quarta-feira, dezembro 19, 2007

O avesso

Quem sabe com quem pareço quando canto?
Ou, quem sabe, sou bem mais eu quando escuto do que quando falo.
Não sei
Ou calo
Ou mudo, no canto do quarto, baixinho eu mudo


Engano, eu sei, que coisa séria.
Melhor descer, desligar, me calar
Mas, aí pergunto, por que calar só?
Não vale mais, muito mais, apagar tudo, silenciar mesmo?

Mudo. Mas para o mesmo lado

Para qual mais seria? O avesso




terça-feira, dezembro 11, 2007

desperdício

a caneta. usava a caneta como ponte entre o ópio e suas veias

buscava a veia artística, em vãos de muitas outras

(é possível que tenha sempre errado

e os rompantes tenham sido apenas de delírio)

azul era o sangue de sua paixão

no limite, pendiam gotas virgens sobre um mundo profano
e branco

apontava a terra, em menções repetidas de semear alguma coisa

Mas era infértil.

quarta-feira, novembro 28, 2007

segunda-feira, novembro 26, 2007

Luzes

Edmilson olha para a grande tela que se extende iluminada bem no nível de sua casa. Nela, um personagem faz cara de tédio para o videogame de sempre. Sai de cena. Deve ser porque é muito mais bonito lá atrás. O copo dele ficou. Quanta coisa espalhada. Playboy, Edmilson pensou.

André olha através de sua janela e vê todas aquelas luzes. A distração custa-lhe a vida. Sem paciência para começar novamente, desliga seu game. Vai para o computador chatear com os amigos. Sabe muito bem que aqueles pontos iluminados aleatoriamente distribuídos morro afora são a favela que tanto o preocupa durante o dia. Muito mais bonita a esta hora.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Quantas coisas guardadas em papel
E duma vez vêm avalanche
Pulam e variam na tela
Vêem tudo do inverso

Confesso que pensava que eram férias
Ou do contrário, um sem tempo de labuta
A julgar de minha parte
Férias coletivas, tal a calma deste espaço

Nessas horas, quando vejo a tela enchendo
Também me liga um botão
Relapso
alguém já disse, né, certamente,
mas, só para constar:
a arte dignifica a vida.

descobrir

às vezes
há nuvens
acesas
à noite

(cai de madura uma bela metáfora
ainda longe de mim)

o belo e a fome de ser outro

a ausência da falta no belo está implícita
tu não a notas
porque não costumamos notar ausências
mas ela está ali

o belo não aponta direção
(isso é coisa de link)
está completo em si
tu topas com o belo
e nunca o pega com reminiscências de um outro dia

se tu procuras uma nostalgia
encontras a mais refinada das homenagens
o belo sintetiza seus ídolos superando-os
e te parece além

e a memória que lhe solicitas
como prova de existência
documenta em certidões vivazes
bem-vindas as rugas, os desvios e as voltas

te pegas admirando o mais simples
equivalências que em ti escondes

chegas a pensar
que ao belo só faltava teu olhar

mas
pergunte ao belo
e vê se te respondes

se achasse alguma coisa
o belo acharia melhor
que seguisses te olhando no espelho

ah, desperdiçar assim o belo
como um canibal...

Cartas do imaginário

um leitor anônimo
e imaginário
(mas isto não vem ao caso)
pediu com todas as letras
(era um longo comentário)
que escrevesse novamente
sobre religião
(é uma coisa que toca as pessoas)
e eu disse mais ou menos o seguinte

cara, imagina assim
nasceste com uma puta curiosidade sobre tudo
viste que não dava pra colocar tudo na boca
pra pegar o gosto
aceitaste, melhor os rótulos
o embalado nas prateleiras
leste o mundo nos jornais
ouviste todo o tipo de gente
gente muito refletida
e foste descansar à sombra
à sombra de uma árvore que desconheces
e que, aliás, não fazes questão de conhecer
porque, lembra, não fazes questões.
assim, deitado
te parece o céu tão longe
imagina
levará uma vida até alcançá-lo
quiçá uma vida seja o preço de merecê-lo
(mas é só um azul, ou tampouco)
e tu não te posicionas como homem
não colhe os frutos, come os que caem
teu corpo é um acidente
esperando o tempo consertar

ah, as ferrugens
vê que deuses escolheste

ascende

tem uma sílaba de arte no ar
como um cochichar de vento

tem essa parte que chama no vento
que apaga logo em seguida

e eu vou
e eu vôo

e me verás nos céus, como estrela
irei bem alto, talvez longe

e mesmo que logo
serei pra sempre
e em seguida

quinta-feira, novembro 22, 2007

com razão o fim do sonho

(vivo o sonho sem saber)

povoam-me pares
de imagens díspares
em danças íngremes
nos sonos túmulos

(depois penso que sei)

despovoado
cegado em ilha
deserto náufrago
em passo trôpego

(alucino)

colho uma colméia

sento à mesa com as abelhas

meu veneno escorre doce

(choro quando bocejo)

sexta-feira, novembro 02, 2007

O verde continua se movendo, confundindo, vários tons, e eles bailam.
Combinando com ele, só que contrapondo, a janela uiva.
É triste
Mas mais que triste, agonia.
Dançam árvores, arbustos e bandeiras
toda a sorte de pássaros voam e param no ar.
Dançam ao gemido da janela.
Mesmo tão invisível
o vento se presta a tantas imagens, todas feitas com palavras.

domingo, outubro 28, 2007

O isento

Diorando era um cara isento. Absolutamente isento. Dizia-se, tão isento que quando o encontraram de revólver à mão e camisa coberta de sangue, ao lado do corpo estirado de sua esposa, arquivaram o caso por falta de provas. Tampouco devia ser sua mulher. Uma mulher estranha, não se poderia crer companheira de Diorando, cidadão tão ilustre. E isento. O grande jornalista do país, Diorando era tão isento que lograra ser o único correpondente internacional que mantivera residência no Brasil. Os fatos e Diorando eram água e óleo, não se misturavam. Afinal, seu trabalho era contá-los, descrevê-los com maestria e neutralidade. Diorando olhos de águia. Mantinha-se longe, afastado dos acontecimentos. Era sua receita para o refinamento periodístico. Quando indagado, Diorando era magistral em seus rodeios e floreios de não dizer nada. O distintivo de sua isenção libertava-o da tarefa ordinária de opinar. Diorando não conversava, disparava veredictos. E aquilo que proclamava era tão original e puro que havia até igreja levando seu nome. Mas Diorando não se prestava a dar sermões, muito menos meter-se com política. No entanto, era conhecido em todos os meios, entre legisladores, artistas, arcebispos e funcionários públicos. Para o povo é que era um deus encarnado. Camarada imaculado, livre de todos os pecados da carne. A carne que se confunde na carne, a carne de todas as paixões, dos medos e hesitações. Era coisa linda de ver, Diorando caminhava pelo meio das ruas com o semblante sempre resoluto, como se faixas de segurança acompanhassem seus passos continuamente. O trânsito, a cidade, o mundo parava para vê-lo passar, o Diorando. Cidadão incólume, irrepreensível. Diorando rejeitara até mesmo o desapego. Era sua inclinação inata não apegar-se, de modo que lhe seria estranho desprover-se de algo que nunca tivera.

Ah, irrepetível Diorando. Quantos motivos para esquecê-lo.

Ah, célebre Diorando. Por só crerem em ti é que te desacredito.

A fome e o eufemismo

o acaso come palavras de outrem
há casas órfãs de letras

em ruas de terra batida
passa prosa poeira levanta
poesia se perde da vista

o estrago é a fome do acaso
o descaso pintado eufemismo

o asfalto só faz mais ligeiro
o assalto de um fim pelo meio

trilho sonoro (parte última)

(a cena final teria mogwai fear satan. sim, uma longa cena vai ao fim)

caminhar compenetrado
olhar fixo
desacompanhando pernas

compassos de tônus certeza
sorriso que vai se esboçando

apressa esquinas viradas
cruza ruas rajadas
sem carros, com raras pessoas
cidade se vai diversando

aurora fundida'o poente
passos suspensos de livres
vento sustenido de ardor
guitarras correntes sopradas

estradas bebidas ligeiro
amarelo se indo piscado
êxtase e gota de lágrima

grita sentido de tudo
explode sentido de nada
expande ao céu partitura
afogam-se os dedilhados

projeta-se um firmamento
créditos finais infinitos

quinta-feira, outubro 25, 2007

Sigo a cena
Sonho dela e abro os olhos

O assombro com que receberam os soldados só não foi maior porque alguém precisava botar as coisas em ordem

Um minuto e saio de foco
Aceno com um mundo de possibilidades
Avesso a tudo
Um avesso de propósito

Os gritos chegaram via autofalantes e deleitaram o conforto da sala com o espetáculo

Cego encena
perdido sem nem marca, sem nem deixa
Aturdido com o burburinho que acena
Troco em palavras

Ao mesmo tempo trocam o canal e trocam os motivos para permanecer por mais tempo o doce na língua
Ela encena novamente

E boa atriz ou mau entendedor
Pois que compro sem demora seu número

Estranho como as coisas funcionam
Mas eu prefiro assim.

quarta-feira, outubro 24, 2007

nasce

de nascer o sol
é que vive o dia
café da manhã
a luz vira em jarra

vaga pelo céu
corre pelo ar
anuncia estrela
hora de deitar

pinta de um lilás
doce de saudade
bocejo esticado
quero repetir

de cantar o galo
de dizer assim
a cor de cidade
não é cinza em mim

ave que assobia
hora de acordar
a seguir o vento
vem me despertar

sonho de janela
aberta que dormiu
dela eu vejo um filme
sonhou que existiu

O viaduto

E, no entanto, o irrepetível repetiu-se. A subida a pé pelo viaduto da João Pessoa, à margem do grande Parque Farroupilha, proporcionou-me sensação semelhante. Era e é Porto Alegre. Meu caminhar determinando o movimento da cena, sol determinando luz e sombra, aos efeitos dos prédios. Um morro ao fundo, mas ao lado... ao lado uma aquarela de verdes, dos mais diversos. Como é lindo ver brotar da terra árvores tão eternas e tão silenciosas. A vida caótica de uma cidade desacontece neste fim de tarde. Eu sigo em câmera, lentamente vago pela cena, o pescoço sempre à esquerda. Lá embaixo tem um lago, meio verde escuro, meio preto de sombra. Há pontos que são tartarugas e riscos de peixes graúdos. O quadro me foge à moldura, quando tudo é irreparável, onde é que eu reparo? É uma esquina mágica, linhas tomando três dimensões. O lindo e antigo prédio da universidade, crescido às sementes do parque, que o vento atravessa uma rua. O conhecimento sintetizado numa construção sólida, mas sofrida do tempo, esperando por mãos restauradoras. Um quadro raro, sem pontos que fugissem, em que só o meu trânsito era trânsitório, mas nada de fugaz ali reteria minha memória. As copas, as grandes copas de dois verdes. Nunca é tarde para ver uma tarde assim, pintada nas árvores.

terça-feira, outubro 23, 2007

Evaporar - Rodrigo Amarante [mestre]

Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei

E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar

Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar

O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar

Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar

Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!

A ponte

É uma ponte que se impõe sobre uma avenida larga de Santiago del Chile. Ou sobre um desses arroios de água escassa e meio suja, não lembro precisamente o que se passava embaixo dela. Voltávamos para o albergue com o suprimento recorrente naqueles dias: pães, alface, frios, refrigerante. Nas extremidades da ponte - que pode muito bem ser um viaduto mesmo, mas um lindo viaduto - sinais de anarquistas junto às escadas. Escadas que subíamos em duas voltas. Lá em cima, sobre a ponte, era sol. Um caminho de sol, de céu chileno sempre azul, da grande montanha ao fundo. Nunca vou esquecer daquela montanha ao fundo. Ela dizia: Santiago; esta é Santiago. Eu parava pra ouvir, era doce. Desde a base da fabulosa cordilheira, fazia um trajeto com a cabeça em direção ao céu. Ali encontrei o espírito da cidade. Pertencia a ela, que cochichava seu nome em meu ouvido. Um sopro de vento fresco dava uma sensação de liberdade. Pode parecer paradoxal, ela me pertencia, e eu era livre. Mas era assim. Aquela montanha não me cercava, o céu tampouco me suprimia. Diziam: tu pertences ao mundo, podes ser altíssima montanha, podes ser infinito céu, podes ser simplesmente o que caminha e sabe. - Prazer. Um compromisso bom: responsabilidade pode muito bem ser isso. Liberdade tem limites de firmamento, fronteiras feitas de montanhas respeitáveis. A responsabilidade por minha vida. Ganhei assim, de graça.