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sexta-feira, julho 18, 2008

deSoito

ultimamente
não tem me saído
um oi decente

terça-feira, março 25, 2008

Odes

quem sobrevive ao des
contexto?
ninguém contesta
- ninguém, constato

des
ocupa lugares
que nem ares
vão

des
de tudo o avesso
de nada também
...tem

des
cubro de versos
de poucas palavras
um único lúcido,
um único louco

des
arranjo dois tempos
e tento curá-los
espelho
mas sem solução

des
vi o olhar
de um desses óbvios
dessas causas, desses efeitos

des
acordo no meio
de uma aflição
des anima o profeta, o cometa e o avião

des arranca dores
amores e heróis
destrói a obra que começa
e a constrói num outro des aviso

des
liga a tv
passa o café e
cansa
desmorona também
aquele que mora

segunda-feira, março 24, 2008

Desabar

enxada não é uma palavra pontiaguda
como faca
mas dói a pancada
- dói pacas

ele escolheu palavras secas
nada que a atravessasse
algo que matasse
por hemorragia interna

burilou uma alavanca de metal
em uma dúzia de sílabas
uma frase rasteira, os olhos cínicos segurando o tempo do tombo
o tempo do tombo pesando, a cabeça
enxada

não fez corte, não foram palavras pontiagudas
a morte foi interna
e as lágrimas já nem eram de desilusão
desabaram de um corpo tombado, vítima de enxágue

morreu numa cascata acidental

quinta-feira, março 06, 2008

Desavisado

Fôra devidamente avisado sobre a natureza daqueles homens, cheios de dúvidas. Preparou-se para um arsenal de perguntas como quem se prepara bem para um arsenal de perguntas: juntou um punhado de substantivos bem substantivos e não economizou energias em trabalhar nos melhores adjetivos. Era simples, mas potente, tinha certeza.

Debruçou-se na tarefa de distribuir didaticamente as palavras pelas frases e chegou a testá-las no ar. Eram belas as frases suas. E diziam tudo. Ainda assim, fez lembretes pra animar a memória. Via-se municiado de todas respostas.

Foi quando um homem só lhe pregou a peça. Um homem muito só. Tão só nesta vida que desacompanhado da mais elementar das dúvidas. Um homem que, antes de não saber, não detivera a sombra do que um dia chamou-se pensamento. Este homem, que nunca pensou, não podemos dizer que era um ignorante.

Pois bem, foi este homem que nem chegava a ser ignorante que o deixou mudo, frente a tamanha pergunta. Uma questão cínica de tão tarde que lhe vinha bater a porta. E trágica, pois parecia acelerar o tempo de uma forma absurda, que seu coração nem faria menção de acompanhar. Estático, boquiaberto. Certamente fôra neste instante, no instantâneo deste instante, que lhe entrara pela boca a pergunta do outro, e foi tomar seus pulmões. Ar. A pergunta lhe salvara. Mas como viveria com uma dúvida daquelas?

Desumana

coberta de neve parecia nula
não estava mais, não estava nua
nada parecia com uma voz que soa
nada se mexia, nem a vida à toa
era um frio isento deste que arrepia
um vazio que corta deste que ignora
ela não sofria, tinha a pele dura
era branca a pele e nem refletia
não havia vento, nem um som suspenso
eu olhava aquilo e nem era denso
de uma violêcia que emudece o eco
era tão intenso que não repetia
tinha tanta idade quanto um segundo
era tão estranha tanto quanto o mundo

Descaminho

olho do avesso minhas passadas
passo desencontrado, joelho torcido
indago como terei sido

a sombrancelha cede:
sou desta linha

desta linha que atravessa um tango
e submete o passo
que repete o giro
até cansaço

desta linha que tropeça em fuga
até que muda e sobe um monte
e antes da pressa
olha enviesado os vales
que antecedem horizonte

terça-feira, dezembro 11, 2007

desperdício

a caneta. usava a caneta como ponte entre o ópio e suas veias

buscava a veia artística, em vãos de muitas outras

(é possível que tenha sempre errado

e os rompantes tenham sido apenas de delírio)

azul era o sangue de sua paixão

no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco

apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa

Mas era infértil.