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sexta-feira, março 07, 2008

Por querer

Silvia caminhou sozinha através do parque escuro e escolheu um banco isolado o suficiente para pensar e desabou. Com certeza não convinha a uma guria, ou qualquer um que tivesse algo a perder, andar àquelas horas em tal lugar. Não via ninguém por ali, somente vultos que deslocavam-se por entre as árvores, como se o movimento fosse necessário para a sobrevivência naquele habitat.

Vinha da rua pouco iluminada que presenciara seu quase choro evidenciado por seus olhos vermelhos. Havia postes de quando em quando, intercalados por escuros que a protegiam. Mas ainda podia ser vista por qualquer estranho que passasse. Um rapaz fumando na janela do prédio da outra calçada a deixou mais envergonhada. Preferia sair dali.

Tinha há pouco descido do ônibus no qual o cobrador, o casal do segundo banco e o senhor no fundo olhavam-na como a um animal raro que quer explodir de tanto chorar. O motorista continuou a guiar mas, mesmo assim, a viagem pareceu durar uma eternidade, tantas voltas deu aquele ônibus. As curvas misturadas com sua cabeça cheia deixaram-na enjoada. Precisava urgente de ar fresco.

Saiu do prédio sem saber se sentia raiva ou uma tristeza vazia e escura e que toma o lugar de todas as outras coisas até deixar tudo completamente gelado. Não era a primeira, mas não sabia se não era a última. Os seus olhos tinham uma coisa diferente desta vez. Ele disse e mirou prá acertar. Ele escolheu as palavras pela dor que elas trariam.

segunda-feira, abril 02, 2007

Nunca outra vez

Maurício esticou o braço e abriu a porta do carona. Não foram trocadas palavras, e, a bem dizer, nem olhares se cruzaram. Bastou-lhe a mini-saia. À Anabela, bastaram as rodas imponentes da camionete de Maurício. Imperava o silêncio na noite, bem abaixo das estrelas. O automóvel fez um ruído raso e dobrou na outra esquina. Imóvel, misturado a alguns sacos de lixo no outro lado da rua, dois olhos sobressaltaram-se ao acompanhar a cena. A força derradeira não serviu nem pra levantar. Anabela tinha pernas de vender. Ele era o resto, era o rastro de borracha no asfalto. Ele ficava, Anabela ia. Não sabia aonde.

sábado, março 31, 2007

Quem sabe, amanhã

Mais do que isso, queria possuir um corpo como um animal. E lembrava dela assim mesmo, com vontade, como uma oportunidade para liberar sua mais estranha energia, que mandava nele de maneira incompreensível. Ela era três, uma a cada momento. Agora era fêmea, e tinha se escondido. Ele precisava achá-la, era a única que correspondia a suas investidas. Ela já esteve em instituições psiquiátricas e de vez em quando, nas vezes em que a fome aperta, recorre aos albergues. Esses lugares são difíceis para homens. Tem que estar sempre de olho aberto. Um invejoso, um ladrão, qualquer coisa. Por nada se dá o acontecido. Para mulher não. O pessoal se passa, mas Anabela não se importa, gosta e ganha mimos dos companheiros de noite, como se estivesse fazendo algum favor para eles.

Depois que a encontrava, e se conseguia resolver-se, ela virava um fardo. Ela mudava, e ele queria distância, que se escafedesse de uma vez. Ficava rude com a moça, coitada. Fazia pouco caso, xingava e mandava para longe. Às vezes ela ia, resmungando palavrões desconexos e alternando gritos que escandalizavam quem estivesse ao seu alcance. Cada um ia feder pro seu lado. Anabela desaparecia por dias e com o passar do tempo, quando as vontades voltavam, ele se arrependia. Na verdade, arrepender não é o termo exato. Não tinha noção do mal que tinha feito, não assimilava a culpa. Passado um bom par de dias, suas ações passadas se confundiam, e não discernia se ontem era o dia em que conseguira cachaça ou se fora sua prova de cálculo. Mas penava pela sua falta, de qualquer maneira.

Mas outras vezes Anabela não tomava o rumo. Agüentava as carraspanas e os maltratos no osso do peito, e permanecia por volta. Ela era um cachorrinho que, não sabe bem por que, mas deve obediência a seu dono. Mesmo sob fogo cerrado, permanece fiel, e prefere não se afastar. Nestas ocasiões, ele esquecia do sentimento de asco que o dominava, e, antes da vontade animal voltar a reinar, uma outra forma de relação toma lugar. Uma cumplicidade toma conta. Eles se entendem, admiram o céu ou o parque, aceitam e aprovam a companhia. Quase sem palavras, vivem por breves momentos, uma vida em comum.

quarta-feira, março 28, 2007

Nunca a manhã

Cruzou o grande parque com trajetos sonambulantes, as árvores desenhando seu caminho. Tinha nelas os únicos sinais de uma vida concreta, que desapareciam a cada curva.

Aquela manhã luzia entrecortada por algumas folhas caducas mais teimosas, e as sombras que projetavam não durariam outro amanhecer. O vazio explorava o espaço com seu facão aniquilador, abrindo tudo ao que o frio fazia nada, cada vez mais penetrante. O homem teimava em ficar de pé, sendo pedra fraca. Demorava-se na vez das árvores, como um cão, na ânsia de encontrar Anabela. O sol lhe concedia um sorriso inexpressivo, que nem chegava a ser amarelo. O mundo desfizera-se de som e, monocromático, era só um destempo que parecia divertir-se com a lenta decadência do homem. Era um passar que não passava, um presente duro, sem fim, tal qual uma fotografia triste que fedia como se fosse muito muito velha.

Mas, tão jovem quanto Anabela, sua morte havia começado nas frestas que seu orgulho fizera em seu viver. O derradeiro impulso, que o submetia ao jogo impiedoso da sobrevida, vinha não sabia donde, literalmente: não sabia. Era só ser, livre e decadente. Quisesse - pudesse querer - trocaria seu inútil livre arbítrio por um corpo de animal.