Sonhos sensatos e raros mergulhos
Um gozo de tempos em tempos de paz
Jogos de almas, palavras trocadas
Cadeia de eventos em ventos do sul.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
Contam histórias, afogam silêncios
No verde sem fim, fui aprisionado
Conta comigo de novo começo
Não escondo mais meu sorriso.
Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados
terça-feira, janeiro 29, 2008
terça-feira, janeiro 22, 2008
quarta-feira, dezembro 19, 2007
O avesso
Quem sabe com quem pareço quando canto?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo
Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo
Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?
Mudo. Mas para o mesmo lado
Para qual mais seria? O avesso
terça-feira, dezembro 11, 2007
desperdício
a caneta. usava a caneta como ponte entre o ópio e suas veias
buscava a veia artística, em vãos de muitas outras
(é possível que tenha sempre errado
e os rompantes tenham sido apenas de delírio)
azul era o sangue de sua paixão
no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco
apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa
Mas era infértil.
buscava a veia artística, em vãos de muitas outras
(é possível que tenha sempre errado
e os rompantes tenham sido apenas de delírio)
azul era o sangue de sua paixão
no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco
apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa
Mas era infértil.
quarta-feira, novembro 28, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
Luzes
Edmilson olha para a grande tela que se extende iluminada bem no nível de sua casa. Nela, um personagem faz cara de tédio para o videogame de sempre. Sai de cena. Deve ser porque é muito mais bonito lá atrás. O copo dele ficou. Quanta coisa espalhada. Playboy, Edmilson pensou.
André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.
André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Quantas coisas guardadas em papel
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso
Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço
Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso
Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço
Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
o belo e a fome de ser outro
a ausência da falta no belo está implícita
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali
o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia
se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além
e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas
te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes
chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar
mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes
se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho
ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali
o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia
se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além
e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas
te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes
chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar
mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes
se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho
ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...
Cartas do imaginário
um leitor anônimo
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte
cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar
ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste
ascende
tem uma sílaba de arte no ar
como um cochichar de vento
tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida
e eu vou
e eu vôo
e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe
e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida
como um cochichar de vento
tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida
e eu vou
e eu vôo
e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe
e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida
quinta-feira, novembro 22, 2007
com razão o fim do sonho
(vivo o sonho sem saber)
povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos
(depois penso que sei)
despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego
(alucino)
colho uma colméia
sento à mesa com as abelhas
meu veneno escorre doce
(choro quando bocejo)
povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos
(depois penso que sei)
despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego
(alucino)
colho uma colméia
sento à mesa com as abelhas
meu veneno escorre doce
(choro quando bocejo)
sexta-feira, novembro 02, 2007
O verde continua se movendo, confundindo, vários tons, e eles bailam.
Combinando com ele, só que contrapondo, a janela uiva.
É triste
Mas mais que triste, agonia.
Dançam árvores, arbustos e bandeiras
toda a sorte de pássaros voam e param no ar.
Dançam ao gemido da janela.
Mesmo tão invisível
o vento se presta a tantas imagens, todas feitas com palavras.
domingo, outubro 28, 2007
O isento
Diorando era um cara isento. Absolutamente isento. Dizia-se, tão isento que quando o encontraram de revólver à mão e camisa coberta de sangue, ao lado do corpo estirado de sua esposa, arquivaram o caso por falta de provas. Tampouco devia ser sua mulher. Uma mulher estranha, não se poderia crer companheira de Diorando, cidadão tão ilustre. E isento. O grande jornalista do país, Diorando era tão isento que lograra ser o único correpondente internacional que mantivera residência no Brasil. Os fatos e Diorando eram água e óleo, não se misturavam. Afinal, seu trabalho era contá-los, descrevê-los com maestria e neutralidade. Diorando olhos de águia. Mantinha-se longe, afastado dos acontecimentos. Era sua receita para o refinamento periodístico. Quando indagado, Diorando era magistral em seus rodeios e floreios de não dizer nada. O distintivo de sua isenção libertava-o da tarefa ordinária de opinar. Diorando não conversava, disparava veredictos. E aquilo que proclamava era tão original e puro que havia até igreja levando seu nome. Mas Diorando não se prestava a dar sermões, muito menos meter-se com política. No entanto, era conhecido em todos os meios, entre legisladores, artistas, arcebispos e funcionários públicos. Para o povo é que era um deus encarnado. Camarada imaculado, livre de todos os pecados da carne. A carne que se confunde na carne, a carne de todas as paixões, dos medos e hesitações. Era coisa linda de ver, Diorando caminhava pelo meio das ruas com o semblante sempre resoluto, como se faixas de segurança acompanhassem seus passos continuamente. O trânsito, a cidade, o mundo parava para vê-lo passar, o Diorando. Cidadão incólume, irrepreensível. Diorando rejeitara até mesmo o desapego. Era sua inclinação inata não apegar-se, de modo que lhe seria estranho desprover-se de algo que nunca tivera.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.
Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.
A fome e o eufemismo
o acaso come palavras de outrem
há casas órfãs de letras
em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista
o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo
o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio
há casas órfãs de letras
em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista
o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo
o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio
trilho sonoro (parte última)
(a cena final teria mogwai fear satan. sim, uma longa cena vai ao fim)
caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas
compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando
apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando
aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas
estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima
grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados
projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos
caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas
compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando
apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando
aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas
estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima
grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados
projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos
quinta-feira, outubro 25, 2007
Sigo a cena
Sonho dela e abro os olhos
O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem
Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito
Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo
Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras
Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente
E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número
Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.
Sonho dela e abro os olhos
O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem
Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito
Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo
Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras
Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente
E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número
Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.
quarta-feira, outubro 24, 2007
nasce
de nascer o sol
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra
vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar
pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir
de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim
ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar
sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra
vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar
pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir
de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim
ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar
sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu
O viaduto
E, no entanto, o irrepetível repetiu-se. A subida a pé pelo viaduto da João Pessoa, à margem do grande Parque Farroupilha, proporcionou-me sensação semelhante. Era e é Porto Alegre. Meu caminhar determinando o movimento da cena, sol determinando luz e sombra, aos efeitos dos prédios. Um morro ao fundo, mas ao lado... ao lado uma aquarela de verdes, dos mais diversos. Como é lindo ver brotar da terra árvores tão eternas e tão silenciosas. A vida caótica de uma cidade desacontece neste fim de tarde. Eu sigo em câmera, lentamente vago pela cena, o pescoço sempre à esquerda. Lá embaixo tem um lago, meio verde escuro, meio preto de sombra. Há pontos que são tartarugas e riscos de peixes graúdos. O quadro me foge à moldura, quando tudo é irreparável, onde é que eu reparo? É uma esquina mágica, linhas tomando três dimensões. O lindo e antigo prédio da universidade, crescido às sementes do parque, que o vento atravessa uma rua. O conhecimento sintetizado numa construção sólida, mas sofrida do tempo, esperando por mãos restauradoras. Um quadro raro, sem pontos que fugissem, em que só o meu trânsito era trânsitório, mas nada de fugaz ali reteria minha memória. As copas, as grandes copas de dois verdes. Nunca é tarde para ver uma tarde assim, pintada nas árvores.
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