincidiam, já que o silêncio, para ele, ganhara tons insuportáveis. Não falava, o dono do ombro - pelo menos não enquanto desperto. E, provavelmente, seus textos oníricos fossem uma desordenada reverberação do que ouvira em vigília. Do sonho pulavam palavras como peixes exaustos de água. Eram breves os saltos e logo o mergulho. Num dos raros momentos, o ar preso, o ar tenso, um raio de luz servindo de linha, uma palavra como que pescada - e, ao mesmo tempo, salva - de um profundo e negro pesadelo. E não foi murmúrio, não teve o azedo da boca. Foi como um soluço, sintético e dono de si. O dono do ombro disse e quem teve perto ouviu; o mais distraído ouviu. Ouviu o irrepetível.
E depois também sonhou.
E depois também sonhou.
segunda-feira, março 24, 2008
Desabar
enxada não é uma palavra pontiaguda
como faca
mas dói a pancada
- dói pacas
ele escolheu palavras secas
nada que a atravessasse
algo que matasse
por hemorragia interna
burilou uma alavanca de metal
em uma dúzia de sílabas
uma frase rasteira, os olhos cínicos segurando o tempo do tombo
o tempo do tombo pesando, a cabeça
enxada
não fez corte, não foram palavras pontiagudas
a morte foi interna
e as lágrimas já nem eram de desilusão
desabaram de um corpo tombado, vítima de enxágue
morreu numa cascata acidental
como faca
mas dói a pancada
- dói pacas
ele escolheu palavras secas
nada que a atravessasse
algo que matasse
por hemorragia interna
burilou uma alavanca de metal
em uma dúzia de sílabas
uma frase rasteira, os olhos cínicos segurando o tempo do tombo
o tempo do tombo pesando, a cabeça
enxada
não fez corte, não foram palavras pontiagudas
a morte foi interna
e as lágrimas já nem eram de desilusão
desabaram de um corpo tombado, vítima de enxágue
morreu numa cascata acidental
sexta-feira, março 07, 2008
Por querer
Silvia caminhou sozinha através do parque escuro e escolheu um banco isolado o suficiente para pensar e desabou. Com certeza não convinha a uma guria, ou qualquer um que tivesse algo a perder, andar àquelas horas em tal lugar. Não via ninguém por ali, somente vultos que deslocavam-se por entre as árvores, como se o movimento fosse necessário para a sobrevivência naquele habitat.
Vinha da rua pouco iluminada que presenciara seu quase choro evidenciado por seus olhos vermelhos. Havia postes de quando em quando, intercalados por escuros que a protegiam. Mas ainda podia ser vista por qualquer estranho que passasse. Um rapaz fumando na janela do prédio da outra calçada a deixou mais envergonhada. Preferia sair dali.
Tinha há pouco descido do ônibus no qual o cobrador, o casal do segundo banco e o senhor no fundo olhavam-na como a um animal raro que quer explodir de tanto chorar. O motorista continuou a guiar mas, mesmo assim, a viagem pareceu durar uma eternidade, tantas voltas deu aquele ônibus. As curvas misturadas com sua cabeça cheia deixaram-na enjoada. Precisava urgente de ar fresco.
Saiu do prédio sem saber se sentia raiva ou uma tristeza vazia e escura e que toma o lugar de todas as outras coisas até deixar tudo completamente gelado. Não era a primeira, mas não sabia se não era a última. Os seus olhos tinham uma coisa diferente desta vez. Ele disse e mirou prá acertar. Ele escolheu as palavras pela dor que elas trariam.
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histórias de verso e avesso,
rascunhos de quadros
quinta-feira, março 06, 2008
Pois eu quase parti.
Já com a mala fechada caiu tudo por água abaixo.
Agora vou, mas numa viagem menor.
Vou bem mais perto e volto logo
E tudo fica prá mais longe
Volto a esperar até a hora chegar
Sucede assim, o doce tirado
Fico parado e largo a mochila
Só me resta contar
Ou quem sabe, já que não foi agora
Fica prá mais tarde, aguardar de novo não é mais problema
Ainda resta comemorar.
Já com a mala fechada caiu tudo por água abaixo.
Agora vou, mas numa viagem menor.
Vou bem mais perto e volto logo
E tudo fica prá mais longe
Volto a esperar até a hora chegar
Sucede assim, o doce tirado
Fico parado e largo a mochila
Só me resta contar
Ou quem sabe, já que não foi agora
Fica prá mais tarde, aguardar de novo não é mais problema
Ainda resta comemorar.
Desavisado
Fôra devidamente avisado sobre a natureza daqueles homens, cheios de dúvidas. Preparou-se para um arsenal de perguntas como quem se prepara bem para um arsenal de perguntas: juntou um punhado de substantivos bem substantivos e não economizou energias em trabalhar nos melhores adjetivos. Era simples, mas potente, tinha certeza.
Debruçou-se na tarefa de distribuir didaticamente as palavras pelas frases e chegou a testá-las no ar. Eram belas as frases suas. E diziam tudo. Ainda assim, fez lembretes pra animar a memória. Via-se municiado de todas respostas.
Foi quando um homem só lhe pregou a peça. Um homem muito só. Tão só nesta vida que desacompanhado da mais elementar das dúvidas. Um homem que, antes de não saber, não detivera a sombra do que um dia chamou-se pensamento. Este homem, que nunca pensou, não podemos dizer que era um ignorante.
Pois bem, foi este homem que nem chegava a ser ignorante que o deixou mudo, frente a tamanha pergunta. Uma questão cínica de tão tarde que lhe vinha bater a porta. E trágica, pois parecia acelerar o tempo de uma forma absurda, que seu coração nem faria menção de acompanhar. Estático, boquiaberto. Certamente fôra neste instante, no instantâneo deste instante, que lhe entrara pela boca a pergunta do outro, e foi tomar seus pulmões. Ar. A pergunta lhe salvara. Mas como viveria com uma dúvida daquelas?
Debruçou-se na tarefa de distribuir didaticamente as palavras pelas frases e chegou a testá-las no ar. Eram belas as frases suas. E diziam tudo. Ainda assim, fez lembretes pra animar a memória. Via-se municiado de todas respostas.
Foi quando um homem só lhe pregou a peça. Um homem muito só. Tão só nesta vida que desacompanhado da mais elementar das dúvidas. Um homem que, antes de não saber, não detivera a sombra do que um dia chamou-se pensamento. Este homem, que nunca pensou, não podemos dizer que era um ignorante.
Pois bem, foi este homem que nem chegava a ser ignorante que o deixou mudo, frente a tamanha pergunta. Uma questão cínica de tão tarde que lhe vinha bater a porta. E trágica, pois parecia acelerar o tempo de uma forma absurda, que seu coração nem faria menção de acompanhar. Estático, boquiaberto. Certamente fôra neste instante, no instantâneo deste instante, que lhe entrara pela boca a pergunta do outro, e foi tomar seus pulmões. Ar. A pergunta lhe salvara. Mas como viveria com uma dúvida daquelas?
morte no primeiro dia
Renato controlava sua impetuosidade inata
com doses mensais de quatro domingos
nas segundas renascia em si
(tempestades cinza-escuras)
chovia na terça em treze minutos
e na quarta-feira era evaporado
e na quinta dose de um fígado cansado
derrubava a mesa de um jogo acordando
consertava arestas, era sexta-feira
pressentiu um sopro de dias passados
mas não via o tempo, era muito lento
eram sete dias e já estava indo
era um tanto louco aquele de repente
já chegou domingo, já morreu Renato
com doses mensais de quatro domingos
nas segundas renascia em si
(tempestades cinza-escuras)
chovia na terça em treze minutos
e na quarta-feira era evaporado
e na quinta dose de um fígado cansado
derrubava a mesa de um jogo acordando
consertava arestas, era sexta-feira
pressentiu um sopro de dias passados
mas não via o tempo, era muito lento
eram sete dias e já estava indo
era um tanto louco aquele de repente
já chegou domingo, já morreu Renato
Desumana
coberta de neve parecia nula
não estava mais, não estava nua
nada parecia com uma voz que soa
nada se mexia, nem a vida à toa
era um frio isento deste que arrepia
um vazio que corta deste que ignora
ela não sofria, tinha a pele dura
era branca a pele e nem refletia
não havia vento, nem um som suspenso
eu olhava aquilo e nem era denso
de uma violêcia que emudece o eco
era tão intenso que não repetia
tinha tanta idade quanto um segundo
era tão estranha tanto quanto o mundo
não estava mais, não estava nua
nada parecia com uma voz que soa
nada se mexia, nem a vida à toa
era um frio isento deste que arrepia
um vazio que corta deste que ignora
ela não sofria, tinha a pele dura
era branca a pele e nem refletia
não havia vento, nem um som suspenso
eu olhava aquilo e nem era denso
de uma violêcia que emudece o eco
era tão intenso que não repetia
tinha tanta idade quanto um segundo
era tão estranha tanto quanto o mundo
o que faz o sofrimento
- sequer uma palavra
,disse
e ninguém emitiu um ai
houve o som
ainda que você não possa ouvir, houve
hoje só se lembra de ouvir
a gente muda
(que não quer repetir)
,disse
e ninguém emitiu um ai
houve o som
ainda que você não possa ouvir, houve
hoje só se lembra de ouvir
a gente muda
(que não quer repetir)
Descaminho
olho do avesso minhas passadas
passo desencontrado, joelho torcido
indago como terei sido
a sombrancelha cede:
sou desta linha
desta linha que atravessa um tango
e submete o passo
que repete o giro
até cansaço
desta linha que tropeça em fuga
até que muda e sobe um monte
e antes da pressa
olha enviesado os vales
que antecedem horizonte
passo desencontrado, joelho torcido
indago como terei sido
a sombrancelha cede:
sou desta linha
desta linha que atravessa um tango
e submete o passo
que repete o giro
até cansaço
desta linha que tropeça em fuga
até que muda e sobe um monte
e antes da pressa
olha enviesado os vales
que antecedem horizonte
terça-feira, janeiro 29, 2008
Verdes Raros
Sonhos sensatos e raros mergulhos
Um gozo de tempos em tempos de paz
Jogos de almas, palavras trocadas
Cadeia de eventos em ventos do sul.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Contam histórias, afogam silêncios
No verde sem fim, fui aprisionado
Conta comigo de novo começo
Não escondo mais meu sorriso.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Um gozo de tempos em tempos de paz
Jogos de almas, palavras trocadas
Cadeia de eventos em ventos do sul.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Contam histórias, afogam silêncios
No verde sem fim, fui aprisionado
Conta comigo de novo começo
Não escondo mais meu sorriso.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
terça-feira, janeiro 22, 2008
quarta-feira, dezembro 19, 2007
O avesso
Quem sabe com quem pareço quando canto?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo
Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo
Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?
Mudo. Mas para o mesmo lado
Para qual mais seria? O avesso
terça-feira, dezembro 11, 2007
desperdício
a caneta. usava a caneta como ponte entre o ópio e suas veias
buscava a veia artística, em vãos de muitas outras
(é possível que tenha sempre errado
e os rompantes tenham sido apenas de delírio)
azul era o sangue de sua paixão
no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco
apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa
Mas era infértil.
buscava a veia artística, em vãos de muitas outras
(é possível que tenha sempre errado
e os rompantes tenham sido apenas de delírio)
azul era o sangue de sua paixão
no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco
apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa
Mas era infértil.
quarta-feira, novembro 28, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
Luzes
Edmilson olha para a grande tela que se extende iluminada bem no nível de sua casa. Nela, um personagem faz cara de tédio para o videogame de sempre. Sai de cena. Deve ser porque é muito mais bonito lá atrás. O copo dele ficou. Quanta coisa espalhada. Playboy, Edmilson pensou.
André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.
André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Quantas coisas guardadas em papel
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso
Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço
Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso
Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço
Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
o belo e a fome de ser outro
a ausência da falta no belo está implícita
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali
o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia
se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além
e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas
te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes
chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar
mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes
se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho
ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali
o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia
se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além
e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas
te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes
chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar
mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes
se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho
ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...
Cartas do imaginário
um leitor anônimo
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
ascende
tem uma sílaba de arte no ar
como um cochichar de vento
tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida
e eu vou
e eu vôo
e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe
e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida
como um cochichar de vento
tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida
e eu vou
e eu vôo
e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe
e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida
quinta-feira, novembro 22, 2007
com razão o fim do sonho
(vivo o sonho sem saber)
povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos
(depois penso que sei)
despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego
(alucino)
colho uma colméia
sento à mesa com as abelhas
meu veneno escorre doce
(choro quando bocejo)
povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos
(depois penso que sei)
despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego
(alucino)
colho uma colméia
sento à mesa com as abelhas
meu veneno escorre doce
(choro quando bocejo)
sexta-feira, novembro 02, 2007
O verde continua se movendo, confundindo, vários tons, e eles bailam.
Combinando com ele, só que contrapondo, a janela uiva.
É triste
Mas mais que triste, agonia.
Dançam árvores, arbustos e bandeiras
toda a sorte de pássaros voam e param no ar.
Dançam ao gemido da janela.
Mesmo tão invisível
o vento se presta a tantas imagens, todas feitas com palavras.
domingo, outubro 28, 2007
O isento
Diorando era um cara isento. Absolutamente isento. Dizia-se, tão isento que quando o encontraram de revólver à mão e camisa coberta de sangue, ao lado do corpo estirado de sua esposa, arquivaram o caso por falta de provas. Tampouco devia ser sua mulher. Uma mulher estranha, não se poderia crer companheira de Diorando, cidadão tão ilustre. E isento. O grande jornalista do país, Diorando era tão isento que lograra ser o único correpondente internacional que mantivera residência no Brasil. Os fatos e Diorando eram água e óleo, não se misturavam. Afinal, seu trabalho era contá-los, descrevê-los com maestria e neutralidade. Diorando olhos de águia. Mantinha-se longe, afastado dos acontecimentos. Era sua receita para o refinamento periodístico. Quando indagado, Diorando era magistral em seus rodeios e floreios de não dizer nada. O distintivo de sua isenção libertava-o da tarefa ordinária de opinar. Diorando não conversava, disparava veredictos. E aquilo que proclamava era tão original e puro que havia até igreja levando seu nome. Mas Diorando não se prestava a dar sermões, muito menos meter-se com política. No entanto, era conhecido em todos os meios, entre legisladores, artistas, arcebispos e funcionários públicos. Para o povo é que era um deus encarnado. Camarada imaculado, livre de todos os pecados da carne. A carne que se confunde na carne, a carne de todas as paixões, dos medos e hesitações. Era coisa linda de ver, Diorando caminhava pelo meio das ruas com o semblante sempre resoluto, como se faixas de segurança acompanhassem seus passos continuamente. O trânsito, a cidade, o mundo parava para vê-lo passar, o Diorando. Cidadão incólume, irrepreensível. Diorando rejeitara até mesmo o desapego. Era sua inclinação inata não apegar-se, de modo que lhe seria estranho desprover-se de algo que nunca tivera.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
A fome e o eufemismo
o acaso come palavras de outrem
há casas órfãs de letras
em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista
o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo
o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio
há casas órfãs de letras
em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista
o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo
o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio
trilho sonoro (parte última)
(a cena final teria mogwai fear satan. sim, uma longa cena vai ao fim)
caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas
compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando
apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando
aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas
estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima
grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados
projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos
caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas
compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando
apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando
aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas
estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima
grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados
projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos
quinta-feira, outubro 25, 2007
Sigo a cena
Sonho dela e abro os olhos
O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem
Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito
Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo
Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras
Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente
E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número
Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.
Sonho dela e abro os olhos
O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem
Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito
Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo
Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras
Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente
E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número
Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.
quarta-feira, outubro 24, 2007
nasce
de nascer o sol
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra
vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar
pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir
de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim
ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar
sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra
vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar
pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir
de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim
ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar
sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu
O viaduto
E, no entanto, o irrepetível repetiu-se. A subida a pé pelo viaduto da João Pessoa, à margem do grande Parque Farroupilha, proporcionou-me sensação semelhante. Era e é Porto Alegre. Meu caminhar determinando o movimento da cena, sol determinando luz e sombra, aos efeitos dos prédios. Um morro ao fundo, mas ao lado... ao lado uma aquarela de verdes, dos mais diversos. Como é lindo ver brotar da terra árvores tão eternas e tão silenciosas. A vida caótica de uma cidade desacontece neste fim de tarde. Eu sigo em câmera, lentamente vago pela cena, o pescoço sempre à esquerda. Lá embaixo tem um lago, meio verde escuro, meio preto de sombra. Há pontos que são tartarugas e riscos de peixes graúdos. O quadro me foge à moldura, quando tudo é irreparável, onde é que eu reparo? É uma esquina mágica, linhas tomando três dimensões. O lindo e antigo prédio da universidade, crescido às sementes do parque, que o vento atravessa uma rua. O conhecimento sintetizado numa construção sólida, mas sofrida do tempo, esperando por mãos restauradoras. Um quadro raro, sem pontos que fugissem, em que só o meu trânsito era trânsitório, mas nada de fugaz ali reteria minha memória. As copas, as grandes copas de dois verdes. Nunca é tarde para ver uma tarde assim, pintada nas árvores.
terça-feira, outubro 23, 2007
Evaporar - Rodrigo Amarante [mestre]
Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar
Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar
O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei
E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar
Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar
O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar
Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar
Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar
Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar
O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei
E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar
Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar
O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar
Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar
Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!
A ponte
É uma ponte que se impõe sobre uma avenida larga de Santiago del Chile. Ou sobre um desses arroios de água escassa e meio suja, não lembro precisamente o que se passava embaixo dela. Voltávamos para o albergue com o suprimento recorrente naqueles dias: pães, alface, frios, refrigerante. Nas extremidades da ponte - que pode muito bem ser um viaduto mesmo, mas um lindo viaduto - sinais de anarquistas junto às escadas. Escadas que subíamos em duas voltas. Lá em cima, sobre a ponte, era sol. Um caminho de sol, de céu chileno sempre azul, da grande montanha ao fundo. Nunca vou esquecer daquela montanha ao fundo. Ela dizia: Santiago; esta é Santiago. Eu parava pra ouvir, era doce. Desde a base da fabulosa cordilheira, fazia um trajeto com a cabeça em direção ao céu. Ali encontrei o espírito da cidade. Pertencia a ela, que cochichava seu nome em meu ouvido. Um sopro de vento fresco dava uma sensação de liberdade. Pode parecer paradoxal, ela me pertencia, e eu era livre. Mas era assim. Aquela montanha não me cercava, o céu tampouco me suprimia. Diziam: tu pertences ao mundo, podes ser altíssima montanha, podes ser infinito céu, podes ser simplesmente o que caminha e sabe. - Prazer. Um compromisso bom: responsabilidade pode muito bem ser isso. Liberdade tem limites de firmamento, fronteiras feitas de montanhas respeitáveis. A responsabilidade por minha vida. Ganhei assim, de graça.
quarta-feira, outubro 17, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
Tocaia
Acha mesmo? Então faz assim
Faz o seguinte:
espera, mas espera calado
Segura a onda que paciência é grande virtude
Não responde, não repreende
Te acomoda bem onde ninguém se importa
Fica ali e observa
Não é fácil esperar calado
Ouvir e não explodir
Eu não sei.
Vai chegar uma hora
Um momento certo
Se esperou o suficiente, ele vem, podes crer.
Quando ele chegar, a paciência vai ser recompensada
Todo o silêncio vai mostrar sentido
Com todo o tempo do mundo, com a vantagem conquistada
Levanta com a maior autoridade
Mostra quem é que manda
E bate com toda força.
Faz o seguinte:
espera, mas espera calado
Segura a onda que paciência é grande virtude
Não responde, não repreende
Te acomoda bem onde ninguém se importa
Fica ali e observa
Não é fácil esperar calado
Ouvir e não explodir
Eu não sei.
Vai chegar uma hora
Um momento certo
Se esperou o suficiente, ele vem, podes crer.
Quando ele chegar, a paciência vai ser recompensada
Todo o silêncio vai mostrar sentido
Com todo o tempo do mundo, com a vantagem conquistada
Levanta com a maior autoridade
Mostra quem é que manda
E bate com toda força.
quarta-feira, outubro 10, 2007
o vácuo
A coruja me olha, questionadora
meio de lado, assim, pra não pressionar
ocorre que o silêncio de quem espera é menor
que o silêncio de quem quer
mas não sabe o que dizer
quer dizer...
embora pareça o contrário
veja bem: o silêncio de quem espera.
chega quase a não ser.
a coruja ouve meu não dizer
e, esperando minha palavra dita,
diverte-se ou tedia-se
com minha retumbante ânsia
meu tilintante ensaio
e o engolir da minha língua
veja só, que para mim é prisão
e pra ela é porto.
não há silêncio onde não possa haver ao menos um monólogo
quiçá um diálogo
não há conversa entre a fuga e a demência de uma espera
meio de lado, assim, pra não pressionar
ocorre que o silêncio de quem espera é menor
que o silêncio de quem quer
mas não sabe o que dizer
quer dizer...
embora pareça o contrário
veja bem: o silêncio de quem espera.
chega quase a não ser.
a coruja ouve meu não dizer
e, esperando minha palavra dita,
diverte-se ou tedia-se
com minha retumbante ânsia
meu tilintante ensaio
e o engolir da minha língua
veja só, que para mim é prisão
e pra ela é porto.
não há silêncio onde não possa haver ao menos um monólogo
quiçá um diálogo
não há conversa entre a fuga e a demência de uma espera
terça-feira, setembro 25, 2007
Trem de nuvens
Um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena. Horácio escolheu a estrada secundária para encurtar seu trajeto e fugir do pedágio, e atingiu seu objetivo, mas ao custo da lentidão de camionetas velhas, buracos e alguma lama. Não tivesse chovido na noite anterior, a lama seria trocada por um bocado de poeira.
Depois de passar pelos ferro-velhos (que devem sobreviver vendendo sucata uns para os outros, tantos que são eles) o verde torna-se mais freqüente, e a agradável luz da manhã acaba por deixar a região bonita, coisa que não é regularmente. O trem branco cruza o seu caminho azul com considerável pressa.
A pista simples e sem acostamento restringe a velocidade da viagem à lentidão do carro a frente. Formam-se comboios encabeçados por grandes caminhões ou carros com dois dígitos de idade. A melhor opção passa a ser olhar ao redor e contentar-se com o que há para ser visto. Ao observar o céu a sua frente, Horácio elabora a frase "um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena" e pensa que é uma boa maneira de começar um texto, um conto, um romance. A imagem de um trem de nuvens também funcionaria em um poema, pondera. Precisa anotar aquilo, não pode deixar passar. Pega então o bloquinho no qual, com pouquíssima disciplina, anota o consumo de combustível de seu carro, no porta-luvas. A operação é delicada, já que precisa manter um olho no caminhão que está na sua frente e outro ao verona apressado colado na sua traseira. Seu motorista parece manter a esperança de que conseguirá, em breve, espaço suficiente para ultrapassar. Horácio, com o bloco na mão esquerda e caneta na direita, mede as distâncias e estuda os comportamentos de seus dois vizinhos de estrada. Passa a tarefa de conduzir o veículo a seu joelho e dá-se conta de que a simples tarefa de escrever uma frase já formulada ganha proporções maiores com o veículo em movimento. Prossegue lentamente, alternando atenções para o papel, para a estrada a sua frente, e para o carro na sua traseira.
Sua atenção tinha muitos destinos e, quando o sinal ficou amarelo, a camioneta à frente do caminhão acelerou e passou com o sinal já vermelho. O caminhão, que tinha hora para entregar a sua carga, também acelerou e foi na esteira da camioneta. Horácio, ao desviar sua atenção do bloco para o caminhão à sua frente, viu que este segui adiante e fez o mesmo. Everaldo, que estava com o seu horário queimado e não via a hora da maldita sinaleira esverdear, acelerou e acertou a lateral do carro de Horácio, que rodou antes de alcançar a pista oposta à de Everaldo onde Soninha não tinha pressa, mas já tinha arrancado seu carro, e acabou por acertar novamente o carro do já fraturado Horácio. Seu Argeu assistiu a tudo de seu verona prudentemente parado para o sinal vermelho.
Depois de passar pelos ferro-velhos (que devem sobreviver vendendo sucata uns para os outros, tantos que são eles) o verde torna-se mais freqüente, e a agradável luz da manhã acaba por deixar a região bonita, coisa que não é regularmente. O trem branco cruza o seu caminho azul com considerável pressa.
A pista simples e sem acostamento restringe a velocidade da viagem à lentidão do carro a frente. Formam-se comboios encabeçados por grandes caminhões ou carros com dois dígitos de idade. A melhor opção passa a ser olhar ao redor e contentar-se com o que há para ser visto. Ao observar o céu a sua frente, Horácio elabora a frase "um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena" e pensa que é uma boa maneira de começar um texto, um conto, um romance. A imagem de um trem de nuvens também funcionaria em um poema, pondera. Precisa anotar aquilo, não pode deixar passar. Pega então o bloquinho no qual, com pouquíssima disciplina, anota o consumo de combustível de seu carro, no porta-luvas. A operação é delicada, já que precisa manter um olho no caminhão que está na sua frente e outro ao verona apressado colado na sua traseira. Seu motorista parece manter a esperança de que conseguirá, em breve, espaço suficiente para ultrapassar. Horácio, com o bloco na mão esquerda e caneta na direita, mede as distâncias e estuda os comportamentos de seus dois vizinhos de estrada. Passa a tarefa de conduzir o veículo a seu joelho e dá-se conta de que a simples tarefa de escrever uma frase já formulada ganha proporções maiores com o veículo em movimento. Prossegue lentamente, alternando atenções para o papel, para a estrada a sua frente, e para o carro na sua traseira.
Sua atenção tinha muitos destinos e, quando o sinal ficou amarelo, a camioneta à frente do caminhão acelerou e passou com o sinal já vermelho. O caminhão, que tinha hora para entregar a sua carga, também acelerou e foi na esteira da camioneta. Horácio, ao desviar sua atenção do bloco para o caminhão à sua frente, viu que este segui adiante e fez o mesmo. Everaldo, que estava com o seu horário queimado e não via a hora da maldita sinaleira esverdear, acelerou e acertou a lateral do carro de Horácio, que rodou antes de alcançar a pista oposta à de Everaldo onde Soninha não tinha pressa, mas já tinha arrancado seu carro, e acabou por acertar novamente o carro do já fraturado Horácio. Seu Argeu assistiu a tudo de seu verona prudentemente parado para o sinal vermelho.
terça-feira, setembro 11, 2007
Peter Pan
A seguinte resenha, escrita com tinta esferográfica verde, foi encontrada entre livros antigos. Especialistas estimam que tenha sido escrita por volta do ano de 1988:
"Peter Pam" é um livro que acho que todo mundo conhece. Este livro fala de um menino que procura sua sombra e agora se querem saber mais va na livraria e compre "Peter Pam".
"Peter Pam" é um livro que acho que todo mundo conhece. Este livro fala de um menino que procura sua sombra e agora se querem saber mais va na livraria e compre "Peter Pam".
segunda-feira, agosto 27, 2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
quarta-feira, agosto 15, 2007
Na fragmentação, perde valor o todo.
Ou, no todo fragmentado, a parte perde relevância. A parte é órfã de uma alma total.
Uma moeda de 10 centavos não VALE dez centavos de um real.
Como fazer para partilhar sem perder a dimensão total?
Haverá um mecanismo para dar conta da desvalorização proporcional à repartição?
Quando há quase um demérito em ser parte, a solução parece ser o todo.
Como fazer a VALORIZAÇÃO inversa da parte?
Ou, no todo fragmentado, a parte perde relevância. A parte é órfã de uma alma total.
Uma moeda de 10 centavos não VALE dez centavos de um real.
Como fazer para partilhar sem perder a dimensão total?
Haverá um mecanismo para dar conta da desvalorização proporcional à repartição?
Quando há quase um demérito em ser parte, a solução parece ser o todo.
Como fazer a VALORIZAÇÃO inversa da parte?
sexta-feira, agosto 10, 2007
Parado no ar
Contradança, concordando com o par que vem
Acordando em sossego
Vem servindo de novo
Vem zunindo, soando e silêncio
Suado de novo,
Soando e suados, caímos os dois
Acabados
Contratempos, tantos e quantos
Como que pedalando contra o vento
O quanto pudesse agüentar
Ainda em silêncio
Mais, mais
Mais e mais
Do mesmo que não canso de provar
E acabei lambuzado
Espera um pouco,
Deixa o vento passar
Vou ficar aqui parado
Em silêncio.
Acordando em sossego
Vem servindo de novo
Vem zunindo, soando e silêncio
Suado de novo,
Soando e suados, caímos os dois
Acabados
Contratempos, tantos e quantos
Como que pedalando contra o vento
O quanto pudesse agüentar
Ainda em silêncio
Mais, mais
Mais e mais
Do mesmo que não canso de provar
E acabei lambuzado
Espera um pouco,
Deixa o vento passar
Vou ficar aqui parado
Em silêncio.
quinta-feira, agosto 02, 2007
IV CANTO (o último e eterno canto do primeiro quadro)
agora só faltam as cores
e arrematar os detalhes
- tarefa não menos distinta
graça
a gente busca de graça
a nossa busca é de graça
dentro e fora do quadro
a gente ri junto
com dois pontos um plano de gráfico:
(eu rascunho sobre o livro de cálculo)
esboço uma curva ascendente
o traço se vai adiante
o trinco da porta cochicha - infinito
e arrematar os detalhes
- tarefa não menos distinta
graça
a gente busca de graça
a nossa busca é de graça
dentro e fora do quadro
a gente ri junto
com dois pontos um plano de gráfico:
(eu rascunho sobre o livro de cálculo)
esboço uma curva ascendente
o traço se vai adiante
o trinco da porta cochicha - infinito
III CANTO
um pé no chão
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
a vida chama
que ascende e queima
a vida derrama
um balde de tinta na gente
e a gente vela e desvela
e a gente tenta pô-la na tela
fazemos arte - a gente parte
e a vida cumprimenta
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
a vida chama
que ascende e queima
a vida derrama
um balde de tinta na gente
e a gente vela e desvela
e a gente tenta pô-la na tela
fazemos arte - a gente parte
e a vida cumprimenta
II CANTO
há luz debaixo da cama
há luz por trás do vermelho
há luz batendo na porta
há dias vind'ouros chegando
e aquelas estrelas que brilham
brilharão em outros céus
pois que há luz sobre as trevas
há luz antes dos sóis
há nós
que não desatam
há luz por trás do vermelho
há luz batendo na porta
há dias vind'ouros chegando
e aquelas estrelas que brilham
brilharão em outros céus
pois que há luz sobre as trevas
há luz antes dos sóis
há nós
que não desatam
Primeiro quarto (esboços do primeiro quadro)
[há algo belo, que transfere o grandioso pra quatro cantos de um quarto]
I CANTO
dispenso o compasso
escrevo estrelas no teto
- a noite vive
acorda a mão em vermelho
amanheço a janela à mão livre
um verde perto da porta
- e parte de um travesseiro
meia na ponta da cama
a cama no meio do quarto
o quarto nos quartos de um quadro
e o tempo guardado no fundo
I CANTO
dispenso o compasso
escrevo estrelas no teto
- a noite vive
acorda a mão em vermelho
amanheço a janela à mão livre
um verde perto da porta
- e parte de um travesseiro
meia na ponta da cama
a cama no meio do quarto
o quarto nos quartos de um quadro
e o tempo guardado no fundo
quarta-feira, julho 25, 2007
Quadro úmido
passo por ali pra me alimentar
do teu ar
sai por uma fresta
um vapor de banho teu
passo por ali pra me molhar
ficaram gotas pingando
- dá pra ver um xampu
misturo na cabeça
banho-me com espuma de ti
do teu ar
sai por uma fresta
um vapor de banho teu
passo por ali pra me molhar
ficaram gotas pingando
- dá pra ver um xampu
misturo na cabeça
banho-me com espuma de ti
Quanto mais se pensa, menos se escreve...
A beleza não é vencer, mas lutar até o fim. Ir até as últimas conseqüências.
quinta-feira, julho 19, 2007
Andaram juntos feito corpos, lado a lado, sem ser necessária uma única palavra, apenas o contato leve e roubado. Uma, bixo puta, indo porque sim, sem bem afeto, sem bem admiração, só uma coisa familiar, um tesão, um impulso que não tem descrição, mas que é a próxima instrução de um programa por seu corpo seguido. Ele, bixo nada. Animal sem vida que desistiu já faz um tempo, que não se importa e só espera. Bixo nada que encontrou uma coisa que havia perdido. Após perder suas vontades, se deixou levar, foi caindo, descendo e rolando, esperando que um barranco um pouco mais significativo quebrasse seu pescoço de uma vez e acabasse logo com isso. Agora, tinha uma obsessão.
Obsecou pelo gosto provado. Riu novamente, depois de tempos, se bem que de maneira furtiva, até mesmo sem jeito. Envergonhou porque acabou aprendendo que não ria, e achou que sua alegria é sinal de fraqueza. Ao mesmo tempo, ela levantou as calças, como que por acaso, quase que com indiferença. Não riu, da mesma maneira que não gozou. Ou gozou, mas não se importou. Do alto de um tesão mecânico, saiu a passo do beco. Parou debaixo do poste, abriu a bolsa e catou uma pastilha. Seguiu à esquerda e depois rua acima. Na porta, demorou-se com as chaves, abriu, fechou. Subiu três lances de escada, mais uma última porta. Uma vez em casa, despiu-se de alguma fantasia que ainda restava e deitou a cabeça tranqüilamente, conforme era de praxe.
sábado, junho 30, 2007
Nada muda
Nada serve, tudo muda.
Um esforço
após o outro
revela-se em vão.
Em um minuto
o quarto vira em hora,
a hora vira em sono
e o branco permanece
um alvo na tela.
Nem um bumbo reto,
marcial,
se vê capaz
de espantar
esse silêncio.
Um esforço
após o outro
revela-se em vão.
Em um minuto
o quarto vira em hora,
a hora vira em sono
e o branco permanece
um alvo na tela.
Nem um bumbo reto,
marcial,
se vê capaz
de espantar
esse silêncio.
quinta-feira, junho 28, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
Medusa às avessas
não dão sossego
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar
(gente passatempo
todo mundo quer girar)
a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar
o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante
(bom dia é um dia escapado, veloz)
bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena
perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria
soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite
e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada
(olhos de gente nunca chegam)
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar
(gente passatempo
todo mundo quer girar)
a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar
o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante
(bom dia é um dia escapado, veloz)
bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena
perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria
soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite
e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada
(olhos de gente nunca chegam)
segunda-feira, junho 18, 2007
terça-feira, junho 12, 2007
She's not a girl who misses much
Madalena terminou seu café da manhã e subiu para buscar sua mochila. No banheiro, observou-se demoradamente enquanto escovava seus dentes com uma impaciência típica de seus 16 anos. Sentiu-se cansada e resolveu ser diferente aquele dia.
Antes de continuar, é importante conhecer um pouco mais de Madalena:
Antes de continuar, é importante conhecer um pouco mais de Madalena:
No dia anterior, Madalena passara a tarde rodeada por seu séquito. No anterior também. E antes desse, idem. Era bonita, como muitas gurias aos 16. Mas, mais que isto, afinal todo mundo têm 16 uma vez na vida, era confiante. Morena de cabelos lisos, sabia sorrir para conquistar e sorrir para magoar. As colegas davam tudo para serem eleitas, e Madá era tirana. Algumas menos dotadas ganhavam seus momentos de preferência e aproveitavam enquanto podiam. As preferidas desfilavam como artistas. Enquanto se contentavam em ser belas coadjuvantes, Madá tratava-as como iguais. Bastava não tentarem se impor e tudo estava resolvido. Enfim, tinha o mundo a seus pés (ainda que, aos 16 anos de idade, o mundo se resuma, basicamente, pelo seu colégio e alguns poucos grupos destacados de outros colégios da cidade).
Mas Madalena era assim muito por ser linda e por ter a oportunidade. Era esperta e sabia lidar com pessoas. Como por instinto, reconhecia os elementos de um grupo e orquestrava tudo a seu bel prazer. Ao mesmo tempo, ela tinha essa coisa por dentro. De quando em vez, precisava de solidão. Queria ficar sozinha, deprimia-se com isso, mas não podia lutar contra. Fora por causa disto que Sandra caíra.
Sandra era uma espécie de número dois. Eram inseparáveis. Ditavam o que era e o que deixava de ser. Onde ir e o que era engraçado, inteligente ou bobagem. Mas Sandra fez pouco de Madá quando esta, num ataque de melancolia fora de hora, mandou todo mundo embora e quis, desesperadamente, ficar sozinha, às três da tarde! Sandra caiu em desgraça no conceito de Madalena, e, conseqüentemente, do grupo todo. Hoje, Sandra é, condenscendentemente, autorizada a participar das reuniões, das festas, do recreio, como uma figurante "querida".
Pois, esta manhã, Madalena sentiu-se, mais uma vez, cansada de tudo isto. Deixou seu boné da Adidas em cima da cama e colocou o Panamá de seu pai. Olhou-se mais uma vez no espelho, pegou sua mochila e foi para o colégio. Quando estava chegando, alguma coisa houve. Todo o séquito com seus bonés levemente tortos olhou e se sentiu "out". Ainda que todo mundo em volta estivesse com um boné, a partir daquele momento elas não tinham certeza de que era a coisa certa a fazer. Madá sentiu o desequilibrio que tinha criado e sentiu-se desconfortável em saber que uma decisão sua era capaz de criar uma pequena revolução. Só sentiu-se confortável quando seus olhos encontraram os olhos daquela guria de preto, que usava um all-star e estava sozinha com seu mp3. Não sabia bem por que, mas ela entendia.
segunda-feira, junho 11, 2007
Através
A vida não é a liberdade, mas o que se faz com ela.
O relógio vai empilhando números, funcionando taliqual uma esteira de fábrica. Entram segundos, saem horas, em questão de minutos. O tempo não deixa resíduos de si. Talvez porque nem exista o que restar. Não é apreensível - mente o relógio. O homem não penetra no tempo, doutro modo não haveria liberdade alguma. É certo que algumas restrições existem, mas não se dão no tempo; a qualidade da liberdade não se dá, então, pelo tempo, pois não há liberdade onde não possa haver impedimento.
Isto pensado idealmente. Pois não só os relógios estão por aí aos bilhares com seus tiquetaques incessantes, como o mundo gira em períodos demarcáveis, e a vida - humana - acontece em sessenta anos, mais ou menos. O tempo em si não foi inventado pelo homem, esteve aí a pré-história para não nos deixar mentir. Mas a liberdade permitiu inclusive que se compreendesse o tempo sob diversas perspectivas, e a isto se seguem valores e comportamentos vários. O homem racionalizou o tempo, deu-lhe um sentido em sua vida. Talvez por achá-lo razoavelmente incompreensível no absoluto, tratou de reparti-lo. Que faria alguém com a eternidade?
Tomando uma, talvez outra, de suas invenções: o dinheiro. Que faria um homem com uma nota de cem trilhões de dólares? Com quanta liberdade estamos dispostos a lidar? Quem está disposto a aceitá-la?
Nascemos com a memória, e não tivemos de ensiná-la a apreender. O que podemos falar de nossa vida, passa por sua apreensão. E por nossa linguagem. Mas fiquemos com a memória, por enquanto. Ela não distribui o que apreendeu da vida em tópicos, porque não atribui um mesmo valor a todas experiências. Quem sabe aquilo que fez incontáveis vezes seja o mais esquecido, quem sabe por isso mesmo. A quantidade não é primordial para a memória. Se ainda não podemos dizer que o que conta na vida não é quantificável, talvez possamos dizer que quem conta não está preocupado com isso. Tampouco este contador de histórias - ou esta contadora, já que aqui se fala da memória - tem a marcação do tempo na ponta da língua, ou toma-lhe como indissociável dos fatos. Não, isso não lhe parece tão importante. Datas precisas tanto fazem, horas se atropelam, minutos se resumem. O que fica na memória - a vida que não perece, ao menos enquanto sãos vivemos - atravessa os anos, atravessa os lugares, e se pensarmos profundamente, atravessam mesmo as pessoas, até alcançar um ponto fixo de sentimento, que nos acompanha não por outro motivo senão porque também somos aquele ponto.
Se soou óbvio dizer que o que fica é o que atravessa, ou seja, continua, é porque a linguagem tem por natureza a simplicidade, assim como a natureza tem esta por linguagem. Flocos de neve descem a encosta do morro pela gravidade. Unem-se e continuam descendo. Crescem porque vão encontrando mais flocos pelo caminho. Já deixaram de ser o que eram. Mas não deixaram de ser. E sempre terão sido. E assim sempre serão.
O relógio vai empilhando números, funcionando taliqual uma esteira de fábrica. Entram segundos, saem horas, em questão de minutos. O tempo não deixa resíduos de si. Talvez porque nem exista o que restar. Não é apreensível - mente o relógio. O homem não penetra no tempo, doutro modo não haveria liberdade alguma. É certo que algumas restrições existem, mas não se dão no tempo; a qualidade da liberdade não se dá, então, pelo tempo, pois não há liberdade onde não possa haver impedimento.
Isto pensado idealmente. Pois não só os relógios estão por aí aos bilhares com seus tiquetaques incessantes, como o mundo gira em períodos demarcáveis, e a vida - humana - acontece em sessenta anos, mais ou menos. O tempo em si não foi inventado pelo homem, esteve aí a pré-história para não nos deixar mentir. Mas a liberdade permitiu inclusive que se compreendesse o tempo sob diversas perspectivas, e a isto se seguem valores e comportamentos vários. O homem racionalizou o tempo, deu-lhe um sentido em sua vida. Talvez por achá-lo razoavelmente incompreensível no absoluto, tratou de reparti-lo. Que faria alguém com a eternidade?
Tomando uma, talvez outra, de suas invenções: o dinheiro. Que faria um homem com uma nota de cem trilhões de dólares? Com quanta liberdade estamos dispostos a lidar? Quem está disposto a aceitá-la?
Nascemos com a memória, e não tivemos de ensiná-la a apreender. O que podemos falar de nossa vida, passa por sua apreensão. E por nossa linguagem. Mas fiquemos com a memória, por enquanto. Ela não distribui o que apreendeu da vida em tópicos, porque não atribui um mesmo valor a todas experiências. Quem sabe aquilo que fez incontáveis vezes seja o mais esquecido, quem sabe por isso mesmo. A quantidade não é primordial para a memória. Se ainda não podemos dizer que o que conta na vida não é quantificável, talvez possamos dizer que quem conta não está preocupado com isso. Tampouco este contador de histórias - ou esta contadora, já que aqui se fala da memória - tem a marcação do tempo na ponta da língua, ou toma-lhe como indissociável dos fatos. Não, isso não lhe parece tão importante. Datas precisas tanto fazem, horas se atropelam, minutos se resumem. O que fica na memória - a vida que não perece, ao menos enquanto sãos vivemos - atravessa os anos, atravessa os lugares, e se pensarmos profundamente, atravessam mesmo as pessoas, até alcançar um ponto fixo de sentimento, que nos acompanha não por outro motivo senão porque também somos aquele ponto.
Se soou óbvio dizer que o que fica é o que atravessa, ou seja, continua, é porque a linguagem tem por natureza a simplicidade, assim como a natureza tem esta por linguagem. Flocos de neve descem a encosta do morro pela gravidade. Unem-se e continuam descendo. Crescem porque vão encontrando mais flocos pelo caminho. Já deixaram de ser o que eram. Mas não deixaram de ser. E sempre terão sido. E assim sempre serão.
segunda-feira, junho 04, 2007
Grovska ( 2 )
Derrubou o telefone no susto. Heitor desapareceu. Bruna chamava André, desde o azulejo frio da cozinha, sabendo nada do que se passava. Ouvia seu nome, cada vez mais alto, como no despertador. Mirava o telefone, era sua namorada chmando da Itália, tanto queria lhe falar. Mas se mantinha inerte. Balbuciou, o medo antecipando-se às sílabas: Gro-vs-ka.
O que lhe acontecera? Parecia um papagaio, seu vocabulário reduzido a uma palavra. Tentou mais uma dúzia de vezes e comprovou. Era Grovska, e nada além disso. Estava perdido, não podia recorrer à Bruna, que a esta altura nem estava mais na linha, tampouco entenderia. Precisava de um amigo, alguém haveria de ter idéia do que se lhe passava, alguém que o ajudasse a recuperar suas palavras. Não podia aquilo: falava, mas não havia conexão com sua vontade. E que diabos era Grovska? Soava como russo, como se estivesse bêbado - sim, como se falasse enquanto garagarejava uma considerável dose de vodka. Tentou acalmar-se. Foi lavar o rosto. Ainda tinha seus pensamentos. Era só uma questão de libertá-los. Escovou os dentes, a escova de Bruna. Olhava-se no espelho, não parecia diferente em qualquer aspecto. Foi ligar o computador, mandaria e-mails para os mais chegados. Desistiu assim que começou a escrever - leriam tarde, certamente, e ainda responderiam com incredulidade. Teve uma idéia, buscou o celular. Mandaria uma mensagem de socorro. Pensou no único amigo que poderia estar acordado àquela hora. Gustavo tinha uma academia de ginástica, levantava cedo. Apressou-se em digitar.
---
O telefone tocou. Atendeu sem pronunciar sua sentença. Gustavo chamou:
- André?
- Grovska... esforçou-se para dizer, apesar da vergonha: era necessário que o amigo ouvisse. Gustavo desatou a rir. Fez elogios ao bom humor de André em pleno meio de semana.
- Mas e aí, o que me conta, rapaz?
- ...
- Hã?
- Grovska.
- Tss. Tá, guri, vi levar adiante agora essa história? Que que é, saudade da Bruna? Tá carente, é?
- ...
- André?
- Gr...ovs...ka.
- Ô André, quer saber, vai tomá banho! Eu tenho mais o que fazer.
É. Ele também não o levaria a sério. Bobagem que fizera, chamar o Gustavo. Tinha de buscar um médico, e teria de ir pessoalmente. Foi vestir-se. Era caso de ir no pronto-socorro. Era isso que faria. Lembrou-se ainda de pegar papel e caneta, de algum jeito expressaria seu martírio e faria entender-se. Não deixou de ajeitar a gravata, a situação solicitava credibilidade. Pegou as chaves e dirigiu-se à porta.
O som das chaves entrechocando-se o despertou.
- Grovska!, disse ao acordar. Achou estranho, tossiu, esqueceu. Heitor olhava-o ao pé da cama, a testa enrugada.
O que lhe acontecera? Parecia um papagaio, seu vocabulário reduzido a uma palavra. Tentou mais uma dúzia de vezes e comprovou. Era Grovska, e nada além disso. Estava perdido, não podia recorrer à Bruna, que a esta altura nem estava mais na linha, tampouco entenderia. Precisava de um amigo, alguém haveria de ter idéia do que se lhe passava, alguém que o ajudasse a recuperar suas palavras. Não podia aquilo: falava, mas não havia conexão com sua vontade. E que diabos era Grovska? Soava como russo, como se estivesse bêbado - sim, como se falasse enquanto garagarejava uma considerável dose de vodka. Tentou acalmar-se. Foi lavar o rosto. Ainda tinha seus pensamentos. Era só uma questão de libertá-los. Escovou os dentes, a escova de Bruna. Olhava-se no espelho, não parecia diferente em qualquer aspecto. Foi ligar o computador, mandaria e-mails para os mais chegados. Desistiu assim que começou a escrever - leriam tarde, certamente, e ainda responderiam com incredulidade. Teve uma idéia, buscou o celular. Mandaria uma mensagem de socorro. Pensou no único amigo que poderia estar acordado àquela hora. Gustavo tinha uma academia de ginástica, levantava cedo. Apressou-se em digitar.
---
O telefone tocou. Atendeu sem pronunciar sua sentença. Gustavo chamou:
- André?
- Grovska... esforçou-se para dizer, apesar da vergonha: era necessário que o amigo ouvisse. Gustavo desatou a rir. Fez elogios ao bom humor de André em pleno meio de semana.
- Mas e aí, o que me conta, rapaz?
- ...
- Hã?
- Grovska.
- Tss. Tá, guri, vi levar adiante agora essa história? Que que é, saudade da Bruna? Tá carente, é?
- ...
- André?
- Gr...ovs...ka.
- Ô André, quer saber, vai tomá banho! Eu tenho mais o que fazer.
É. Ele também não o levaria a sério. Bobagem que fizera, chamar o Gustavo. Tinha de buscar um médico, e teria de ir pessoalmente. Foi vestir-se. Era caso de ir no pronto-socorro. Era isso que faria. Lembrou-se ainda de pegar papel e caneta, de algum jeito expressaria seu martírio e faria entender-se. Não deixou de ajeitar a gravata, a situação solicitava credibilidade. Pegou as chaves e dirigiu-se à porta.
O som das chaves entrechocando-se o despertou.
- Grovska!, disse ao acordar. Achou estranho, tossiu, esqueceu. Heitor olhava-o ao pé da cama, a testa enrugada.
sexta-feira, junho 01, 2007
E ainda contam sobre dias e noites
que acolhem aqueles sedentos pelo silêncio
De maneira inversa,
sentem o barulho
bumbar em pranto alheio
Sentem pena dos tempos
orquestrados para ninguém sentir
Só inventam casos,
diversos
passos até cairem em si
Ao final das contas,
sentem a saudade do que um qualquer sentiu em disco
Para que, afinal?
Se podem voltar a mentir,
Incômoda
mas única saída
honrada
conhecida.
que acolhem aqueles sedentos pelo silêncio
De maneira inversa,
sentem o barulho
bumbar em pranto alheio
Sentem pena dos tempos
orquestrados para ninguém sentir
Só inventam casos,
diversos
passos até cairem em si
Ao final das contas,
sentem a saudade do que um qualquer sentiu em disco
Para que, afinal?
Se podem voltar a mentir,
Incômoda
mas única saída
honrada
conhecida.
quinta-feira, maio 31, 2007
Limites
Infindáveis vezes proclamou de peito aberto sua liberdade. E outras tantas precisou adiar seus planos por pequenos compromissos ou acasos. Desta maneira, Carlos viu seu chão se abrir e seu mundo escorrer pela fenda a seus pés. Seu mundo naquele momento resumia-se basicamente por Maria Teresa, a quem tinha em grande consideração e por quem pensava já ter feito notáveis sacrifícios. Mas, a julgar pelas atitudes (melhor dizendo, pela atitude) da moça, barulho não significa grande coisa para ela.
Maria Teresa não se contentava com palavras, mesmo quanto a grandes gestos ela era retiscente. Ela acreditava muito mais nos pequenos gestos do cotidiano, na vida que se leva quando não se está provando nada para ninguém. E era aí que Carlos falhava, de acordo com os critérios de Maria Teresa. Carlos era dependente. Dependia de sua rotina, dependia dela, Maria Teresa, dependia da aprovação dos pais e dos amigos. Afirmar-se livre era para ele grande feito, mas para ela não tinha valor.
Pois desta vez parecia que era definitiva a perda de Maria por Carlos. Como foram todas as outras, enfim. Mas esta era ainda mais definitiva. Ela esgotara todas as suas paciências (uma das virtudes de Maria Teresa era não ter apenas uma, mas várias paciências). Argumentara e perdera contra uma compulsão. E Maria Teresa queria ser, tinha que ser, a maior compulsão de Carlos. Carlos fumava, mas o fazia só para demonstrar sua independência dos pais (aos 32 anos, convenhamos...). Com isto Maria podia lidar sem grandes esforços.
Maria Teresa não lidava. Não conseguia ser indiferente, não podia. Não conseguira acabar com a mania de Carlos de lavar seu cinzeiro a cada cigarro que fumava. E o cara fumava uma carteira por dia. Não podia ver alguém lavar um cinzeiro 20 vezes por dia e ainda querer explicar que havia lógica por trás disto.
quarta-feira, maio 30, 2007
Prudência, uma palavra (esboço)
Prudência era uma senhora de traços bem marcados. Passara anos longe da vida pública das palavras, quando muito aparecia numa esquecida nota de roda pé. Na fase madura, despontara com vistosas maçãs no rosto. Como era saudável, a senhorita Prudência! E todos vinham à sua janela ouvir suas ponderações. Começava cedinho, mal o galo cantava, faziam fila em frente à casa de Prudência. Eram tempos em que havia algum. Deixavam um agrado, a maioria, mesmo que Prudência não solicitasse. Houve quem fizesse igreja, Igreja da Santa Prudência, que tomou bairros distantes. Facilitava, encurtava caminho, as pessoas conversavam com uma imagem de Prudência e seu olhar interrogativo. A Prudência era amiga das interrogações, respondia com perguntas, sempre. Era bom ouvir suas perguntas, fazia parecer que o tempo nem era urgente. Até o dia em que encontraram Dona Urgência estirada na avenida, atropelada por um corretor de ações. O som das sirenes comprou buzinas e despertadores, até apropriar-se definitivamente dos já desgastados canto do passarinho e correr do riacho. Prudência já não escutava o sino de sua igreja (ainda havia uma, próxima de sua quitinete). Comprou um MP3 player pra melhor ponderar. Investiu em um bom par de fones, não os tirava nem para dormir, e isso era prudente, pois a noite deixara de existir havia um bocado de anos.
A Prudência pensava no sentido da vida, de sua vida. Onde se encaixava sua existência? Ela esmorecia, mas isto não significava que se tornava imprudente. Há palavras de honra. Prudência tateava o ar de uma dimensão que se desinventava.
A Prudência pensava no sentido da vida, de sua vida. Onde se encaixava sua existência? Ela esmorecia, mas isto não significava que se tornava imprudente. Há palavras de honra. Prudência tateava o ar de uma dimensão que se desinventava.
segunda-feira, maio 28, 2007
O Infante
Tô suspeitando desse cara de zero
que me dá zero motivos
- é um impassível
Diz-me nada e essa pinta absoluta
Passa-lhe o infinito aos olhos
e... resoluto! Impossível!
Ah, se eu soubesse zerar por um instante!
Eu lhe diria como a vida é expressiva
que seu silêncio só quer dizer
e mais não pode
que o poder é ser uno e ter
o infinito em si
mas a verdade é que não entendo
esse cara de zero
mas tô tentando, tô tendendo
que me dá zero motivos
- é um impassível
Diz-me nada e essa pinta absoluta
Passa-lhe o infinito aos olhos
e... resoluto! Impossível!
Ah, se eu soubesse zerar por um instante!
Eu lhe diria como a vida é expressiva
que seu silêncio só quer dizer
e mais não pode
que o poder é ser uno e ter
o infinito em si
mas a verdade é que não entendo
esse cara de zero
mas tô tentando, tô tendendo
meio-par
se par
por que se parte
já no começo
por que separam
param passados
por que se esquecem
partida
por que se parte
por toda a vida
por que não porto
por todo o sempre
por toda parte
por que partir
não é chegada
a cada instante
pela metade
por que o tempo
passa por dois
por que se lembra
parece perto
de não passar
pelos que passam
por que não sei
por que passeiam
perece um gesto
de todo o resto
só resta meio
por que se parte
já no começo
por que separam
param passados
por que se esquecem
partida
por que se parte
por toda a vida
por que não porto
por todo o sempre
por toda parte
por que partir
não é chegada
a cada instante
pela metade
por que o tempo
passa por dois
por que se lembra
parece perto
de não passar
pelos que passam
por que não sei
por que passeiam
perece um gesto
de todo o resto
só resta meio
quarta-feira, maio 23, 2007
Choro
manhã em Porto Alegre
choram os guarda-chuvas
é um choro vertido
como os versos dos desencontrados
há uma falta, uma ausência líquida
a saudade escorre pelas ruas
ninguém se vê
o dia penetra bueiros e vai ter com os ratos
choram os guarda-chuvas
é um choro vertido
como os versos dos desencontrados
há uma falta, uma ausência líquida
a saudade escorre pelas ruas
ninguém se vê
o dia penetra bueiros e vai ter com os ratos
sexta-feira, maio 18, 2007
Força Centrífuga
Fixamente a moça olha para o ponto no centro
Levemente excêntrico
Leva a mente à tensão
Fixação irremediável no centro do disco
Lentamente, arranhado
Lenta sente, do lado de dentro
Passo a passo, posta de lado
Fixa a mente numa besteira qualquer
Não toma mais coragem num só fôlego
Toma um susto indolor
Arrepio qualquer esperando no ponto
O centro vazio deixando o vento soprar
E o escuro, o escuro se fecha
Levemente a rodar.
Levemente excêntrico
Leva a mente à tensão
Fixação irremediável no centro do disco
Lentamente, arranhado
Lenta sente, do lado de dentro
Passo a passo, posta de lado
Fixa a mente numa besteira qualquer
Não toma mais coragem num só fôlego
Toma um susto indolor
Arrepio qualquer esperando no ponto
O centro vazio deixando o vento soprar
E o escuro, o escuro se fecha
Levemente a rodar.
quarta-feira, maio 16, 2007
Morro Dois Irmãos
Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada
E a teus pés vão-se encostar os instrumentos
Aprendi a respeitar tua prumada
E desconfiar do teu silêncio
Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
E assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos
E assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento
Chico Buarque
E a teus pés vão-se encostar os instrumentos
Aprendi a respeitar tua prumada
E desconfiar do teu silêncio
Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
E assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos
E assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento
Chico Buarque
terça-feira, maio 08, 2007
terça-feira, maio 01, 2007
Trago largo
Ponho de lado a razão que,
em alto e bom som,
me fizeste esquecer.
Sigo pontos,
pontos de fuga assinalados
que atingem em cheio dois olhos.
Raros momentos,
uma dupla
acompanhando atenta toda a ação,
esperando algo acontecer.
Em um trago largo,
num único gole sorvo toda,
e o que sobra é um gosto amargo
que não me deixa dormir.
Escolho não responder,
crescer está fora de meus planos.
Sentada a minha frente pergunta calada e dou risada.
Passo a frente e receio que o passado me condene.
Um velho perguntou e deixei no ar,
por pouco não me perco.
Num instante de desleixo
põe-se tudo por água abaixo.
O amargo não vai embora
e não encontro razão para acordar.
em alto e bom som,
me fizeste esquecer.
Sigo pontos,
pontos de fuga assinalados
que atingem em cheio dois olhos.
Raros momentos,
uma dupla
acompanhando atenta toda a ação,
esperando algo acontecer.
Em um trago largo,
num único gole sorvo toda,
e o que sobra é um gosto amargo
que não me deixa dormir.
Escolho não responder,
crescer está fora de meus planos.
Sentada a minha frente pergunta calada e dou risada.
Passo a frente e receio que o passado me condene.
Um velho perguntou e deixei no ar,
por pouco não me perco.
Num instante de desleixo
põe-se tudo por água abaixo.
O amargo não vai embora
e não encontro razão para acordar.
quinta-feira, abril 26, 2007
Aniquila
repetição repetição
atenção vamos repetir
repetição repetição
acostume esquecer
repetição repetição
calma só um pouco mais
repetição repetição
até o silêncio estilhaça
repetição repetição
sintetiza o tempo
repetição repetição
corrói o espaço
pra quem não caiu
repete
atenção vamos repetir
repetição repetição
acostume esquecer
repetição repetição
calma só um pouco mais
repetição repetição
até o silêncio estilhaça
repetição repetição
sintetiza o tempo
repetição repetição
corrói o espaço
pra quem não caiu
repete
segunda-feira, abril 23, 2007
Caixa de fotografias
Encontro vago, encontro cego
um pouco de mudança e
um tanto assustado.
Mesma como se fosse ontem.
Dias assim, acompanho calado,
mudo de pavor,
modo de espera,
Ponho de lado, sem discussão.
Ponho à prova tua imagem,
rabiscando baixinho, traço sereno.
Risco rasgado,
Grafite guinchando em papel.
Encontra mesma mudança
Num vago susto desperta
Fitas a postos e todos olham
Meu papelão em widescreen.
Fotos de ontem e de outros dias
Não mostram o mesmo
Mudam comigo
Revelam quem me tornei.
um pouco de mudança e
um tanto assustado.
Mesma como se fosse ontem.
Dias assim, acompanho calado,
mudo de pavor,
modo de espera,
Ponho de lado, sem discussão.
Ponho à prova tua imagem,
rabiscando baixinho, traço sereno.
Risco rasgado,
Grafite guinchando em papel.
Encontra mesma mudança
Num vago susto desperta
Fitas a postos e todos olham
Meu papelão em widescreen.
Fotos de ontem e de outros dias
Não mostram o mesmo
Mudam comigo
Revelam quem me tornei.
D'EMO: exorcize-se
meu melhor amigo,
finalmente tomei coragem, ah
mandei a minha demo
por e-mail, para a rádio
e um txt anexado
com as cifras do meu sofrimento
disseram que eu tenho uma queda por lágrimas
e que isso de lamento é ok, que tá saindo bem
você sabe como eu sou, choro por nada
tudo é emotivo
e me dê motivos então, ah
me dê motivos, então ah
encharquei uma guitarra nova com água e sal
é de dar dó
pra parecer retrô, acho que pegou
vou ser all star e dizer que nem tô
vou chorar pra sempre, reclamar do que restou
pra mim é o fim
sabe, acho que esse negócio de nostalgia com derrota contagia
dá pena, cara, dá muita pena
e no ócio dá vontade de chorar
(eu não tenho o que fazer)
não demora outra demo minha sai, espera só
que eu tô só, esperando a outra faixa:
é esperar e a demo baixa
tipo um download, mp3, saca?
finalmente tomei coragem, ah
mandei a minha demo
por e-mail, para a rádio
e um txt anexado
com as cifras do meu sofrimento
disseram que eu tenho uma queda por lágrimas
e que isso de lamento é ok, que tá saindo bem
você sabe como eu sou, choro por nada
tudo é emotivo
e me dê motivos então, ah
me dê motivos, então ah
encharquei uma guitarra nova com água e sal
é de dar dó
pra parecer retrô, acho que pegou
vou ser all star e dizer que nem tô
vou chorar pra sempre, reclamar do que restou
pra mim é o fim
sabe, acho que esse negócio de nostalgia com derrota contagia
dá pena, cara, dá muita pena
e no ócio dá vontade de chorar
(eu não tenho o que fazer)
não demora outra demo minha sai, espera só
que eu tô só, esperando a outra faixa:
é esperar e a demo baixa
tipo um download, mp3, saca?
sábado, abril 21, 2007

Sim, é um jogo. E a incapacidade de conhecer ao mesmo tempo todos os jogadores e seus movimentos, todos os cenários e suas probabilidades é que o tornam tão interessante. A pergunta que cabe a partir daqui é, quem realmente é jogador e quem é peça do jogo.
sexta-feira, abril 20, 2007
Apito inicial
É um jogo - exatamente um jogo. Muito complexo, é verdade. A questão se dá no acesso às regras, no modus operandi. Uma rede inapreensível de interferências, onde cada ser tem seu próprio ponto de vista, individual apenas como manifestação, posto que é influenciado pela infinidade de elementos copartícipes do jogo. É importante observar que a mencionada "individualidade apenas como manifestação" está associada precisamente aos pontos de vista. Um ser não é seu ponto de vista, nem age ou reage unicamente sob seus ditames - é, então, um referencial, constantemente se movimentando com o decurso da experiência. O referencial funciona como um ponto de partida, mas não é ele que gera o movimento do ser. Há o que Schopenhauer chamou vontade de ser. Esta vontade está associada ao mundo exterior, e, dessa maneira, pode entrar no jogo com atribuições de jogadora, já que tem acesso tanto aos dados da realidade como às potencialidades percebidas pela consciência. Ocorre que há uma relação de interdependência entre vontade e objetos exteriores, pois que são consumidos um na determinação do outro. Esta interação impõe limites, pois o sentido da vontade está sempre contaminado pelo mundo exterior, configurando-se assim dentro de suas dimensões.
O homem parece sofrer exatamente por desconhecer as regras que, talvez suponha, o libertariam. Ele quer querer. Da presunção de sua incapacidade para isso é que surge o medo e outras formas de não-ser. A realidade, então, está impregnada da negação de seres, e, mais, da afirmação e do acolhimento desta negação. A prática passa a dar-se pelo inverso. E, estranhamente, sentimos como que uma saudade de algo que não vivemos; e, estranhamente, temos esperança quando tudo, aparentemente, tende ao caos.
O homem parece sofrer exatamente por desconhecer as regras que, talvez suponha, o libertariam. Ele quer querer. Da presunção de sua incapacidade para isso é que surge o medo e outras formas de não-ser. A realidade, então, está impregnada da negação de seres, e, mais, da afirmação e do acolhimento desta negação. A prática passa a dar-se pelo inverso. E, estranhamente, sentimos como que uma saudade de algo que não vivemos; e, estranhamente, temos esperança quando tudo, aparentemente, tende ao caos.
segunda-feira, abril 09, 2007
Diluído
A existência é anterior à representação da existência, claro. Tal evidência dá pistas para uma verdade menos óbvia, que diz respeito à substancialidade das coisas: nenhum signo encerra um significado em sua totalidade. É sempre como uma fotografia que, por mais ampla, nunca capta o todo. De modos diversos, o mesmo ocorre com todas as formas de compreensão e de reprodução da realidade (como é o caso da linguagem) - se bem que a própria compreensão já possa ser entendida como uma reprodução, já que ela também se dá por meio de uma linguagem, talvez a que temos menos acesso, mas ainda assim uma linguagem, pois que o cérebro não faz senão representar. Ocorre que estamos acostumados a tomar conhecimento da existência representada, tendo em vista que, se nossos sentidos nos prestam essa possibilidade, nos restrigem a outra, que seria ter acesso à existência in natura. Parece mesmo que a aproximação a esta existência pura não se dá pela via dos sentidos, pois nunca se encontram certezas de que as verdades estão, de fato, acercando-se da Verdade, ou seja, isto nunca é sabido, é, no melhor dos casos, intuído, configurando-se, assim, mais como um sentimento. O modo racional de representação do infinito é convencionado, e não poderia ser de outra maneira: o infinito não cabe em saber, só pode ser intuído, por isso é taxado por símbolos quando referido, como acontece com a própria palavra infinito. Sozinha, a palavra diz nada (aliás, nada ao infinito), de maneira que só temos uma idéia do que ela pode representar através de sua associação com outras palavras.
[Por enquanto, este pensamento de segunda pára aqui. Já posso ler inconsistência na minha premissa ("Tal evidência dá pistas..."), mas posso ter acertado em alguma coisa (tendo, quem sabe, atirado para muitos lados). O fato é que a idéia de limite tendendo a zero, com que tomo contato agora em Cálculo I, foi que me (ins)pirou. Espero esclarecer alguns pontos que para mim são relevantes disso tudo, o mais breve. E ir adiante.]
[Por enquanto, este pensamento de segunda pára aqui. Já posso ler inconsistência na minha premissa ("Tal evidência dá pistas..."), mas posso ter acertado em alguma coisa (tendo, quem sabe, atirado para muitos lados). O fato é que a idéia de limite tendendo a zero, com que tomo contato agora em Cálculo I, foi que me (ins)pirou. Espero esclarecer alguns pontos que para mim são relevantes disso tudo, o mais breve. E ir adiante.]
segunda-feira, abril 02, 2007
Nunca outra vez
Maurício esticou o braço e abriu a porta do carona. Não foram trocadas palavras, e, a bem dizer, nem olhares se cruzaram. Bastou-lhe a mini-saia. À Anabela, bastaram as rodas imponentes da camionete de Maurício. Imperava o silêncio na noite, bem abaixo das estrelas. O automóvel fez um ruído raso e dobrou na outra esquina. Imóvel, misturado a alguns sacos de lixo no outro lado da rua, dois olhos sobressaltaram-se ao acompanhar a cena. A força derradeira não serviu nem pra levantar. Anabela tinha pernas de vender. Ele era o resto, era o rastro de borracha no asfalto. Ele ficava, Anabela ia. Não sabia aonde.
sábado, março 31, 2007
Quem sabe, amanhã
Mais do que isso, queria possuir um corpo como um animal. E lembrava dela assim mesmo, com vontade, como uma oportunidade para liberar sua mais estranha energia, que mandava nele de maneira incompreensível. Ela era três, uma a cada momento. Agora era fêmea, e tinha se escondido. Ele precisava achá-la, era a única que correspondia a suas investidas. Ela já esteve em instituições psiquiátricas e de vez em quando, nas vezes em que a fome aperta, recorre aos albergues. Esses lugares são difíceis para homens. Tem que estar sempre de olho aberto. Um invejoso, um ladrão, qualquer coisa. Por nada se dá o acontecido. Para mulher não. O pessoal se passa, mas Anabela não se importa, gosta e ganha mimos dos companheiros de noite, como se estivesse fazendo algum favor para eles.
Depois que a encontrava, e se conseguia resolver-se, ela virava um fardo. Ela mudava, e ele queria distância, que se escafedesse de uma vez. Ficava rude com a moça, coitada. Fazia pouco caso, xingava e mandava para longe. Às vezes ela ia, resmungando palavrões desconexos e alternando gritos que escandalizavam quem estivesse ao seu alcance. Cada um ia feder pro seu lado. Anabela desaparecia por dias e com o passar do tempo, quando as vontades voltavam, ele se arrependia. Na verdade, arrepender não é o termo exato. Não tinha noção do mal que tinha feito, não assimilava a culpa. Passado um bom par de dias, suas ações passadas se confundiam, e não discernia se ontem era o dia em que conseguira cachaça ou se fora sua prova de cálculo. Mas penava pela sua falta, de qualquer maneira.
Mas outras vezes Anabela não tomava o rumo. Agüentava as carraspanas e os maltratos no osso do peito, e permanecia por volta. Ela era um cachorrinho que, não sabe bem por que, mas deve obediência a seu dono. Mesmo sob fogo cerrado, permanece fiel, e prefere não se afastar. Nestas ocasiões, ele esquecia do sentimento de asco que o dominava, e, antes da vontade animal voltar a reinar, uma outra forma de relação toma lugar. Uma cumplicidade toma conta. Eles se entendem, admiram o céu ou o parque, aceitam e aprovam a companhia. Quase sem palavras, vivem por breves momentos, uma vida em comum.
Depois que a encontrava, e se conseguia resolver-se, ela virava um fardo. Ela mudava, e ele queria distância, que se escafedesse de uma vez. Ficava rude com a moça, coitada. Fazia pouco caso, xingava e mandava para longe. Às vezes ela ia, resmungando palavrões desconexos e alternando gritos que escandalizavam quem estivesse ao seu alcance. Cada um ia feder pro seu lado. Anabela desaparecia por dias e com o passar do tempo, quando as vontades voltavam, ele se arrependia. Na verdade, arrepender não é o termo exato. Não tinha noção do mal que tinha feito, não assimilava a culpa. Passado um bom par de dias, suas ações passadas se confundiam, e não discernia se ontem era o dia em que conseguira cachaça ou se fora sua prova de cálculo. Mas penava pela sua falta, de qualquer maneira.
Mas outras vezes Anabela não tomava o rumo. Agüentava as carraspanas e os maltratos no osso do peito, e permanecia por volta. Ela era um cachorrinho que, não sabe bem por que, mas deve obediência a seu dono. Mesmo sob fogo cerrado, permanece fiel, e prefere não se afastar. Nestas ocasiões, ele esquecia do sentimento de asco que o dominava, e, antes da vontade animal voltar a reinar, uma outra forma de relação toma lugar. Uma cumplicidade toma conta. Eles se entendem, admiram o céu ou o parque, aceitam e aprovam a companhia. Quase sem palavras, vivem por breves momentos, uma vida em comum.
quinta-feira, março 29, 2007
À luz do poder
Se aquele homem tinha seu caminho desenhado pelas árvores, não viemos nós todos também sendo mais direcionados do que diretores? Nos enquadramos em tantas fronteiras das quais não temos ciência, que soa quase utópico falar em verdadeira liberdade, quem dirá a generalizada.
Se, por um lado, a liberdade não é concedida por quaisquer tipos de ditaduras, por outro, ela tampouco parece estar dada, de maneira natural. Sendo pragmático, a liberdade parece não ter lugar nesse mundo, ainda que a pregação e a instituição do individualismo suponham o contrário. O poder não deixa sombras.
Se, por um lado, a liberdade não é concedida por quaisquer tipos de ditaduras, por outro, ela tampouco parece estar dada, de maneira natural. Sendo pragmático, a liberdade parece não ter lugar nesse mundo, ainda que a pregação e a instituição do individualismo suponham o contrário. O poder não deixa sombras.
quarta-feira, março 28, 2007
Nunca a manhã
Cruzou o grande parque com trajetos sonambulantes, as árvores desenhando seu caminho. Tinha nelas os únicos sinais de uma vida concreta, que desapareciam a cada curva.
Aquela manhã luzia entrecortada por algumas folhas caducas mais teimosas, e as sombras que projetavam não durariam outro amanhecer. O vazio explorava o espaço com seu facão aniquilador, abrindo tudo ao que o frio fazia nada, cada vez mais penetrante. O homem teimava em ficar de pé, sendo pedra fraca. Demorava-se na vez das árvores, como um cão, na ânsia de encontrar Anabela. O sol lhe concedia um sorriso inexpressivo, que nem chegava a ser amarelo. O mundo desfizera-se de som e, monocromático, era só um destempo que parecia divertir-se com a lenta decadência do homem. Era um passar que não passava, um presente duro, sem fim, tal qual uma fotografia triste que fedia como se fosse muito muito velha.
Mas, tão jovem quanto Anabela, sua morte havia começado nas frestas que seu orgulho fizera em seu viver. O derradeiro impulso, que o submetia ao jogo impiedoso da sobrevida, vinha não sabia donde, literalmente: não sabia. Era só ser, livre e decadente. Quisesse - pudesse querer - trocaria seu inútil livre arbítrio por um corpo de animal.
Aquela manhã luzia entrecortada por algumas folhas caducas mais teimosas, e as sombras que projetavam não durariam outro amanhecer. O vazio explorava o espaço com seu facão aniquilador, abrindo tudo ao que o frio fazia nada, cada vez mais penetrante. O homem teimava em ficar de pé, sendo pedra fraca. Demorava-se na vez das árvores, como um cão, na ânsia de encontrar Anabela. O sol lhe concedia um sorriso inexpressivo, que nem chegava a ser amarelo. O mundo desfizera-se de som e, monocromático, era só um destempo que parecia divertir-se com a lenta decadência do homem. Era um passar que não passava, um presente duro, sem fim, tal qual uma fotografia triste que fedia como se fosse muito muito velha.
Mas, tão jovem quanto Anabela, sua morte havia começado nas frestas que seu orgulho fizera em seu viver. O derradeiro impulso, que o submetia ao jogo impiedoso da sobrevida, vinha não sabia donde, literalmente: não sabia. Era só ser, livre e decadente. Quisesse - pudesse querer - trocaria seu inútil livre arbítrio por um corpo de animal.
terça-feira, março 27, 2007
Alegre Manhã no Porto
Sorte e pontes, o cinza volta às ruas da cidade. Os trapos cobrem, mortos vivos, todos misturados, piolhos e pulgas, toda uma sociedade alimentando-se do asco, da umidade e de epitélios mortos. Abaixo deles, um corpo dá vida e energia a esta cultura que teima em enfrentar o frio que castiga já fazem dias, que chegou com vontade este ano e que não dá sinais de apatia. Os trapos, que ele chama de cobertor, não são suficientes para tornar a temperatura confortável. E mesmo que fossem, seu cheiro elimina qualquer possibilidade de aplicação da palavra conforto.
O desapego completo não veio da nobreza de espirito, veio antes da necessidade e orgulho. O costume anestesia. Já não importa atravancar a passagem, que desviem o olhar, que sua presença seja uma bolha de mau cheiro obstruindo a calçada. Foi-se o tempo que vivia da pena. Pedia, explicava, convencia a caridade com um olhar de fome, de desamparo. Agora espera o resto, as sobras de todos que não desistiram. Moedas não lhe são mais úteis, desde que não é mais permitida sua presença em um bar, um restaurante, uma venda. Antes de ser capaz de mostrar algum dinheiro, é convidado a se retirar, na melhor das hipóteses. Enxotado, com mais freqüência.
O desapego completo não veio da nobreza de espirito, veio antes da necessidade e orgulho. O costume anestesia. Já não importa atravancar a passagem, que desviem o olhar, que sua presença seja uma bolha de mau cheiro obstruindo a calçada. Foi-se o tempo que vivia da pena. Pedia, explicava, convencia a caridade com um olhar de fome, de desamparo. Agora espera o resto, as sobras de todos que não desistiram. Moedas não lhe são mais úteis, desde que não é mais permitida sua presença em um bar, um restaurante, uma venda. Antes de ser capaz de mostrar algum dinheiro, é convidado a se retirar, na melhor das hipóteses. Enxotado, com mais freqüência.
Apostou, há um bom tempo atrás, apostou alto. É o problema de mirar na cabeça, o prêmio é grande, mas não pode errar. Mirou e foi, mas não conseguiu. Quando olhou para trás, não tinha mais caminho de volta. Cabeça dura, não confessou o erro, não pediu penico. Cada passo à frente distancia mais a encruzilhada, agora resta esperar.
Loucura e sorte, sua história não poderia ser por ele contada. O tempo solitário, a febre, infecções e paranóias destruiram sua consciência. Duvido ser capaz de manter um diálogo inteligível. Mais certo soltar idéias sem nexo, flashes e ilusões, balbucios.
E assim acordou hoje, um pouco mais tarde do que o normal, porque o sol não veio fustigar seu rosto. Sorriu e sentiu o estômago. Precisava comer, sabia onde encontrar algum com o que enganar. A parte mais complicada é a madrugada. A vigília e o medo misturados com a febre que não deixa repousar. Não tinha nada que interessasse a alguém para ser tirado, mas ainda tinha seu corpo para doer. E sádicos existem. A surra que tomou certa vez não o deixa dormir, o mantém alerta. Repousava tranqüilo, ainda não conhecia as maldades escondidas na noite. Mal teve tempo de acordar e se proteger, chutaram-no sem piedade. Foram apenas alguns segundos, correram e ele ficou sangrando ali no chão. Nos dias seguintes a dor continuava a lembrar, e foi difícil dormir. Os outros dormem em bandos, melhor para se proteger. Mas não é um deles, nunca obteve permissão.
Com um mamão passado servindo de refeição, volta a seu mundo. Enrola-se em seu cobertor, seu reino, e lembra-se de Anabela, fazem dois dias que não aparece (não sabe disto com certeza, confunde-se freqüentemente). Quem sabe hoje tem a sorte de receber sua visita.
quarta-feira, março 21, 2007
segunda-feira, março 19, 2007
Teve um Pedro (versão comprimida para concurso)
O rodomoço desejou boa viagem. Verdade que o ônibus estava quase vazio: vindo do Rio, chegara em Porto Alegre com exatos 3 passageiros. Estes uniram-se a nós, 3 amigos, mochileiros de 1ª viagem, e rumamos ao Chile, país mais comprido do mundo. Não era menor a ansiedade: muito chão a percorrer entre a terra de Drummond e a pátria de Neruda. Mas haveria um Pedro no meio do caminho. Chamava-se Pedro o rodomoço. E passou a ser nosso guia.A Argentina nos deu as boas-vindas com infinitos girassóis, mas Pedro, chileno que era, não falaria de flores neste terreno. Chilenos têm rixa com argentinos, de guerras distantes. Sobraram piadas nesse trajeto. Só cessariam frente à imponência dos Andes – era mesmo de silenciar. Sentia-se a solidão dos primeiros exploradores. Na fronteira, paramos. Sem pensar, corremos à água que descia ao pé da montanha. Pedro impediu que a guarda chilena soltasse cachorros contra nós – era proibido. Desculpamo-nos com o fôlego que nos restara. Viria dos céus a resposta de Pedro, e, enquanto a neve caía, tivemos certeza de que o que vissem nossos olhos sobre o Chile, teria o olhar de Pedro, um eterno explorador. Poetizara Neruda, “o mundo era do ar que esperava”.
[Se não gostaste, vá em www.ci.com.br, em "Concurso Viajante CI", e vota neste texto, a fim de que eu ganhe de aniversário uma viagem de um mês pela Europa. Se gostaste, vota mais de uma vez. Os caras sempre conseguem deixar o processo burocrático, mas tu terás paciência, afinal, a Europa é logo ali, e a causa é nobre. Terás apenas que acessar teu imeio uma vez, o que é bem razoável visto a quantidade que tens feito isso diariamente. Muchas gracias, e conto contigo nesta saga. E é contigo mesmo, ainda que penses que, ah, certamente, ele deve estar falando com outra pessoa. ;P]
[Se não gostaste, vá em www.ci.com.br, em "Concurso Viajante CI", e vota neste texto, a fim de que eu ganhe de aniversário uma viagem de um mês pela Europa. Se gostaste, vota mais de uma vez. Os caras sempre conseguem deixar o processo burocrático, mas tu terás paciência, afinal, a Europa é logo ali, e a causa é nobre. Terás apenas que acessar teu imeio uma vez, o que é bem razoável visto a quantidade que tens feito isso diariamente. Muchas gracias, e conto contigo nesta saga. E é contigo mesmo, ainda que penses que, ah, certamente, ele deve estar falando com outra pessoa. ;P]
terça-feira, março 13, 2007
Obrigado
Fiquei muito ocupado e pensei,
tenho que dar prioridade às coisas sérias.
Pensamento seguinte:
quais são as coisas sérias?
As mais importantes?
as de gente grande?
Acho que minha divisão foi de acordo com a cobrança.
Minha,
de fora,
das expectativas,
não importa.
Sei de tudo isto,
e de que adianta?
Adianto sempre
Obrigações.
tenho que dar prioridade às coisas sérias.
Pensamento seguinte:
quais são as coisas sérias?
As mais importantes?
as de gente grande?
Acho que minha divisão foi de acordo com a cobrança.
Minha,
de fora,
das expectativas,
não importa.
Sei de tudo isto,
e de que adianta?
Adianto sempre
Obrigações.
Piana
em branco e preto
piana a eternidade
sonora a mesma vida
na percussão de um dó
é sempre um sol
sem ida nem vinda
é de se amar
a tristeza do piano!
- órfã de nostalgia
ah, que lindo balbucia!
se os dedos malpousam
tudo é pleno, ao piano
ouçam,
é o amor sem plano nem reta
piana, letra não lida
porque a vida é analfabeta
pode bem versar lento
que vem avesso ao lamento, o piano,
ao arrepender
que só repete o fá que acertou
que não dá ré de mi que entortou
que redimir é letra lida
e a vida não tem sentido
senão cantada, senão sentida
chama,
é a vida
dá o tom, ama
- piana
piana a eternidade
sonora a mesma vida
na percussão de um dó
é sempre um sol
sem ida nem vinda
é de se amar
a tristeza do piano!
- órfã de nostalgia
ah, que lindo balbucia!
se os dedos malpousam
tudo é pleno, ao piano
ouçam,
é o amor sem plano nem reta
piana, letra não lida
porque a vida é analfabeta
pode bem versar lento
que vem avesso ao lamento, o piano,
ao arrepender
que só repete o fá que acertou
que não dá ré de mi que entortou
que redimir é letra lida
e a vida não tem sentido
senão cantada, senão sentida
chama,
é a vida
dá o tom, ama
- piana
quinta-feira, março 08, 2007
segredos
"Tudo que a mente do homem pode conceber, ela pode alcançar."
A frase, de W. Clement Stone, veio à minha cabeça, antes de conhecer sua procedência origianal, enquanto lia O discurso do método, de Descartes. Vim a conhecê-la no interessante documentário O Segredo.
A frase, de W. Clement Stone, veio à minha cabeça, antes de conhecer sua procedência origianal, enquanto lia O discurso do método, de Descartes. Vim a conhecê-la no interessante documentário O Segredo.
terça-feira, março 06, 2007
Parque O'Higgins
rodavam crianças e jovens sobre patins
e as voltas que faziam
rodar também me fizeram
passos jogados pra trás:
retrocedo
outra vez te desconheço
então deslizas...
tua presença é nova
numa distante tarde chilena
e as voltas que faziam
rodar também me fizeram
passos jogados pra trás:
retrocedo
outra vez te desconheço
então deslizas...
tua presença é nova
numa distante tarde chilena
Aí fudeu
Andou,
andou pensou
e parou.
Olhou para trás,
desconfiou
e andou.
Olhou de novo,
não parou
e medrou.
Sentiu
e não andou,
correu.
Correu sem olhar,
mas não deu,
no final das contas,
perdeu.
andou pensou
e parou.
Olhou para trás,
desconfiou
e andou.
Olhou de novo,
não parou
e medrou.
Sentiu
e não andou,
correu.
Correu sem olhar,
mas não deu,
no final das contas,
perdeu.
sexta-feira, março 02, 2007
A corrupção do sereno
e tendo a vez da palavra caído
de um dedo em riste direto no meu colo
disse:
escolham bem o seu vício
e todos calaram seus cochichos e abriram bem os olhos
a noite fez do silêncio meu eco, separou tanto quanto pôde minhas sílabas
bandeira nenhuma se ergüeu; entreolhares no palanque
mas a densidade deste segundo não expandiu seu comprimento
e no seguinte instante um bêbado discursou comicamente:
a multidão nem viu a poeira fina que pisava
e a noite desistiu daquela noite, o que é sempre muito muito triste
de um dedo em riste direto no meu colo
disse:
escolham bem o seu vício
e todos calaram seus cochichos e abriram bem os olhos
a noite fez do silêncio meu eco, separou tanto quanto pôde minhas sílabas
bandeira nenhuma se ergüeu; entreolhares no palanque
mas a densidade deste segundo não expandiu seu comprimento
e no seguinte instante um bêbado discursou comicamente:
a multidão nem viu a poeira fina que pisava
e a noite desistiu daquela noite, o que é sempre muito muito triste
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