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terça-feira, março 25, 2008

A vígilia (começa no sonho)

Dava-se assim. Sobre seu ombro tagarelava uma ave de penas aveludadas. Seus olhos diziam apenas - sem sobre isso deixarem dúvidas - que a habilidosa língua não cansaria nas horas vizinhas (eram olhos a verem dois lados de uma só vez, conscientes da enorme fila de idéias que se amontoavam na mente insana daquele papagaio). Seu ouvido direito, que tinha o privilégio de ouvir as últimas sempre em primeira mão, já funcionava como uma dessas desconhecidas vias por onde passavam seus próprios pensamentos, de modo que poderíamos dizer, sem prejuízo algum, que era a ave a pensar por ele - pelo menos enquanto desperta. É verdade que seus sonos nunca coincidiam, já que o silêncio, para ele, ganhara tons insuportáveis. Não falava, o dono do ombro - pelo menos não enquanto desperto. E, provavelmente, seus textos oníricos fossem uma desordenada reverberação do que ouvira em vigília. Do sonho pulavam palavras como peixes exaustos de água. Eram breves os saltos e logo o mergulho. Num dos raros momentos, o ar preso, o ar tenso, um raio de luz servindo de linha, uma palavra como que pescada - e, ao mesmo tempo, salva - de um profundo e negro pesadelo. E não foi murmúrio, não teve o azedo da boca. Foi como um soluço, sintético e dono de si. O dono do ombro disse e quem teve perto ouviu; o mais distraído ouviu. Ouviu o irrepetível.
E depois também sonhou.

segunda-feira, março 24, 2008

Desabar

enxada não é uma palavra pontiaguda
como faca
mas dói a pancada
- dói pacas

ele escolheu palavras secas
nada que a atravessasse
algo que matasse
por hemorragia interna

burilou uma alavanca de metal
em uma dúzia de sílabas
uma frase rasteira, os olhos cínicos segurando o tempo do tombo
o tempo do tombo pesando, a cabeça
enxada

não fez corte, não foram palavras pontiagudas
a morte foi interna
e as lágrimas já nem eram de desilusão
desabaram de um corpo tombado, vítima de enxágue

morreu numa cascata acidental

quarta-feira, maio 30, 2007

Prudência, uma palavra (esboço)

Prudência era uma senhora de traços bem marcados. Passara anos longe da vida pública das palavras, quando muito aparecia numa esquecida nota de roda pé. Na fase madura, despontara com vistosas maçãs no rosto. Como era saudável, a senhorita Prudência! E todos vinham à sua janela ouvir suas ponderações. Começava cedinho, mal o galo cantava, faziam fila em frente à casa de Prudência. Eram tempos em que havia algum. Deixavam um agrado, a maioria, mesmo que Prudência não solicitasse. Houve quem fizesse igreja, Igreja da Santa Prudência, que tomou bairros distantes. Facilitava, encurtava caminho, as pessoas conversavam com uma imagem de Prudência e seu olhar interrogativo. A Prudência era amiga das interrogações, respondia com perguntas, sempre. Era bom ouvir suas perguntas, fazia parecer que o tempo nem era urgente. Até o dia em que encontraram Dona Urgência estirada na avenida, atropelada por um corretor de ações. O som das sirenes comprou buzinas e despertadores, até apropriar-se definitivamente dos já desgastados canto do passarinho e correr do riacho. Prudência já não escutava o sino de sua igreja (ainda havia uma, próxima de sua quitinete). Comprou um MP3 player pra melhor ponderar. Investiu em um bom par de fones, não os tirava nem para dormir, e isso era prudente, pois a noite deixara de existir havia um bocado de anos.
A Prudência pensava no sentido da vida, de sua vida. Onde se encaixava sua existência? Ela esmorecia, mas isto não significava que se tornava imprudente. Há palavras de honra. Prudência tateava o ar de uma dimensão que se desinventava.