"Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa".
Eu citando Vitor, citando Selbor, citando seu pai, citando Eça.
quinta-feira, abril 15, 2010
sábado, abril 10, 2010
Essa semana o vento uivou
Quem estava debaixo da lama
Não prestou atenção.
Quem nunca tinha ouvido nem deu bola
Preocupados em chegar em casa
Com medo de sair de casa.
Eu ouvi e até parei ao lado da janela
Prestei atenção e lembrei
Que aí isso é toda hora
Que eu nem prestava atenção.
Na hora bateu um cisco no olho
E deu um aperto no peito
Me fui a esquentar uma água
Deixei cevando meu chimarrão.
quinta-feira, dezembro 17, 2009
quarta-feira, outubro 28, 2009
Essa eu sei!
Governo quer que câmbio chegue a ponto de equilíbrio, diz Lula
Fácil. É só não fazer absolutamente nada que o câmbio está sempre em equilíbrio. Se aumentar imposto, o câmbio vai variar e encontrar um novo equilíbrio. Se parar de gastar, o câmbio vai variar e encontrar um novo equilíbrio. Se colocar entrave ao movimento de capitais, o câmbio vai variar e encontrar um novo equilíbrio. Agora mesmo, o câmbio encontra-se em equilíbrio. Só não estará em equilíbrio se o câmbio for fixo. Aí, ele fica parado até vir uma crise cambial e todo mundo apostar que vão liberar o câmbio. E volta para o equilíbrio, lá para cima ou lá para baixo.
Ê, mundão.
Fácil. É só não fazer absolutamente nada que o câmbio está sempre em equilíbrio. Se aumentar imposto, o câmbio vai variar e encontrar um novo equilíbrio. Se parar de gastar, o câmbio vai variar e encontrar um novo equilíbrio. Se colocar entrave ao movimento de capitais, o câmbio vai variar e encontrar um novo equilíbrio. Agora mesmo, o câmbio encontra-se em equilíbrio. Só não estará em equilíbrio se o câmbio for fixo. Aí, ele fica parado até vir uma crise cambial e todo mundo apostar que vão liberar o câmbio. E volta para o equilíbrio, lá para cima ou lá para baixo.
Ê, mundão.
segunda-feira, setembro 28, 2009
quarta-feira, setembro 16, 2009
O valor da informação
O que explica o jornal da semana passada custar o mesmo que o jornal de hoje? Em Cuba, de acordo com reportagem na Veja de 9 de setembro, o Granma (jornal do partido comunista) apresenta essa peculiaridade.
Escolha um jornal brasileiro. Qualquer um. O de hoje vale bem mais do que o de ontem ou do que o da semana passada. O que a teoria econômica tem a dizer sobre este estranho fenômeno. Basicamente, o preço de um produto é dado pelo seu custo marginal. E o interessante dos mercados é que eles ocorrem a despeito dos mandatários da economia. Mesmo a economia cubana sendo socialista, as pessoas acabam ofertando e demandando o produto até que seu benefício marginal iguale o seu custo marginal. O jornal do passado custar o mesmo que o de hoje diz a respeito do valor da informação nele contida para o povo cubano. Zero. As pessoas demandam o jornal pelo papel e ponto.
Mas, quem quer jornal velho? Ora, quem não tem papel higiênico, basicamente toda a população do país.
Escolha um jornal brasileiro. Qualquer um. O de hoje vale bem mais do que o de ontem ou do que o da semana passada. O que a teoria econômica tem a dizer sobre este estranho fenômeno. Basicamente, o preço de um produto é dado pelo seu custo marginal. E o interessante dos mercados é que eles ocorrem a despeito dos mandatários da economia. Mesmo a economia cubana sendo socialista, as pessoas acabam ofertando e demandando o produto até que seu benefício marginal iguale o seu custo marginal. O jornal do passado custar o mesmo que o de hoje diz a respeito do valor da informação nele contida para o povo cubano. Zero. As pessoas demandam o jornal pelo papel e ponto.
Mas, quem quer jornal velho? Ora, quem não tem papel higiênico, basicamente toda a população do país.
quinta-feira, agosto 27, 2009
quinta-feira, agosto 06, 2009
Custo de Oportunidade
Richard Dawkins em A Grande História da Evolução, citando R. A. Fisher utilizando conceitos econômicos para explicar a evolução:
Na natureza, a maioria das populações animais tem números aproximadamente iguais de machos e de fêmeas. Há uma boa razão darwiniana para isso, e ela foi entendida claramente pelo grande estatístico e geneticista evolutivo R. A. Fisher. Imagine uma população na qual os números sejam desproporcionais. Nesse caso, os indivíduos do sexo mais raro terão, em média, uma vantagem reprodutiva sobre os do sexo mais comum. Isso não ocorre porque há mais demanda para eles e lhes é mais fácil encontrar um parceiro (embora essa possa ser uma razão adicional). A razão de Fisher é mais profunda, com um sutil viés econômico. Suponhamos que haja duas vezes mais machos do que fêmeas numa população. Como cada cria nascida tem exatamente um pai e uma mão, a fêmea média deve, sendo tudo o mais igual, ter duas vezes mais filhos do que o macho médio. E vice-versa, se invertermos a razão entre os sexos na população. É simplesmente uma questão de alocar a prole disponível entre os pais disponíveis. Portanto, a seleção natural imediatamente contrabalançará qualquer tendência geral dos genitores a favorecer filhos em vez de filhas, ou filhas em vez de filhos. A única razão entre os sexos evolutivamente estável é 50/50.
Na natureza, a maioria das populações animais tem números aproximadamente iguais de machos e de fêmeas. Há uma boa razão darwiniana para isso, e ela foi entendida claramente pelo grande estatístico e geneticista evolutivo R. A. Fisher. Imagine uma população na qual os números sejam desproporcionais. Nesse caso, os indivíduos do sexo mais raro terão, em média, uma vantagem reprodutiva sobre os do sexo mais comum. Isso não ocorre porque há mais demanda para eles e lhes é mais fácil encontrar um parceiro (embora essa possa ser uma razão adicional). A razão de Fisher é mais profunda, com um sutil viés econômico. Suponhamos que haja duas vezes mais machos do que fêmeas numa população. Como cada cria nascida tem exatamente um pai e uma mão, a fêmea média deve, sendo tudo o mais igual, ter duas vezes mais filhos do que o macho médio. E vice-versa, se invertermos a razão entre os sexos na população. É simplesmente uma questão de alocar a prole disponível entre os pais disponíveis. Portanto, a seleção natural imediatamente contrabalançará qualquer tendência geral dos genitores a favorecer filhos em vez de filhas, ou filhas em vez de filhos. A única razão entre os sexos evolutivamente estável é 50/50.
Mas não é assim tão simples. Fisher detectou uma sutileza econômica nessa lógica. E se, por exemplo, custar duas vezes mais criar um filho do que uma filha, presumivelmente porque os machos são duas vezes maiores? Então o raciocínio muda. A escolha que se apresenta a um genitor já não é "terei um filho ou uma filha?". Agora é "Terei um filho ou - pelo mesmo preço - duas filhas?". A razão de equilíbrio entre os sexos da população agora é duas fêmeas para cada macho. Pais que favorecem filhos do sexo masculino com a justificativa de que machos são raros verão sua vantagem solapada precisamente pelos custos extras de produzir machos. Fisher conjecturou que a verdadeira razão entre os sexos equilibrada pela seleção natural não é a proporção entre machos e fêmeas. É a razão entre o dispêndio econômico de criar filhos e o dispêndio econômico de criar filhas. E o que significa dispêndio econômico? Alimento? Tempo? Risco? Sim, na prática todas essas coisas tendem a ser importantes, e para Fisher os agentes que despendem são sempre os pais. Mas os economistas usam uma expressão mais geral para designar esse gasto: custo de oportunidade. O verdadeiro custo de produzir um filho, para um genitor, é medido em oportunidades perdidas de produzir outros filhos. Fisher chamou este custo de oportunidade de Dispêndio Parental. Sob o termo Investimento Parental, Robert L. Trivers, um brilhante intelectual sucessor de Fisher, usou a mesma idéia para elucidar a seleção sexual. Trivers também foi o primeiro a compreender claramente o fascinante fenômeno do conflito entre pais e prole, em uma teoria que o também brilhante David Haig desenvolveu em direções surpreendentes.
Como sempre, e com o risco de entediar meus leitores não incomodados por rudimentos de filosofia, mais uma vez devo ressaltar que a linguagem premeditada que empreguei não deve ser interpretada ao pé da letra. Os pais não se sentam para deliberar se terão um filho ou uma filha. A seleção natural favorece, ou desfavorece, tendências genáticas a investir em alimento ou outros recursos de um modo que acabe levando a um gasto parental igual ou desigual com filhos e filhas considerando-se o total da população reprodutiva. Na prática, isso implicará frequentemente números iguais de machos e fêmeas na população.
Como sempre, e com o risco de entediar meus leitores não incomodados por rudimentos de filosofia, mais uma vez devo ressaltar que a linguagem premeditada que empreguei não deve ser interpretada ao pé da letra. Os pais não se sentam para deliberar se terão um filho ou uma filha. A seleção natural favorece, ou desfavorece, tendências genáticas a investir em alimento ou outros recursos de um modo que acabe levando a um gasto parental igual ou desigual com filhos e filhas considerando-se o total da população reprodutiva. Na prática, isso implicará frequentemente números iguais de machos e fêmeas na população.
sexta-feira, julho 03, 2009
Quem sabe de mim sou eu ou a saúde na empresa
Problemas comuns em diversas empresas de diversos setores de atuação: afastamentos por problemas de saúde e queda na produtividade dos funcionários estressados. A perda resultante desses fatores legitima a tomada de medidas por parte da firma para melhorar os hábitos de seus funcionários, uma vez que evidências empíricas indicam que, por exemplo, exercícios, mudanças na dieta e parar de fumar reduzem a probabilidade de ocorrência de um grande número de doenças responsáveis por afastamentos do trabalho.
Qual é a solução encontrada pelos gestores de RH preocupados com a responsabilidade social da empresa, que consideram que uma empresa deve ser uma mãe para seus empregados, e aplaudida como conquista por empregados e pelo sindicato? A resposta é montar uma academia para seus empregados, para que eles sintam-se incentivados à prática de exercícios. Esta atitude melhora os indicadores de produtividade e de afastamento por problemas de saúde? Sim, é a resposta. Então, qual é o problema, afinal?
Ocorre, em primeiro lugar, que, se a empresa for a maior do país, ela dificilmente terá condições de prover o benefício para todos os seus funcionários. Não há espaço físico suficiente para isto. Os gestores, tão bonzinhos, terão que arranjar um meio de escolher a quem oferecer a benesse. E qual a melhor forma de discriminar os candidatos a uma vaga na academia? Uma mente brilhante pensa que, se o objetivo é aumentar o nível médio de saúde dos funcionários, o benefício deve ser concedido àqueles com os piores indicadores, certo? Assim, basta consultar os exames periódicos realizados e indicar as “piores notas” para a academia. Isto provavelmente estaria certo se o jogo fosse jogado uma única vez.
Acontece que não o é. Não só o jogo é repetido como os jogadores aprendem. E aqueles que eram inicialmente preocupados com a sua saúde e que internalizavam os custos de uma boa saúde notaram o comportamento free-rider dos colegas. Quem não investe na própria saúde é “premiado” com academia gratuita. E academia é algo que custa caro no mercado.
Lembrando: o comportamento que se queria inicialmente incentivar era o de que mais pessoas tomassem os devidos cuidados com sua saúde. Entretanto, um comportamento diametralmente oposto passou a ocorrer. Aqueles que estavam com os parâmetros de seus exames próximos dos valores críticos se deram conta que poderiam se esforçar para piorar e, assim, beneficiar-se das vantagens de academia a custo zero. Aqueles para os quais o preço de mercado de uma academia estava próximo de seu preço de reserva optaram por não adquirir privadamente o serviço, na esperança de conseguí-lo de graça, uma vez que, além de economizar, aumentam a chance de serem agraciados com o subsídio da empresa (não fazer exercícios aumenta a probabilidade de engordar, um dos critérios de seleção). Outro comportamento que se tornou comum foi o de iniciar uma dieta de engorda como preparativo para os exames periódicos. Barriga grande e colesterol alto são grandes aliados na conquista de musculação a custo zero.
Assim, mesmo com a melhor das intenções, o que os gestores de RH conseguiram foram resultados limitados a custos altos e incentivando comportamentos destrutivos. Em primeiro lugar, duvido que os recursos da empresa sejam melhor empregados em prover serviços de educação física do que em sua atividade fim. Segundo, aparentemente, pessoas que teriam buscado privadamente soluções para o problema em questão engajaram-se no comportamento oposto para conseguirem benefícios. Finalmente, aqueles que estavam em pior situação provavelmente fogem de uma academia como o diabo da cruz, e continuaram sedentários, comilões e beberrões.
Uma solução melhor para o problema? Muito mais simples, menos custosa, e adotada aos milhares no mundo todo: o mercado. Que tal um convênio para obtenção de descontos com academias e nutricionistas? Aqueles que estavam marginalmente dispostos a melhorar seus hábitos o fariam com os preços mais baixos. E sem um esquema paquidérmico para escolher os eleitos e investir espaço e recursos escassos.
Qual é a solução encontrada pelos gestores de RH preocupados com a responsabilidade social da empresa, que consideram que uma empresa deve ser uma mãe para seus empregados, e aplaudida como conquista por empregados e pelo sindicato? A resposta é montar uma academia para seus empregados, para que eles sintam-se incentivados à prática de exercícios. Esta atitude melhora os indicadores de produtividade e de afastamento por problemas de saúde? Sim, é a resposta. Então, qual é o problema, afinal?
Ocorre, em primeiro lugar, que, se a empresa for a maior do país, ela dificilmente terá condições de prover o benefício para todos os seus funcionários. Não há espaço físico suficiente para isto. Os gestores, tão bonzinhos, terão que arranjar um meio de escolher a quem oferecer a benesse. E qual a melhor forma de discriminar os candidatos a uma vaga na academia? Uma mente brilhante pensa que, se o objetivo é aumentar o nível médio de saúde dos funcionários, o benefício deve ser concedido àqueles com os piores indicadores, certo? Assim, basta consultar os exames periódicos realizados e indicar as “piores notas” para a academia. Isto provavelmente estaria certo se o jogo fosse jogado uma única vez.
Acontece que não o é. Não só o jogo é repetido como os jogadores aprendem. E aqueles que eram inicialmente preocupados com a sua saúde e que internalizavam os custos de uma boa saúde notaram o comportamento free-rider dos colegas. Quem não investe na própria saúde é “premiado” com academia gratuita. E academia é algo que custa caro no mercado.
Lembrando: o comportamento que se queria inicialmente incentivar era o de que mais pessoas tomassem os devidos cuidados com sua saúde. Entretanto, um comportamento diametralmente oposto passou a ocorrer. Aqueles que estavam com os parâmetros de seus exames próximos dos valores críticos se deram conta que poderiam se esforçar para piorar e, assim, beneficiar-se das vantagens de academia a custo zero. Aqueles para os quais o preço de mercado de uma academia estava próximo de seu preço de reserva optaram por não adquirir privadamente o serviço, na esperança de conseguí-lo de graça, uma vez que, além de economizar, aumentam a chance de serem agraciados com o subsídio da empresa (não fazer exercícios aumenta a probabilidade de engordar, um dos critérios de seleção). Outro comportamento que se tornou comum foi o de iniciar uma dieta de engorda como preparativo para os exames periódicos. Barriga grande e colesterol alto são grandes aliados na conquista de musculação a custo zero.
Assim, mesmo com a melhor das intenções, o que os gestores de RH conseguiram foram resultados limitados a custos altos e incentivando comportamentos destrutivos. Em primeiro lugar, duvido que os recursos da empresa sejam melhor empregados em prover serviços de educação física do que em sua atividade fim. Segundo, aparentemente, pessoas que teriam buscado privadamente soluções para o problema em questão engajaram-se no comportamento oposto para conseguirem benefícios. Finalmente, aqueles que estavam em pior situação provavelmente fogem de uma academia como o diabo da cruz, e continuaram sedentários, comilões e beberrões.
Uma solução melhor para o problema? Muito mais simples, menos custosa, e adotada aos milhares no mundo todo: o mercado. Que tal um convênio para obtenção de descontos com academias e nutricionistas? Aqueles que estavam marginalmente dispostos a melhorar seus hábitos o fariam com os preços mais baixos. E sem um esquema paquidérmico para escolher os eleitos e investir espaço e recursos escassos.
sábado, junho 06, 2009
domingo, março 22, 2009
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Vem
Conto uma história
Aumento um ponto
E, no próximo conto
Te boto no meio
Não digo mais
Não digo tanta coisa
Que até zonzo fico
De tanto calar
Vem logo prá cá
Que ainda tá grande
Ainda me perco
Não consigo achar
Vem, que deu sol
Tô só esperando
Ainda demora?
Quero ver o mar
Aumento um ponto
E, no próximo conto
Te boto no meio
Não digo mais
Não digo tanta coisa
Que até zonzo fico
De tanto calar
Vem logo prá cá
Que ainda tá grande
Ainda me perco
Não consigo achar
Vem, que deu sol
Tô só esperando
Ainda demora?
Quero ver o mar
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Enferrujado
Guria passeia na areia
Passeia comigo na beira da praia
Na praia, no sótão
Guardada, me lembro
Anda na areia
Na beira da praia
E um cachorro preto
Colorindo o cinza
Eu cruzo a cidade
No vagão vazio
Na ponta do trem
Pensando no mar
O chima amargo
Me lembra por vezes
Tentou me dizer
Não queria ouvir
Sozinha
Comigo ao teu lado
Guria
Eu não te perdi.
Passeia comigo na beira da praia
Na praia, no sótão
Guardada, me lembro
Anda na areia
Na beira da praia
E um cachorro preto
Colorindo o cinza
Eu cruzo a cidade
No vagão vazio
Na ponta do trem
Pensando no mar
O chima amargo
Me lembra por vezes
Tentou me dizer
Não queria ouvir
Sozinha
Comigo ao teu lado
Guria
Eu não te perdi.
terça-feira, janeiro 20, 2009
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Markets are everywhere
Economia não é apenas sobre dinheiro. Mas eu teria escolhido um grupo diferente... E foi aceito para publicação na revista da American Economic Association.
É só clicar no título
É só clicar no título
sexta-feira, janeiro 09, 2009
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Droga antiaids do País custa 7 vezes mais que importada
Mas deve dar menos trabalho deixar tudo como está...terça-feira, novembro 25, 2008
quarta-feira, novembro 12, 2008
sábado, novembro 08, 2008
Guanabara
Aqui as nuvens são diferentes
Formam-se aqui, são nativas
Lá (aí) são importadas
Vêm de fora, chegam prontas
Lá (aí) as coisas são diferentes
A água é gelada
Fria, de renguear cusco
Já aqui, também
Eu sento na sombra e olho a volta
Mas não deixo o guarda sol
Ainda receio um pouco
Olho da janela
Escureceu e molhou
E os mendigos formam fila para dormir.
Formam-se aqui, são nativas
Lá (aí) são importadas
Vêm de fora, chegam prontas
Lá (aí) as coisas são diferentes
A água é gelada
Fria, de renguear cusco
Já aqui, também
Eu sento na sombra e olho a volta
Mas não deixo o guarda sol
Ainda receio um pouco
Olho da janela
Escureceu e molhou
E os mendigos formam fila para dormir.
quarta-feira, outubro 01, 2008
"Wonderful theory, wrong species"
Edward O. Wilson, sociobiólogo, sobre o marxismo, que seria mais adequado às formigas que aos humanos.
Edward O. Wilson, sociobiólogo, sobre o marxismo, que seria mais adequado às formigas que aos humanos.
terça-feira, setembro 30, 2008
terça-feira, setembro 23, 2008
Salvando pedaços
É em partes que a coisa anda
Desenha curvas com seu rastroRiscos bifurcados
Rostos rasgadosE um sono profundo
De ontem em diante tomo uma atitude...
... não, minto,
paro e retomo. Agora sim
É difícil linkar,
emoções não têm memória
Sentem, a cada hora
E cada vez, sentiram sempre assim.
Licença agora.
Podia lapidar um pouco mais,
Esperar outro retalho.
Mas não.
Chega de deixar para trás.
quarta-feira, agosto 20, 2008
Guardar - Antonio Cicero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
sábado, agosto 16, 2008
Novamente, os incentivos
Dois grupos de tamanhos equivalentes, com objetivos semelhantes, atuando sob as mesmas regras e em um mesmo "mercado". De posse da informação que a remuneração total dos integrantes do primeiro é 4 ou 5 vezes a remuneração do segundo, a teoria econômica indicaria que aquele teria um desempenho superior ao deste, tudo o mais constante. Entretanto, ao observarmos os 2 maiores clubes de futebol do Rio Grande do Sul, a evidência empírica sugere exatamente o contrário. Enquanto o Grêmio, com um grupo de jogadores de baixo custo para os padrões da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, sustenta a liderança em praticamente todos os indicadores de desempenho, o rival Internacional, com um dos grupos mais caros do futebol nacional, não consegue avançar para além de posições intermediárias na tabela de classificação.
Será que, para o futebol sul brasileiro, a teoria econômica não se aplica? Ou será que a relação correta é quanto mais barato um jogador, melhor seu desempenho e quanto menor seu salário, maior será seu esforço em prol do grupo? Creio que, se esta fosse a relação correta, clubes como o São José de Porto Alegre ou o São Luiz de Ijuí seriam, sistematicamente, mais bem sucedidos do que a dupla Grenal no Campeonato Gaúcho, por exemplo. Assim, é necessária uma explicação mais convincente para este fato.
É preciso registrar que tudo o mais não é constante. Mas, ainda assim, as diferenças parecem apontar em favor do Inter. Diferenças de entrosamento entre os grupos de jogadores poderia ser responsável por uma diferença de desempenho que compensaria a superioridade das peças individuais do Inter. Mas, o grupo tricolor é até mais novo que o grupo colorado. O grupo que vinha jogando até o meio do ano no Inter se conhece a mais tempo e já era mais caro e mais bem remunerado.
Neste ponto, um esclarecimento, se faz importante. Estamos supondo (alguns vão discordar) que os dirigentes não são idiotas. A implicação prática disto é que um jogador custa caro porque já mostrou que é bom. Um jogador é barato ou porque é ruim mesmo, ou talvez porque ainda é muito novo e não sabemos muito sobre suas capacidades. Sim, existem exceções. Um fulano em algum time da série C que nunca recebeu a devida oportunidade, ou o estrelinha que é contratado por rios de dinheiro e não joga nada. Mas podemos inserir estas assimetrias informacionais ao modelo sem problemas. A qualidade de um jogador segue determinada distribuição de probabilidade cuja média aumenta de acordo com seu preço.
Além da qualidade, uma outra variável que pode influenciar o desempenho do grupo é o esforço de cada um dos seus integrantes. E é razoável supor que o desempenho esteja diretamente relacionado com este esforço. E por que alguns ou todos os jogadores haveriam de se esforçar? O esforço não é uma variável diretamente observável. É difícil afirmar que um jogador está dando o seu máximo ou se ele está "enganando" um pouco. Ele sabe melhor que seu treinador se poderia correr um pouco mais ou focar-se mais nos treinos. É do interesse do clube que seus atletas se esforcem ao máximo, dêem seu sangue pelo clube. Mas, para o atleta, o esforço é um custo, como em qualquer outro trabalho. Pois, porque o esforço não é diretamente observável, pagar altos salários pode até ajudar a trazer jogadores talentosos, mas não necessariamente os incentiva ao máximo esforço.
Uma possível resposta para a diferença de desempenhos apareceu na imprensa especializada na última semana. De acordo com o site de notícias esportivas do Terra, "no Grêmio, metas alcançadas valerão prêmios em dinheiro". Valores crescentes são oferecidos ao grupo de acordo com as conquistas no Campeonato Brasileiro. Cada rodada dentro do grupo que se classifica à libertadores rende R$50 mil ao grupo. Uma vaga para a Copa Sul Americana vale R$800 mil. Um lugar na fase preliminar da Libertadores vale R$1,5 milhões e uma vaga direta R$2 milhões. O título do brasileirão vale R$3 milhões para serem repartidos entre o grupo.
Confesso que não sei como funciona a política de remuneração variável no Internacional. Mas, caso a maior parte da remuneração do elenco colorado seja composta por salários fixos, então, a diferença de desempenhos é bem explicada pela compatibilidade de incentivos nos dois grupos. A compatibilidade de incentivos é uma característica do comportamento de indivíduos em grupos nos quais a melhor estratégia de um indivíduo é seguir as regras. Supondo que grande parte da remuneração dos gremistas é variável enquanto a remuneração dos colorados é toda ou principalmente fixa, os dirigentes gremistas souberam desenhar regras que garantem compatibilidade de incentivos entre o clube e os jogadores. Isto é, a melhor estratégia para os jogadores é um alto esforço. Como o desempenho (variável observável) relaciona-se diretamente com o esforço (variável não observável), o tipo de contrato desenhado pelos dirigentes gremistas oferece alta remuneração para bons resultados e má remuneração para maus resultados. enquanto isso, para bons ou maus resultados, os jogadores colorados recebem o mesmo salário. Logo, os objetivos do clube, títulos, não são os mesmos dos seus jogadores, alta remuneração e baixo esforço.
É evidente que estes não são os únicos motivos que explicam o atual momento dos dois clubes. Fatores como presença de lideranças, ambiente de trabalho e tantos outros fatores sujetivos (o famoso jargão, futebol é momento) são tão ou mais importantes para explicar os desempenhos dos dois times. Também, os jogadores não são máquinas que procuram tirar o máximo de dinheiro dos clubes e descansar o máximo possível. O simples fato de colocarem um título a mais em seus currículos seria motivo para aumentar o esforço despendido. Mas, não há como negar que o dinheiro é um excelente incentivo de curto prazo e que o tipo de contrato a que cada grupo está sujeito deve explicar, ao menos uma pequena parte, de porque o grupo mais fraco apresenta desempenho tão superior ao do grupo claramente mais forte.
segunda-feira, agosto 11, 2008
falt'ar
corredor de espelhos
(a fuga não procede)
caminho em cacos
vãos e falsos
não penetra uma luz
não sobra um escuro
é tudo tão sem falta
falta de fim
e de começo
ah, a vida ao avesso
olho no espelho que trai
distrai
um cômodo átono
de fôlego trôpego
rio represado
(a fuga não procede)
caminho em cacos
vãos e falsos
não penetra uma luz
não sobra um escuro
é tudo tão sem falta
falta de fim
e de começo
ah, a vida ao avesso
olho no espelho que trai
distrai
um cômodo átono
de fôlego trôpego
rio represado
quinta-feira, julho 24, 2008
Folha
Uma folha de papel
com teu nome
diz
me espera
Encontrei no fundo
da gaveta
da memória
uma foto
Uma foto
bem da época
em que eu
que dava as tintas
Hoje não
hoje sento
olho a folha
e te espero.
com teu nome
diz
me espera
Encontrei no fundo
da gaveta
da memória
uma foto
Uma foto
bem da época
em que eu
que dava as tintas
Hoje não
hoje sento
olho a folha
e te espero.
sexta-feira, julho 18, 2008
segunda-feira, junho 23, 2008
segunda-feira, junho 02, 2008
aurora
lá vem
e é bom
ouvir
antes que se fosse
tarde de
retornar pra ventura
de velejar nesse barco
de mais verso
e é bom
ouvir
antes que se fosse
tarde de
retornar pra ventura
de velejar nesse barco
de mais verso
segunda-feira, maio 26, 2008
De volta ao mesmo lugar
Meu retrato no fundo do quarto
Do quarto escuro, lá do outro lado.
Eu num agosto passado.
Eu num maio presente
No pátio, nos fundos
O gosto de frutas, passado.
Subo de volta e não paro
Invento de novo
Agora é um mate
Receio num clique
O mundo empacou
Daqui eu não saio.
Do quarto escuro, lá do outro lado.
Eu num agosto passado.
Eu num maio presente
No pátio, nos fundos
O gosto de frutas, passado.
Subo de volta e não paro
Invento de novo
Agora é um mate
Receio num clique
O mundo empacou
Daqui eu não saio.
terça-feira, maio 20, 2008
quinta-feira, abril 24, 2008
quarta-feira, abril 09, 2008
quarta-feira, março 26, 2008
terça-feira, março 25, 2008
III Canto - I rascunho
Um pé no chão
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
A vida chama
que acende e queima
vida derrama
um balde de tinta na gente
E a gente vela
e desvela
a gente tenta
Pô-la na tela
Fazemos arte
a gente parte
e a vida
cumprimenta
Música: Gabriel Marques
Letra: Rômulo Arbo
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
A vida chama
que acende e queima
vida derrama
um balde de tinta na gente
E a gente vela
e desvela
a gente tenta
Pô-la na tela
Fazemos arte
a gente parte
e a vida
cumprimenta
Música: Gabriel Marques
Letra: Rômulo Arbo
Não consegui postar o link pro Cê, último do Caetano (2006, eu acho, mas nunca tinha ouvido). Então deixo uma frase dele que certamente antecipa um post meu, dita numa entrevista pra Folha, também lá por 2006. Mas se não ouviu o disco, procura e ouve, achei muito bom. E olha que nunca fui muito de Caetano.
Fica a frase...
"A esquerda é como torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela."
Fica a frase...
"A esquerda é como torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela."
Odes
quem sobrevive ao des
contexto?
ninguém contesta
- ninguém, constato
des
ocupa lugares
que nem ares
vão
des
de tudo o avesso
de nada também
...tem
des
cubro de versos
de poucas palavras
um único lúcido,
um único louco
des
arranjo dois tempos
e tento curá-los
espelho
mas sem solução
des
vi o olhar
de um desses óbvios
dessas causas, desses efeitos
des
acordo no meio
de uma aflição
des anima o profeta, o cometa e o avião
des arranca dores
amores e heróis
destrói a obra que começa
e a constrói num outro des aviso
des
liga a tv
passa o café e
cansa
desmorona também
aquele que mora
contexto?
ninguém contesta
- ninguém, constato
des
ocupa lugares
que nem ares
vão
des
de tudo o avesso
de nada também
...tem
des
cubro de versos
de poucas palavras
um único lúcido,
um único louco
des
arranjo dois tempos
e tento curá-los
espelho
mas sem solução
des
vi o olhar
de um desses óbvios
dessas causas, desses efeitos
des
acordo no meio
de uma aflição
des anima o profeta, o cometa e o avião
des arranca dores
amores e heróis
destrói a obra que começa
e a constrói num outro des aviso
des
liga a tv
passa o café e
cansa
desmorona também
aquele que mora
A vígilia (começa no sonho)
Dava-se assim. Sobre seu ombro tagarelava uma ave de penas aveludadas. Seus olhos diziam apenas - sem sobre isso deixarem dúvidas - que a habilidosa língua não cansaria nas horas vizinhas (eram olhos a verem dois lados de uma só vez, conscientes da enorme fila de idéias que se amontoavam na mente insana daquele papagaio). Seu ouvido direito, que tinha o privilégio de ouvir as últimas sempre em primeira mão, já funcionava como uma dessas desconhecidas vias por onde passavam seus próprios pensamentos, de modo que poderíamos dizer, sem prejuízo algum, que era a ave a pensar por ele - pelo menos enquanto desperta. É verdade que seus sonos nunca coincidiam, já que o silêncio, para ele, ganhara tons insuportáveis. Não falava, o dono do ombro - pelo menos não enquanto desperto. E, provavelmente, seus textos oníricos fossem uma desordenada reverberação do que ouvira em vigília. Do sonho pulavam palavras como peixes exaustos de água. Eram breves os saltos e logo o mergulho. Num dos raros momentos, o ar preso, o ar tenso, um raio de luz servindo de linha, uma palavra como que pescada - e, ao mesmo tempo, salva - de um profundo e negro pesadelo. E não foi murmúrio, não teve o azedo da boca. Foi como um soluço, sintético e dono de si. O dono do ombro disse e quem teve perto ouviu; o mais distraído ouviu. Ouviu o irrepetível.
E depois também sonhou.
E depois também sonhou.
segunda-feira, março 24, 2008
Desabar
enxada não é uma palavra pontiaguda
como faca
mas dói a pancada
- dói pacas
ele escolheu palavras secas
nada que a atravessasse
algo que matasse
por hemorragia interna
burilou uma alavanca de metal
em uma dúzia de sílabas
uma frase rasteira, os olhos cínicos segurando o tempo do tombo
o tempo do tombo pesando, a cabeça
enxada
não fez corte, não foram palavras pontiagudas
a morte foi interna
e as lágrimas já nem eram de desilusão
desabaram de um corpo tombado, vítima de enxágue
morreu numa cascata acidental
como faca
mas dói a pancada
- dói pacas
ele escolheu palavras secas
nada que a atravessasse
algo que matasse
por hemorragia interna
burilou uma alavanca de metal
em uma dúzia de sílabas
uma frase rasteira, os olhos cínicos segurando o tempo do tombo
o tempo do tombo pesando, a cabeça
enxada
não fez corte, não foram palavras pontiagudas
a morte foi interna
e as lágrimas já nem eram de desilusão
desabaram de um corpo tombado, vítima de enxágue
morreu numa cascata acidental
sexta-feira, março 07, 2008
Por querer
Silvia caminhou sozinha através do parque escuro e escolheu um banco isolado o suficiente para pensar e desabou. Com certeza não convinha a uma guria, ou qualquer um que tivesse algo a perder, andar àquelas horas em tal lugar. Não via ninguém por ali, somente vultos que deslocavam-se por entre as árvores, como se o movimento fosse necessário para a sobrevivência naquele habitat.
Vinha da rua pouco iluminada que presenciara seu quase choro evidenciado por seus olhos vermelhos. Havia postes de quando em quando, intercalados por escuros que a protegiam. Mas ainda podia ser vista por qualquer estranho que passasse. Um rapaz fumando na janela do prédio da outra calçada a deixou mais envergonhada. Preferia sair dali.
Tinha há pouco descido do ônibus no qual o cobrador, o casal do segundo banco e o senhor no fundo olhavam-na como a um animal raro que quer explodir de tanto chorar. O motorista continuou a guiar mas, mesmo assim, a viagem pareceu durar uma eternidade, tantas voltas deu aquele ônibus. As curvas misturadas com sua cabeça cheia deixaram-na enjoada. Precisava urgente de ar fresco.
Saiu do prédio sem saber se sentia raiva ou uma tristeza vazia e escura e que toma o lugar de todas as outras coisas até deixar tudo completamente gelado. Não era a primeira, mas não sabia se não era a última. Os seus olhos tinham uma coisa diferente desta vez. Ele disse e mirou prá acertar. Ele escolheu as palavras pela dor que elas trariam.
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histórias de verso e avesso,
rascunhos de quadros
quinta-feira, março 06, 2008
Pois eu quase parti.
Já com a mala fechada caiu tudo por água abaixo.
Agora vou, mas numa viagem menor.
Vou bem mais perto e volto logo
E tudo fica prá mais longe
Volto a esperar até a hora chegar
Sucede assim, o doce tirado
Fico parado e largo a mochila
Só me resta contar
Ou quem sabe, já que não foi agora
Fica prá mais tarde, aguardar de novo não é mais problema
Ainda resta comemorar.
Já com a mala fechada caiu tudo por água abaixo.
Agora vou, mas numa viagem menor.
Vou bem mais perto e volto logo
E tudo fica prá mais longe
Volto a esperar até a hora chegar
Sucede assim, o doce tirado
Fico parado e largo a mochila
Só me resta contar
Ou quem sabe, já que não foi agora
Fica prá mais tarde, aguardar de novo não é mais problema
Ainda resta comemorar.
Desavisado
Fôra devidamente avisado sobre a natureza daqueles homens, cheios de dúvidas. Preparou-se para um arsenal de perguntas como quem se prepara bem para um arsenal de perguntas: juntou um punhado de substantivos bem substantivos e não economizou energias em trabalhar nos melhores adjetivos. Era simples, mas potente, tinha certeza.
Debruçou-se na tarefa de distribuir didaticamente as palavras pelas frases e chegou a testá-las no ar. Eram belas as frases suas. E diziam tudo. Ainda assim, fez lembretes pra animar a memória. Via-se municiado de todas respostas.
Foi quando um homem só lhe pregou a peça. Um homem muito só. Tão só nesta vida que desacompanhado da mais elementar das dúvidas. Um homem que, antes de não saber, não detivera a sombra do que um dia chamou-se pensamento. Este homem, que nunca pensou, não podemos dizer que era um ignorante.
Pois bem, foi este homem que nem chegava a ser ignorante que o deixou mudo, frente a tamanha pergunta. Uma questão cínica de tão tarde que lhe vinha bater a porta. E trágica, pois parecia acelerar o tempo de uma forma absurda, que seu coração nem faria menção de acompanhar. Estático, boquiaberto. Certamente fôra neste instante, no instantâneo deste instante, que lhe entrara pela boca a pergunta do outro, e foi tomar seus pulmões. Ar. A pergunta lhe salvara. Mas como viveria com uma dúvida daquelas?
Debruçou-se na tarefa de distribuir didaticamente as palavras pelas frases e chegou a testá-las no ar. Eram belas as frases suas. E diziam tudo. Ainda assim, fez lembretes pra animar a memória. Via-se municiado de todas respostas.
Foi quando um homem só lhe pregou a peça. Um homem muito só. Tão só nesta vida que desacompanhado da mais elementar das dúvidas. Um homem que, antes de não saber, não detivera a sombra do que um dia chamou-se pensamento. Este homem, que nunca pensou, não podemos dizer que era um ignorante.
Pois bem, foi este homem que nem chegava a ser ignorante que o deixou mudo, frente a tamanha pergunta. Uma questão cínica de tão tarde que lhe vinha bater a porta. E trágica, pois parecia acelerar o tempo de uma forma absurda, que seu coração nem faria menção de acompanhar. Estático, boquiaberto. Certamente fôra neste instante, no instantâneo deste instante, que lhe entrara pela boca a pergunta do outro, e foi tomar seus pulmões. Ar. A pergunta lhe salvara. Mas como viveria com uma dúvida daquelas?
morte no primeiro dia
Renato controlava sua impetuosidade inata
com doses mensais de quatro domingos
nas segundas renascia em si
(tempestades cinza-escuras)
chovia na terça em treze minutos
e na quarta-feira era evaporado
e na quinta dose de um fígado cansado
derrubava a mesa de um jogo acordando
consertava arestas, era sexta-feira
pressentiu um sopro de dias passados
mas não via o tempo, era muito lento
eram sete dias e já estava indo
era um tanto louco aquele de repente
já chegou domingo, já morreu Renato
com doses mensais de quatro domingos
nas segundas renascia em si
(tempestades cinza-escuras)
chovia na terça em treze minutos
e na quarta-feira era evaporado
e na quinta dose de um fígado cansado
derrubava a mesa de um jogo acordando
consertava arestas, era sexta-feira
pressentiu um sopro de dias passados
mas não via o tempo, era muito lento
eram sete dias e já estava indo
era um tanto louco aquele de repente
já chegou domingo, já morreu Renato
Desumana
coberta de neve parecia nula
não estava mais, não estava nua
nada parecia com uma voz que soa
nada se mexia, nem a vida à toa
era um frio isento deste que arrepia
um vazio que corta deste que ignora
ela não sofria, tinha a pele dura
era branca a pele e nem refletia
não havia vento, nem um som suspenso
eu olhava aquilo e nem era denso
de uma violêcia que emudece o eco
era tão intenso que não repetia
tinha tanta idade quanto um segundo
era tão estranha tanto quanto o mundo
não estava mais, não estava nua
nada parecia com uma voz que soa
nada se mexia, nem a vida à toa
era um frio isento deste que arrepia
um vazio que corta deste que ignora
ela não sofria, tinha a pele dura
era branca a pele e nem refletia
não havia vento, nem um som suspenso
eu olhava aquilo e nem era denso
de uma violêcia que emudece o eco
era tão intenso que não repetia
tinha tanta idade quanto um segundo
era tão estranha tanto quanto o mundo
o que faz o sofrimento
- sequer uma palavra
,disse
e ninguém emitiu um ai
houve o som
ainda que você não possa ouvir, houve
hoje só se lembra de ouvir
a gente muda
(que não quer repetir)
,disse
e ninguém emitiu um ai
houve o som
ainda que você não possa ouvir, houve
hoje só se lembra de ouvir
a gente muda
(que não quer repetir)
Descaminho
olho do avesso minhas passadas
passo desencontrado, joelho torcido
indago como terei sido
a sombrancelha cede:
sou desta linha
desta linha que atravessa um tango
e submete o passo
que repete o giro
até cansaço
desta linha que tropeça em fuga
até que muda e sobe um monte
e antes da pressa
olha enviesado os vales
que antecedem horizonte
passo desencontrado, joelho torcido
indago como terei sido
a sombrancelha cede:
sou desta linha
desta linha que atravessa um tango
e submete o passo
que repete o giro
até cansaço
desta linha que tropeça em fuga
até que muda e sobe um monte
e antes da pressa
olha enviesado os vales
que antecedem horizonte
terça-feira, janeiro 29, 2008
Verdes Raros
Sonhos sensatos e raros mergulhos
Um gozo de tempos em tempos de paz
Jogos de almas, palavras trocadas
Cadeia de eventos em ventos do sul.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Contam histórias, afogam silêncios
No verde sem fim, fui aprisionado
Conta comigo de novo começo
Não escondo mais meu sorriso.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Um gozo de tempos em tempos de paz
Jogos de almas, palavras trocadas
Cadeia de eventos em ventos do sul.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Contam histórias, afogam silêncios
No verde sem fim, fui aprisionado
Conta comigo de novo começo
Não escondo mais meu sorriso.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
terça-feira, janeiro 22, 2008
quarta-feira, dezembro 19, 2007
O avesso
Quem sabe com quem pareço quando canto?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo
Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo
Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?
Mudo. Mas para o mesmo lado
Para qual mais seria? O avesso
terça-feira, dezembro 11, 2007
desperdício
a caneta. usava a caneta como ponte entre o ópio e suas veias
buscava a veia artística, em vãos de muitas outras
(é possível que tenha sempre errado
e os rompantes tenham sido apenas de delírio)
azul era o sangue de sua paixão
no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco
apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa
Mas era infértil.
buscava a veia artística, em vãos de muitas outras
(é possível que tenha sempre errado
e os rompantes tenham sido apenas de delírio)
azul era o sangue de sua paixão
no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco
apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa
Mas era infértil.
quarta-feira, novembro 28, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
Luzes
Edmilson olha para a grande tela que se extende iluminada bem no nível de sua casa. Nela, um personagem faz cara de tédio para o videogame de sempre. Sai de cena. Deve ser porque é muito mais bonito lá atrás. O copo dele ficou. Quanta coisa espalhada. Playboy, Edmilson pensou.
André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.
André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Quantas coisas guardadas em papel
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso
Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço
Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso
Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço
Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
o belo e a fome de ser outro
a ausência da falta no belo está implícita
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali
o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia
se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além
e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas
te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes
chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar
mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes
se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho
ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali
o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia
se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além
e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas
te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes
chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar
mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes
se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho
ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...
Cartas do imaginário
um leitor anônimo
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
ascende
tem uma sílaba de arte no ar
como um cochichar de vento
tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida
e eu vou
e eu vôo
e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe
e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida
como um cochichar de vento
tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida
e eu vou
e eu vôo
e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe
e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida
quinta-feira, novembro 22, 2007
com razão o fim do sonho
(vivo o sonho sem saber)
povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos
(depois penso que sei)
despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego
(alucino)
colho uma colméia
sento à mesa com as abelhas
meu veneno escorre doce
(choro quando bocejo)
povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos
(depois penso que sei)
despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego
(alucino)
colho uma colméia
sento à mesa com as abelhas
meu veneno escorre doce
(choro quando bocejo)
sexta-feira, novembro 02, 2007
O verde continua se movendo, confundindo, vários tons, e eles bailam.
Combinando com ele, só que contrapondo, a janela uiva.
É triste
Mas mais que triste, agonia.
Dançam árvores, arbustos e bandeiras
toda a sorte de pássaros voam e param no ar.
Dançam ao gemido da janela.
Mesmo tão invisível
o vento se presta a tantas imagens, todas feitas com palavras.
domingo, outubro 28, 2007
O isento
Diorando era um cara isento. Absolutamente isento. Dizia-se, tão isento que quando o encontraram de revólver à mão e camisa coberta de sangue, ao lado do corpo estirado de sua esposa, arquivaram o caso por falta de provas. Tampouco devia ser sua mulher. Uma mulher estranha, não se poderia crer companheira de Diorando, cidadão tão ilustre. E isento. O grande jornalista do país, Diorando era tão isento que lograra ser o único correpondente internacional que mantivera residência no Brasil. Os fatos e Diorando eram água e óleo, não se misturavam. Afinal, seu trabalho era contá-los, descrevê-los com maestria e neutralidade. Diorando olhos de águia. Mantinha-se longe, afastado dos acontecimentos. Era sua receita para o refinamento periodístico. Quando indagado, Diorando era magistral em seus rodeios e floreios de não dizer nada. O distintivo de sua isenção libertava-o da tarefa ordinária de opinar. Diorando não conversava, disparava veredictos. E aquilo que proclamava era tão original e puro que havia até igreja levando seu nome. Mas Diorando não se prestava a dar sermões, muito menos meter-se com política. No entanto, era conhecido em todos os meios, entre legisladores, artistas, arcebispos e funcionários públicos. Para o povo é que era um deus encarnado. Camarada imaculado, livre de todos os pecados da carne. A carne que se confunde na carne, a carne de todas as paixões, dos medos e hesitações. Era coisa linda de ver, Diorando caminhava pelo meio das ruas com o semblante sempre resoluto, como se faixas de segurança acompanhassem seus passos continuamente. O trânsito, a cidade, o mundo parava para vê-lo passar, o Diorando. Cidadão incólume, irrepreensível. Diorando rejeitara até mesmo o desapego. Era sua inclinação inata não apegar-se, de modo que lhe seria estranho desprover-se de algo que nunca tivera.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
A fome e o eufemismo
o acaso come palavras de outrem
há casas órfãs de letras
em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista
o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo
o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio
há casas órfãs de letras
em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista
o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo
o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio
trilho sonoro (parte última)
(a cena final teria mogwai fear satan. sim, uma longa cena vai ao fim)
caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas
compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando
apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando
aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas
estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima
grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados
projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos
caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas
compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando
apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando
aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas
estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima
grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados
projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos
quinta-feira, outubro 25, 2007
Sigo a cena
Sonho dela e abro os olhos
O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem
Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito
Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo
Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras
Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente
E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número
Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.
Sonho dela e abro os olhos
O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem
Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito
Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo
Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras
Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente
E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número
Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.
quarta-feira, outubro 24, 2007
nasce
de nascer o sol
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra
vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar
pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir
de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim
ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar
sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra
vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar
pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir
de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim
ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar
sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu
O viaduto
E, no entanto, o irrepetível repetiu-se. A subida a pé pelo viaduto da João Pessoa, à margem do grande Parque Farroupilha, proporcionou-me sensação semelhante. Era e é Porto Alegre. Meu caminhar determinando o movimento da cena, sol determinando luz e sombra, aos efeitos dos prédios. Um morro ao fundo, mas ao lado... ao lado uma aquarela de verdes, dos mais diversos. Como é lindo ver brotar da terra árvores tão eternas e tão silenciosas. A vida caótica de uma cidade desacontece neste fim de tarde. Eu sigo em câmera, lentamente vago pela cena, o pescoço sempre à esquerda. Lá embaixo tem um lago, meio verde escuro, meio preto de sombra. Há pontos que são tartarugas e riscos de peixes graúdos. O quadro me foge à moldura, quando tudo é irreparável, onde é que eu reparo? É uma esquina mágica, linhas tomando três dimensões. O lindo e antigo prédio da universidade, crescido às sementes do parque, que o vento atravessa uma rua. O conhecimento sintetizado numa construção sólida, mas sofrida do tempo, esperando por mãos restauradoras. Um quadro raro, sem pontos que fugissem, em que só o meu trânsito era trânsitório, mas nada de fugaz ali reteria minha memória. As copas, as grandes copas de dois verdes. Nunca é tarde para ver uma tarde assim, pintada nas árvores.
terça-feira, outubro 23, 2007
Evaporar - Rodrigo Amarante [mestre]
Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar
Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar
O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei
E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar
Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar
O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar
Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar
Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar
Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar
O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei
E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar
Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar
O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar
Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar
Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!
A ponte
É uma ponte que se impõe sobre uma avenida larga de Santiago del Chile. Ou sobre um desses arroios de água escassa e meio suja, não lembro precisamente o que se passava embaixo dela. Voltávamos para o albergue com o suprimento recorrente naqueles dias: pães, alface, frios, refrigerante. Nas extremidades da ponte - que pode muito bem ser um viaduto mesmo, mas um lindo viaduto - sinais de anarquistas junto às escadas. Escadas que subíamos em duas voltas. Lá em cima, sobre a ponte, era sol. Um caminho de sol, de céu chileno sempre azul, da grande montanha ao fundo. Nunca vou esquecer daquela montanha ao fundo. Ela dizia: Santiago; esta é Santiago. Eu parava pra ouvir, era doce. Desde a base da fabulosa cordilheira, fazia um trajeto com a cabeça em direção ao céu. Ali encontrei o espírito da cidade. Pertencia a ela, que cochichava seu nome em meu ouvido. Um sopro de vento fresco dava uma sensação de liberdade. Pode parecer paradoxal, ela me pertencia, e eu era livre. Mas era assim. Aquela montanha não me cercava, o céu tampouco me suprimia. Diziam: tu pertences ao mundo, podes ser altíssima montanha, podes ser infinito céu, podes ser simplesmente o que caminha e sabe. - Prazer. Um compromisso bom: responsabilidade pode muito bem ser isso. Liberdade tem limites de firmamento, fronteiras feitas de montanhas respeitáveis. A responsabilidade por minha vida. Ganhei assim, de graça.
quarta-feira, outubro 17, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
Tocaia
Acha mesmo? Então faz assim
Faz o seguinte:
espera, mas espera calado
Segura a onda que paciência é grande virtude
Não responde, não repreende
Te acomoda bem onde ninguém se importa
Fica ali e observa
Não é fácil esperar calado
Ouvir e não explodir
Eu não sei.
Vai chegar uma hora
Um momento certo
Se esperou o suficiente, ele vem, podes crer.
Quando ele chegar, a paciência vai ser recompensada
Todo o silêncio vai mostrar sentido
Com todo o tempo do mundo, com a vantagem conquistada
Levanta com a maior autoridade
Mostra quem é que manda
E bate com toda força.
Faz o seguinte:
espera, mas espera calado
Segura a onda que paciência é grande virtude
Não responde, não repreende
Te acomoda bem onde ninguém se importa
Fica ali e observa
Não é fácil esperar calado
Ouvir e não explodir
Eu não sei.
Vai chegar uma hora
Um momento certo
Se esperou o suficiente, ele vem, podes crer.
Quando ele chegar, a paciência vai ser recompensada
Todo o silêncio vai mostrar sentido
Com todo o tempo do mundo, com a vantagem conquistada
Levanta com a maior autoridade
Mostra quem é que manda
E bate com toda força.
quarta-feira, outubro 10, 2007
o vácuo
A coruja me olha, questionadora
meio de lado, assim, pra não pressionar
ocorre que o silêncio de quem espera é menor
que o silêncio de quem quer
mas não sabe o que dizer
quer dizer...
embora pareça o contrário
veja bem: o silêncio de quem espera.
chega quase a não ser.
a coruja ouve meu não dizer
e, esperando minha palavra dita,
diverte-se ou tedia-se
com minha retumbante ânsia
meu tilintante ensaio
e o engolir da minha língua
veja só, que para mim é prisão
e pra ela é porto.
não há silêncio onde não possa haver ao menos um monólogo
quiçá um diálogo
não há conversa entre a fuga e a demência de uma espera
meio de lado, assim, pra não pressionar
ocorre que o silêncio de quem espera é menor
que o silêncio de quem quer
mas não sabe o que dizer
quer dizer...
embora pareça o contrário
veja bem: o silêncio de quem espera.
chega quase a não ser.
a coruja ouve meu não dizer
e, esperando minha palavra dita,
diverte-se ou tedia-se
com minha retumbante ânsia
meu tilintante ensaio
e o engolir da minha língua
veja só, que para mim é prisão
e pra ela é porto.
não há silêncio onde não possa haver ao menos um monólogo
quiçá um diálogo
não há conversa entre a fuga e a demência de uma espera
terça-feira, setembro 25, 2007
Trem de nuvens
Um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena. Horácio escolheu a estrada secundária para encurtar seu trajeto e fugir do pedágio, e atingiu seu objetivo, mas ao custo da lentidão de camionetas velhas, buracos e alguma lama. Não tivesse chovido na noite anterior, a lama seria trocada por um bocado de poeira.
Depois de passar pelos ferro-velhos (que devem sobreviver vendendo sucata uns para os outros, tantos que são eles) o verde torna-se mais freqüente, e a agradável luz da manhã acaba por deixar a região bonita, coisa que não é regularmente. O trem branco cruza o seu caminho azul com considerável pressa.
A pista simples e sem acostamento restringe a velocidade da viagem à lentidão do carro a frente. Formam-se comboios encabeçados por grandes caminhões ou carros com dois dígitos de idade. A melhor opção passa a ser olhar ao redor e contentar-se com o que há para ser visto. Ao observar o céu a sua frente, Horácio elabora a frase "um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena" e pensa que é uma boa maneira de começar um texto, um conto, um romance. A imagem de um trem de nuvens também funcionaria em um poema, pondera. Precisa anotar aquilo, não pode deixar passar. Pega então o bloquinho no qual, com pouquíssima disciplina, anota o consumo de combustível de seu carro, no porta-luvas. A operação é delicada, já que precisa manter um olho no caminhão que está na sua frente e outro ao verona apressado colado na sua traseira. Seu motorista parece manter a esperança de que conseguirá, em breve, espaço suficiente para ultrapassar. Horácio, com o bloco na mão esquerda e caneta na direita, mede as distâncias e estuda os comportamentos de seus dois vizinhos de estrada. Passa a tarefa de conduzir o veículo a seu joelho e dá-se conta de que a simples tarefa de escrever uma frase já formulada ganha proporções maiores com o veículo em movimento. Prossegue lentamente, alternando atenções para o papel, para a estrada a sua frente, e para o carro na sua traseira.
Sua atenção tinha muitos destinos e, quando o sinal ficou amarelo, a camioneta à frente do caminhão acelerou e passou com o sinal já vermelho. O caminhão, que tinha hora para entregar a sua carga, também acelerou e foi na esteira da camioneta. Horácio, ao desviar sua atenção do bloco para o caminhão à sua frente, viu que este segui adiante e fez o mesmo. Everaldo, que estava com o seu horário queimado e não via a hora da maldita sinaleira esverdear, acelerou e acertou a lateral do carro de Horácio, que rodou antes de alcançar a pista oposta à de Everaldo onde Soninha não tinha pressa, mas já tinha arrancado seu carro, e acabou por acertar novamente o carro do já fraturado Horácio. Seu Argeu assistiu a tudo de seu verona prudentemente parado para o sinal vermelho.
Depois de passar pelos ferro-velhos (que devem sobreviver vendendo sucata uns para os outros, tantos que são eles) o verde torna-se mais freqüente, e a agradável luz da manhã acaba por deixar a região bonita, coisa que não é regularmente. O trem branco cruza o seu caminho azul com considerável pressa.
A pista simples e sem acostamento restringe a velocidade da viagem à lentidão do carro a frente. Formam-se comboios encabeçados por grandes caminhões ou carros com dois dígitos de idade. A melhor opção passa a ser olhar ao redor e contentar-se com o que há para ser visto. Ao observar o céu a sua frente, Horácio elabora a frase "um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena" e pensa que é uma boa maneira de começar um texto, um conto, um romance. A imagem de um trem de nuvens também funcionaria em um poema, pondera. Precisa anotar aquilo, não pode deixar passar. Pega então o bloquinho no qual, com pouquíssima disciplina, anota o consumo de combustível de seu carro, no porta-luvas. A operação é delicada, já que precisa manter um olho no caminhão que está na sua frente e outro ao verona apressado colado na sua traseira. Seu motorista parece manter a esperança de que conseguirá, em breve, espaço suficiente para ultrapassar. Horácio, com o bloco na mão esquerda e caneta na direita, mede as distâncias e estuda os comportamentos de seus dois vizinhos de estrada. Passa a tarefa de conduzir o veículo a seu joelho e dá-se conta de que a simples tarefa de escrever uma frase já formulada ganha proporções maiores com o veículo em movimento. Prossegue lentamente, alternando atenções para o papel, para a estrada a sua frente, e para o carro na sua traseira.
Sua atenção tinha muitos destinos e, quando o sinal ficou amarelo, a camioneta à frente do caminhão acelerou e passou com o sinal já vermelho. O caminhão, que tinha hora para entregar a sua carga, também acelerou e foi na esteira da camioneta. Horácio, ao desviar sua atenção do bloco para o caminhão à sua frente, viu que este segui adiante e fez o mesmo. Everaldo, que estava com o seu horário queimado e não via a hora da maldita sinaleira esverdear, acelerou e acertou a lateral do carro de Horácio, que rodou antes de alcançar a pista oposta à de Everaldo onde Soninha não tinha pressa, mas já tinha arrancado seu carro, e acabou por acertar novamente o carro do já fraturado Horácio. Seu Argeu assistiu a tudo de seu verona prudentemente parado para o sinal vermelho.
terça-feira, setembro 11, 2007
Peter Pan
A seguinte resenha, escrita com tinta esferográfica verde, foi encontrada entre livros antigos. Especialistas estimam que tenha sido escrita por volta do ano de 1988:
"Peter Pam" é um livro que acho que todo mundo conhece. Este livro fala de um menino que procura sua sombra e agora se querem saber mais va na livraria e compre "Peter Pam".
"Peter Pam" é um livro que acho que todo mundo conhece. Este livro fala de um menino que procura sua sombra e agora se querem saber mais va na livraria e compre "Peter Pam".
segunda-feira, agosto 27, 2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
quarta-feira, agosto 15, 2007
Na fragmentação, perde valor o todo.
Ou, no todo fragmentado, a parte perde relevância. A parte é órfã de uma alma total.
Uma moeda de 10 centavos não VALE dez centavos de um real.
Como fazer para partilhar sem perder a dimensão total?
Haverá um mecanismo para dar conta da desvalorização proporcional à repartição?
Quando há quase um demérito em ser parte, a solução parece ser o todo.
Como fazer a VALORIZAÇÃO inversa da parte?
Ou, no todo fragmentado, a parte perde relevância. A parte é órfã de uma alma total.
Uma moeda de 10 centavos não VALE dez centavos de um real.
Como fazer para partilhar sem perder a dimensão total?
Haverá um mecanismo para dar conta da desvalorização proporcional à repartição?
Quando há quase um demérito em ser parte, a solução parece ser o todo.
Como fazer a VALORIZAÇÃO inversa da parte?
sexta-feira, agosto 10, 2007
Parado no ar
Contradança, concordando com o par que vem
Acordando em sossego
Vem servindo de novo
Vem zunindo, soando e silêncio
Suado de novo,
Soando e suados, caímos os dois
Acabados
Contratempos, tantos e quantos
Como que pedalando contra o vento
O quanto pudesse agüentar
Ainda em silêncio
Mais, mais
Mais e mais
Do mesmo que não canso de provar
E acabei lambuzado
Espera um pouco,
Deixa o vento passar
Vou ficar aqui parado
Em silêncio.
Acordando em sossego
Vem servindo de novo
Vem zunindo, soando e silêncio
Suado de novo,
Soando e suados, caímos os dois
Acabados
Contratempos, tantos e quantos
Como que pedalando contra o vento
O quanto pudesse agüentar
Ainda em silêncio
Mais, mais
Mais e mais
Do mesmo que não canso de provar
E acabei lambuzado
Espera um pouco,
Deixa o vento passar
Vou ficar aqui parado
Em silêncio.
quinta-feira, agosto 02, 2007
IV CANTO (o último e eterno canto do primeiro quadro)
agora só faltam as cores
e arrematar os detalhes
- tarefa não menos distinta
graça
a gente busca de graça
a nossa busca é de graça
dentro e fora do quadro
a gente ri junto
com dois pontos um plano de gráfico:
(eu rascunho sobre o livro de cálculo)
esboço uma curva ascendente
o traço se vai adiante
o trinco da porta cochicha - infinito
e arrematar os detalhes
- tarefa não menos distinta
graça
a gente busca de graça
a nossa busca é de graça
dentro e fora do quadro
a gente ri junto
com dois pontos um plano de gráfico:
(eu rascunho sobre o livro de cálculo)
esboço uma curva ascendente
o traço se vai adiante
o trinco da porta cochicha - infinito
III CANTO
um pé no chão
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
a vida chama
que ascende e queima
a vida derrama
um balde de tinta na gente
e a gente vela e desvela
e a gente tenta pô-la na tela
fazemos arte - a gente parte
e a vida cumprimenta
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
a vida chama
que ascende e queima
a vida derrama
um balde de tinta na gente
e a gente vela e desvela
e a gente tenta pô-la na tela
fazemos arte - a gente parte
e a vida cumprimenta
II CANTO
há luz debaixo da cama
há luz por trás do vermelho
há luz batendo na porta
há dias vind'ouros chegando
e aquelas estrelas que brilham
brilharão em outros céus
pois que há luz sobre as trevas
há luz antes dos sóis
há nós
que não desatam
há luz por trás do vermelho
há luz batendo na porta
há dias vind'ouros chegando
e aquelas estrelas que brilham
brilharão em outros céus
pois que há luz sobre as trevas
há luz antes dos sóis
há nós
que não desatam
Primeiro quarto (esboços do primeiro quadro)
[há algo belo, que transfere o grandioso pra quatro cantos de um quarto]
I CANTO
dispenso o compasso
escrevo estrelas no teto
- a noite vive
acorda a mão em vermelho
amanheço a janela à mão livre
um verde perto da porta
- e parte de um travesseiro
meia na ponta da cama
a cama no meio do quarto
o quarto nos quartos de um quadro
e o tempo guardado no fundo
I CANTO
dispenso o compasso
escrevo estrelas no teto
- a noite vive
acorda a mão em vermelho
amanheço a janela à mão livre
um verde perto da porta
- e parte de um travesseiro
meia na ponta da cama
a cama no meio do quarto
o quarto nos quartos de um quadro
e o tempo guardado no fundo
quarta-feira, julho 25, 2007
Quadro úmido
passo por ali pra me alimentar
do teu ar
sai por uma fresta
um vapor de banho teu
passo por ali pra me molhar
ficaram gotas pingando
- dá pra ver um xampu
misturo na cabeça
banho-me com espuma de ti
do teu ar
sai por uma fresta
um vapor de banho teu
passo por ali pra me molhar
ficaram gotas pingando
- dá pra ver um xampu
misturo na cabeça
banho-me com espuma de ti
Quanto mais se pensa, menos se escreve...
A beleza não é vencer, mas lutar até o fim. Ir até as últimas conseqüências.
quinta-feira, julho 19, 2007
Andaram juntos feito corpos, lado a lado, sem ser necessária uma única palavra, apenas o contato leve e roubado. Uma, bixo puta, indo porque sim, sem bem afeto, sem bem admiração, só uma coisa familiar, um tesão, um impulso que não tem descrição, mas que é a próxima instrução de um programa por seu corpo seguido. Ele, bixo nada. Animal sem vida que desistiu já faz um tempo, que não se importa e só espera. Bixo nada que encontrou uma coisa que havia perdido. Após perder suas vontades, se deixou levar, foi caindo, descendo e rolando, esperando que um barranco um pouco mais significativo quebrasse seu pescoço de uma vez e acabasse logo com isso. Agora, tinha uma obsessão.
Obsecou pelo gosto provado. Riu novamente, depois de tempos, se bem que de maneira furtiva, até mesmo sem jeito. Envergonhou porque acabou aprendendo que não ria, e achou que sua alegria é sinal de fraqueza. Ao mesmo tempo, ela levantou as calças, como que por acaso, quase que com indiferença. Não riu, da mesma maneira que não gozou. Ou gozou, mas não se importou. Do alto de um tesão mecânico, saiu a passo do beco. Parou debaixo do poste, abriu a bolsa e catou uma pastilha. Seguiu à esquerda e depois rua acima. Na porta, demorou-se com as chaves, abriu, fechou. Subiu três lances de escada, mais uma última porta. Uma vez em casa, despiu-se de alguma fantasia que ainda restava e deitou a cabeça tranqüilamente, conforme era de praxe.
sábado, junho 30, 2007
Nada muda
Nada serve, tudo muda.
Um esforço
após o outro
revela-se em vão.
Em um minuto
o quarto vira em hora,
a hora vira em sono
e o branco permanece
um alvo na tela.
Nem um bumbo reto,
marcial,
se vê capaz
de espantar
esse silêncio.
Um esforço
após o outro
revela-se em vão.
Em um minuto
o quarto vira em hora,
a hora vira em sono
e o branco permanece
um alvo na tela.
Nem um bumbo reto,
marcial,
se vê capaz
de espantar
esse silêncio.
quinta-feira, junho 28, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
Medusa às avessas
não dão sossego
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar
(gente passatempo
todo mundo quer girar)
a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar
o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante
(bom dia é um dia escapado, veloz)
bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena
perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria
soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite
e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada
(olhos de gente nunca chegam)
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar
(gente passatempo
todo mundo quer girar)
a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar
o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante
(bom dia é um dia escapado, veloz)
bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena
perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria
soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite
e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada
(olhos de gente nunca chegam)
segunda-feira, junho 18, 2007
terça-feira, junho 12, 2007
She's not a girl who misses much
Madalena terminou seu café da manhã e subiu para buscar sua mochila. No banheiro, observou-se demoradamente enquanto escovava seus dentes com uma impaciência típica de seus 16 anos. Sentiu-se cansada e resolveu ser diferente aquele dia.
Antes de continuar, é importante conhecer um pouco mais de Madalena:
Antes de continuar, é importante conhecer um pouco mais de Madalena:
No dia anterior, Madalena passara a tarde rodeada por seu séquito. No anterior também. E antes desse, idem. Era bonita, como muitas gurias aos 16. Mas, mais que isto, afinal todo mundo têm 16 uma vez na vida, era confiante. Morena de cabelos lisos, sabia sorrir para conquistar e sorrir para magoar. As colegas davam tudo para serem eleitas, e Madá era tirana. Algumas menos dotadas ganhavam seus momentos de preferência e aproveitavam enquanto podiam. As preferidas desfilavam como artistas. Enquanto se contentavam em ser belas coadjuvantes, Madá tratava-as como iguais. Bastava não tentarem se impor e tudo estava resolvido. Enfim, tinha o mundo a seus pés (ainda que, aos 16 anos de idade, o mundo se resuma, basicamente, pelo seu colégio e alguns poucos grupos destacados de outros colégios da cidade).
Mas Madalena era assim muito por ser linda e por ter a oportunidade. Era esperta e sabia lidar com pessoas. Como por instinto, reconhecia os elementos de um grupo e orquestrava tudo a seu bel prazer. Ao mesmo tempo, ela tinha essa coisa por dentro. De quando em vez, precisava de solidão. Queria ficar sozinha, deprimia-se com isso, mas não podia lutar contra. Fora por causa disto que Sandra caíra.
Sandra era uma espécie de número dois. Eram inseparáveis. Ditavam o que era e o que deixava de ser. Onde ir e o que era engraçado, inteligente ou bobagem. Mas Sandra fez pouco de Madá quando esta, num ataque de melancolia fora de hora, mandou todo mundo embora e quis, desesperadamente, ficar sozinha, às três da tarde! Sandra caiu em desgraça no conceito de Madalena, e, conseqüentemente, do grupo todo. Hoje, Sandra é, condenscendentemente, autorizada a participar das reuniões, das festas, do recreio, como uma figurante "querida".
Pois, esta manhã, Madalena sentiu-se, mais uma vez, cansada de tudo isto. Deixou seu boné da Adidas em cima da cama e colocou o Panamá de seu pai. Olhou-se mais uma vez no espelho, pegou sua mochila e foi para o colégio. Quando estava chegando, alguma coisa houve. Todo o séquito com seus bonés levemente tortos olhou e se sentiu "out". Ainda que todo mundo em volta estivesse com um boné, a partir daquele momento elas não tinham certeza de que era a coisa certa a fazer. Madá sentiu o desequilibrio que tinha criado e sentiu-se desconfortável em saber que uma decisão sua era capaz de criar uma pequena revolução. Só sentiu-se confortável quando seus olhos encontraram os olhos daquela guria de preto, que usava um all-star e estava sozinha com seu mp3. Não sabia bem por que, mas ela entendia.
segunda-feira, junho 11, 2007
Através
A vida não é a liberdade, mas o que se faz com ela.
O relógio vai empilhando números, funcionando taliqual uma esteira de fábrica. Entram segundos, saem horas, em questão de minutos. O tempo não deixa resíduos de si. Talvez porque nem exista o que restar. Não é apreensível - mente o relógio. O homem não penetra no tempo, doutro modo não haveria liberdade alguma. É certo que algumas restrições existem, mas não se dão no tempo; a qualidade da liberdade não se dá, então, pelo tempo, pois não há liberdade onde não possa haver impedimento.
Isto pensado idealmente. Pois não só os relógios estão por aí aos bilhares com seus tiquetaques incessantes, como o mundo gira em períodos demarcáveis, e a vida - humana - acontece em sessenta anos, mais ou menos. O tempo em si não foi inventado pelo homem, esteve aí a pré-história para não nos deixar mentir. Mas a liberdade permitiu inclusive que se compreendesse o tempo sob diversas perspectivas, e a isto se seguem valores e comportamentos vários. O homem racionalizou o tempo, deu-lhe um sentido em sua vida. Talvez por achá-lo razoavelmente incompreensível no absoluto, tratou de reparti-lo. Que faria alguém com a eternidade?
Tomando uma, talvez outra, de suas invenções: o dinheiro. Que faria um homem com uma nota de cem trilhões de dólares? Com quanta liberdade estamos dispostos a lidar? Quem está disposto a aceitá-la?
Nascemos com a memória, e não tivemos de ensiná-la a apreender. O que podemos falar de nossa vida, passa por sua apreensão. E por nossa linguagem. Mas fiquemos com a memória, por enquanto. Ela não distribui o que apreendeu da vida em tópicos, porque não atribui um mesmo valor a todas experiências. Quem sabe aquilo que fez incontáveis vezes seja o mais esquecido, quem sabe por isso mesmo. A quantidade não é primordial para a memória. Se ainda não podemos dizer que o que conta na vida não é quantificável, talvez possamos dizer que quem conta não está preocupado com isso. Tampouco este contador de histórias - ou esta contadora, já que aqui se fala da memória - tem a marcação do tempo na ponta da língua, ou toma-lhe como indissociável dos fatos. Não, isso não lhe parece tão importante. Datas precisas tanto fazem, horas se atropelam, minutos se resumem. O que fica na memória - a vida que não perece, ao menos enquanto sãos vivemos - atravessa os anos, atravessa os lugares, e se pensarmos profundamente, atravessam mesmo as pessoas, até alcançar um ponto fixo de sentimento, que nos acompanha não por outro motivo senão porque também somos aquele ponto.
Se soou óbvio dizer que o que fica é o que atravessa, ou seja, continua, é porque a linguagem tem por natureza a simplicidade, assim como a natureza tem esta por linguagem. Flocos de neve descem a encosta do morro pela gravidade. Unem-se e continuam descendo. Crescem porque vão encontrando mais flocos pelo caminho. Já deixaram de ser o que eram. Mas não deixaram de ser. E sempre terão sido. E assim sempre serão.
O relógio vai empilhando números, funcionando taliqual uma esteira de fábrica. Entram segundos, saem horas, em questão de minutos. O tempo não deixa resíduos de si. Talvez porque nem exista o que restar. Não é apreensível - mente o relógio. O homem não penetra no tempo, doutro modo não haveria liberdade alguma. É certo que algumas restrições existem, mas não se dão no tempo; a qualidade da liberdade não se dá, então, pelo tempo, pois não há liberdade onde não possa haver impedimento.
Isto pensado idealmente. Pois não só os relógios estão por aí aos bilhares com seus tiquetaques incessantes, como o mundo gira em períodos demarcáveis, e a vida - humana - acontece em sessenta anos, mais ou menos. O tempo em si não foi inventado pelo homem, esteve aí a pré-história para não nos deixar mentir. Mas a liberdade permitiu inclusive que se compreendesse o tempo sob diversas perspectivas, e a isto se seguem valores e comportamentos vários. O homem racionalizou o tempo, deu-lhe um sentido em sua vida. Talvez por achá-lo razoavelmente incompreensível no absoluto, tratou de reparti-lo. Que faria alguém com a eternidade?
Tomando uma, talvez outra, de suas invenções: o dinheiro. Que faria um homem com uma nota de cem trilhões de dólares? Com quanta liberdade estamos dispostos a lidar? Quem está disposto a aceitá-la?
Nascemos com a memória, e não tivemos de ensiná-la a apreender. O que podemos falar de nossa vida, passa por sua apreensão. E por nossa linguagem. Mas fiquemos com a memória, por enquanto. Ela não distribui o que apreendeu da vida em tópicos, porque não atribui um mesmo valor a todas experiências. Quem sabe aquilo que fez incontáveis vezes seja o mais esquecido, quem sabe por isso mesmo. A quantidade não é primordial para a memória. Se ainda não podemos dizer que o que conta na vida não é quantificável, talvez possamos dizer que quem conta não está preocupado com isso. Tampouco este contador de histórias - ou esta contadora, já que aqui se fala da memória - tem a marcação do tempo na ponta da língua, ou toma-lhe como indissociável dos fatos. Não, isso não lhe parece tão importante. Datas precisas tanto fazem, horas se atropelam, minutos se resumem. O que fica na memória - a vida que não perece, ao menos enquanto sãos vivemos - atravessa os anos, atravessa os lugares, e se pensarmos profundamente, atravessam mesmo as pessoas, até alcançar um ponto fixo de sentimento, que nos acompanha não por outro motivo senão porque também somos aquele ponto.
Se soou óbvio dizer que o que fica é o que atravessa, ou seja, continua, é porque a linguagem tem por natureza a simplicidade, assim como a natureza tem esta por linguagem. Flocos de neve descem a encosta do morro pela gravidade. Unem-se e continuam descendo. Crescem porque vão encontrando mais flocos pelo caminho. Já deixaram de ser o que eram. Mas não deixaram de ser. E sempre terão sido. E assim sempre serão.
segunda-feira, junho 04, 2007
Grovska ( 2 )
Derrubou o telefone no susto. Heitor desapareceu. Bruna chamava André, desde o azulejo frio da cozinha, sabendo nada do que se passava. Ouvia seu nome, cada vez mais alto, como no despertador. Mirava o telefone, era sua namorada chmando da Itália, tanto queria lhe falar. Mas se mantinha inerte. Balbuciou, o medo antecipando-se às sílabas: Gro-vs-ka.
O que lhe acontecera? Parecia um papagaio, seu vocabulário reduzido a uma palavra. Tentou mais uma dúzia de vezes e comprovou. Era Grovska, e nada além disso. Estava perdido, não podia recorrer à Bruna, que a esta altura nem estava mais na linha, tampouco entenderia. Precisava de um amigo, alguém haveria de ter idéia do que se lhe passava, alguém que o ajudasse a recuperar suas palavras. Não podia aquilo: falava, mas não havia conexão com sua vontade. E que diabos era Grovska? Soava como russo, como se estivesse bêbado - sim, como se falasse enquanto garagarejava uma considerável dose de vodka. Tentou acalmar-se. Foi lavar o rosto. Ainda tinha seus pensamentos. Era só uma questão de libertá-los. Escovou os dentes, a escova de Bruna. Olhava-se no espelho, não parecia diferente em qualquer aspecto. Foi ligar o computador, mandaria e-mails para os mais chegados. Desistiu assim que começou a escrever - leriam tarde, certamente, e ainda responderiam com incredulidade. Teve uma idéia, buscou o celular. Mandaria uma mensagem de socorro. Pensou no único amigo que poderia estar acordado àquela hora. Gustavo tinha uma academia de ginástica, levantava cedo. Apressou-se em digitar.
---
O telefone tocou. Atendeu sem pronunciar sua sentença. Gustavo chamou:
- André?
- Grovska... esforçou-se para dizer, apesar da vergonha: era necessário que o amigo ouvisse. Gustavo desatou a rir. Fez elogios ao bom humor de André em pleno meio de semana.
- Mas e aí, o que me conta, rapaz?
- ...
- Hã?
- Grovska.
- Tss. Tá, guri, vi levar adiante agora essa história? Que que é, saudade da Bruna? Tá carente, é?
- ...
- André?
- Gr...ovs...ka.
- Ô André, quer saber, vai tomá banho! Eu tenho mais o que fazer.
É. Ele também não o levaria a sério. Bobagem que fizera, chamar o Gustavo. Tinha de buscar um médico, e teria de ir pessoalmente. Foi vestir-se. Era caso de ir no pronto-socorro. Era isso que faria. Lembrou-se ainda de pegar papel e caneta, de algum jeito expressaria seu martírio e faria entender-se. Não deixou de ajeitar a gravata, a situação solicitava credibilidade. Pegou as chaves e dirigiu-se à porta.
O som das chaves entrechocando-se o despertou.
- Grovska!, disse ao acordar. Achou estranho, tossiu, esqueceu. Heitor olhava-o ao pé da cama, a testa enrugada.
O que lhe acontecera? Parecia um papagaio, seu vocabulário reduzido a uma palavra. Tentou mais uma dúzia de vezes e comprovou. Era Grovska, e nada além disso. Estava perdido, não podia recorrer à Bruna, que a esta altura nem estava mais na linha, tampouco entenderia. Precisava de um amigo, alguém haveria de ter idéia do que se lhe passava, alguém que o ajudasse a recuperar suas palavras. Não podia aquilo: falava, mas não havia conexão com sua vontade. E que diabos era Grovska? Soava como russo, como se estivesse bêbado - sim, como se falasse enquanto garagarejava uma considerável dose de vodka. Tentou acalmar-se. Foi lavar o rosto. Ainda tinha seus pensamentos. Era só uma questão de libertá-los. Escovou os dentes, a escova de Bruna. Olhava-se no espelho, não parecia diferente em qualquer aspecto. Foi ligar o computador, mandaria e-mails para os mais chegados. Desistiu assim que começou a escrever - leriam tarde, certamente, e ainda responderiam com incredulidade. Teve uma idéia, buscou o celular. Mandaria uma mensagem de socorro. Pensou no único amigo que poderia estar acordado àquela hora. Gustavo tinha uma academia de ginástica, levantava cedo. Apressou-se em digitar.
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O telefone tocou. Atendeu sem pronunciar sua sentença. Gustavo chamou:
- André?
- Grovska... esforçou-se para dizer, apesar da vergonha: era necessário que o amigo ouvisse. Gustavo desatou a rir. Fez elogios ao bom humor de André em pleno meio de semana.
- Mas e aí, o que me conta, rapaz?
- ...
- Hã?
- Grovska.
- Tss. Tá, guri, vi levar adiante agora essa história? Que que é, saudade da Bruna? Tá carente, é?
- ...
- André?
- Gr...ovs...ka.
- Ô André, quer saber, vai tomá banho! Eu tenho mais o que fazer.
É. Ele também não o levaria a sério. Bobagem que fizera, chamar o Gustavo. Tinha de buscar um médico, e teria de ir pessoalmente. Foi vestir-se. Era caso de ir no pronto-socorro. Era isso que faria. Lembrou-se ainda de pegar papel e caneta, de algum jeito expressaria seu martírio e faria entender-se. Não deixou de ajeitar a gravata, a situação solicitava credibilidade. Pegou as chaves e dirigiu-se à porta.
O som das chaves entrechocando-se o despertou.
- Grovska!, disse ao acordar. Achou estranho, tossiu, esqueceu. Heitor olhava-o ao pé da cama, a testa enrugada.
sexta-feira, junho 01, 2007
E ainda contam sobre dias e noites
que acolhem aqueles sedentos pelo silêncio
De maneira inversa,
sentem o barulho
bumbar em pranto alheio
Sentem pena dos tempos
orquestrados para ninguém sentir
Só inventam casos,
diversos
passos até cairem em si
Ao final das contas,
sentem a saudade do que um qualquer sentiu em disco
Para que, afinal?
Se podem voltar a mentir,
Incômoda
mas única saída
honrada
conhecida.
que acolhem aqueles sedentos pelo silêncio
De maneira inversa,
sentem o barulho
bumbar em pranto alheio
Sentem pena dos tempos
orquestrados para ninguém sentir
Só inventam casos,
diversos
passos até cairem em si
Ao final das contas,
sentem a saudade do que um qualquer sentiu em disco
Para que, afinal?
Se podem voltar a mentir,
Incômoda
mas única saída
honrada
conhecida.
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