um leitor anônimo
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
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sexta-feira, novembro 23, 2007
domingo, outubro 28, 2007
O isento
Diorando era um cara isento. Absolutamente isento. Dizia-se, tão isento que quando o encontraram de revólver à mão e camisa coberta de sangue, ao lado do corpo estirado de sua esposa, arquivaram o caso por falta de provas. Tampouco devia ser sua mulher. Uma mulher estranha, não se poderia crer companheira de Diorando, cidadão tão ilustre. E isento. O grande jornalista do país, Diorando era tão isento que lograra ser o único correpondente internacional que mantivera residência no Brasil. Os fatos e Diorando eram água e óleo, não se misturavam. Afinal, seu trabalho era contá-los, descrevê-los com maestria e neutralidade. Diorando olhos de águia. Mantinha-se longe, afastado dos acontecimentos. Era sua receita para o refinamento periodístico. Quando indagado, Diorando era magistral em seus rodeios e floreios de não dizer nada. O distintivo de sua isenção libertava-o da tarefa ordinária de opinar. Diorando não conversava, disparava veredictos. E aquilo que proclamava era tão original e puro que havia até igreja levando seu nome. Mas Diorando não se prestava a dar sermões, muito menos meter-se com política. No entanto, era conhecido em todos os meios, entre legisladores, artistas, arcebispos e funcionários públicos. Para o povo é que era um deus encarnado. Camarada imaculado, livre de todos os pecados da carne. A carne que se confunde na carne, a carne de todas as paixões, dos medos e hesitações. Era coisa linda de ver, Diorando caminhava pelo meio das ruas com o semblante sempre resoluto, como se faixas de segurança acompanhassem seus passos continuamente. O trânsito, a cidade, o mundo parava para vê-lo passar, o Diorando. Cidadão incólume, irrepreensível. Diorando rejeitara até mesmo o desapego. Era sua inclinação inata não apegar-se, de modo que lhe seria estranho desprover-se de algo que nunca tivera.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
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