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domingo, outubro 28, 2007

A fome e o eufemismo

o acaso come palavras de outrem
há casas órfãs de letras

em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista

o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo

o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio

terça-feira, junho 19, 2007

Medusa às avessas

não dão sossego
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar

(gente passatempo
todo mundo quer girar)

a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar

o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante

(bom dia é um dia escapado, veloz)

bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena

perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria

soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite

e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada

(olhos de gente nunca chegam)

segunda-feira, maio 28, 2007

meio-par

se par
por que se parte
já no começo

por que separam
param passados
por que se esquecem

partida
por que se parte
por toda a vida

por que não porto
por todo o sempre
por toda parte

por que partir
não é chegada
a cada instante

pela metade
por que o tempo
passa por dois

por que se lembra
parece perto
de não passar

pelos que passam
por que não sei
por que passeiam

perece um gesto
de todo o resto
só resta meio

quarta-feira, maio 23, 2007

Choro

manhã em Porto Alegre
choram os guarda-chuvas

é um choro vertido
como os versos dos desencontrados

há uma falta, uma ausência líquida
a saudade escorre pelas ruas

ninguém se vê
o dia penetra bueiros e vai ter com os ratos

terça-feira, maio 01, 2007

Trago largo

Ponho de lado a razão que,
em alto e bom som,
me fizeste esquecer.

Sigo pontos,
pontos de fuga assinalados
que atingem em cheio dois olhos.

Raros momentos,
uma dupla
acompanhando atenta toda a ação,
esperando algo acontecer.

Em um trago largo,
num único gole sorvo toda,
e o que sobra é um gosto amargo
que não me deixa dormir.


Escolho não responder,
crescer está fora de meus planos.
Sentada a minha frente pergunta calada e dou risada.

Passo a frente e receio que o passado me condene.
Um velho perguntou e deixei no ar,
por pouco não me perco.

Num instante de desleixo
põe-se tudo por água abaixo.
O amargo não vai embora
e não encontro razão para acordar.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Tremeluzente

melodia e meia
lua nova lá
se vão com o tempo as horas

demoras passam despercebidas
notas desaparecidas no meio-tom

perder-se, ah, perder-se
diluir o corpo em musicais do porto
dá vontade até de sair jamais

parar na beira o passo
e ter de compasso um horizonte
e a cor de um violino cantar
um SOL

Rascunho

Solto só
Só à procura de ser
Certamente sentir
Sem ter mais por sofrer

Protegendo de amar
Amargura por vir
Virando outro cego
Segurando para não cair

Postergando desculpa
Padecendo, menti
Te encarando, opróbrio
Brio por ti, perdi

Acordei a tempo de dizer que te amo

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Barulho de tintas

Faço-me ouvir
Em silêncio por nós dois
Imagem que soa no papel
Da tinta que escorre, um troféu

Grito baixinho
Um surdo, um ouvido
Olvidas de mim

Incorre de novo
Cala, receio
Repete teu erro

Grafito em mágoa
Um tinto de lágrima
Borrando na tela
Eu pinto um GRITO

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Céu de planetas

uma mão pôs-se sobre a tela
e tê-la pareceu escapar
eram riscos fugidios
palavras caladas

não sabia mais pintá-la
não sabia a perfeição
ajudou ter riscado horizonte
um lugar pras coisas que não sei
o lado de lá é feito de sóis
e eu só vejo sua luz nos planetas do meu céu
a rotação é lenta
e às vezes me acostumo
à consistência dos sonhos
ao meu dia escuro

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Tom Menor

Acorde da tristeza
Janela em canto e tudo pára
Tudo isso para, num segundo instante
Um primeiro olhar sorrir

Por encanto, ao que me consta
Enquanto passa o café
Posa em corpo, prá meu verso
Luz fria da manhã

Pose musa e pára tudo
Muda um pouco, quadro a quadro
Abro os olhos, me deparo
Um gatilho prum sorriso

Encanto em tom menor
Entrando janela adentro
Num domingo, muito cedo
Tudo muito, muito belo.

Fica, se não muito, um pouco mais
Só o tempo necessário
Preciso guardar

Acordo de um sonho
Mão tateia, procurando
Me conforta, te encontrar.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Canto do quarto

Música que canto por sentir
Sinto na pele o medo de cantar
Somente aceito, não minto
Por medo, decidi continuar

Canto abrigo, silêncio
Fecha mais ainda,
Fecha mais e mais
Fecha sobre si mesmo

Eis que flecha minha vida
Seta quebrando teu bloco de gelo
Tu congelada, encolhida
Desperta, posição fetal

Fatalmente desprezo
Qualquer felicidade que venha importunar
Foto, quadro em branco e preto
Minha melancolia fingida.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Modorra

Sonho cansado
Sono preguiçoso,
Paquiderme

Calor de verão
Sol castigando
Pausa no tempo

Acordei amolecido
O ar parado cansou
Cantou perto o mosquito
Longe a vontade passou

A culpa volta moendo
"Indolência!", Maquina a cabeça
Estico um pouco o braço
Continuas aqui.