Um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena. Horácio escolheu a estrada secundária para encurtar seu trajeto e fugir do pedágio, e atingiu seu objetivo, mas ao custo da lentidão de camionetas velhas, buracos e alguma lama. Não tivesse chovido na noite anterior, a lama seria trocada por um bocado de poeira.
Depois de passar pelos ferro-velhos (que devem sobreviver vendendo sucata uns para os outros, tantos que são eles) o verde torna-se mais freqüente, e a agradável luz da manhã acaba por deixar a região bonita, coisa que não é regularmente. O trem branco cruza o seu caminho azul com considerável pressa.
A pista simples e sem acostamento restringe a velocidade da viagem à lentidão do carro a frente. Formam-se comboios encabeçados por grandes caminhões ou carros com dois dígitos de idade. A melhor opção passa a ser olhar ao redor e contentar-se com o que há para ser visto. Ao observar o céu a sua frente, Horácio elabora a frase "um trem de nuvens serve de pano de fundo para a cena" e pensa que é uma boa maneira de começar um texto, um conto, um romance. A imagem de um trem de nuvens também funcionaria em um poema, pondera. Precisa anotar aquilo, não pode deixar passar. Pega então o bloquinho no qual, com pouquíssima disciplina, anota o consumo de combustível de seu carro, no porta-luvas. A operação é delicada, já que precisa manter um olho no caminhão que está na sua frente e outro ao verona apressado colado na sua traseira. Seu motorista parece manter a esperança de que conseguirá, em breve, espaço suficiente para ultrapassar. Horácio, com o bloco na mão esquerda e caneta na direita, mede as distâncias e estuda os comportamentos de seus dois vizinhos de estrada. Passa a tarefa de conduzir o veículo a seu joelho e dá-se conta de que a simples tarefa de escrever uma frase já formulada ganha proporções maiores com o veículo em movimento. Prossegue lentamente, alternando atenções para o papel, para a estrada a sua frente, e para o carro na sua traseira.
Sua atenção tinha muitos destinos e, quando o sinal ficou amarelo, a camioneta à frente do caminhão acelerou e passou com o sinal já vermelho. O caminhão, que tinha hora para entregar a sua carga, também acelerou e foi na esteira da camioneta. Horácio, ao desviar sua atenção do bloco para o caminhão à sua frente, viu que este segui adiante e fez o mesmo. Everaldo, que estava com o seu horário queimado e não via a hora da maldita sinaleira esverdear, acelerou e acertou a lateral do carro de Horácio, que rodou antes de alcançar a pista oposta à de Everaldo onde Soninha não tinha pressa, mas já tinha arrancado seu carro, e acabou por acertar novamente o carro do já fraturado Horácio. Seu Argeu assistiu a tudo de seu verona prudentemente parado para o sinal vermelho.
terça-feira, setembro 25, 2007
terça-feira, setembro 11, 2007
Peter Pan
A seguinte resenha, escrita com tinta esferográfica verde, foi encontrada entre livros antigos. Especialistas estimam que tenha sido escrita por volta do ano de 1988:
"Peter Pam" é um livro que acho que todo mundo conhece. Este livro fala de um menino que procura sua sombra e agora se querem saber mais va na livraria e compre "Peter Pam".
"Peter Pam" é um livro que acho que todo mundo conhece. Este livro fala de um menino que procura sua sombra e agora se querem saber mais va na livraria e compre "Peter Pam".
segunda-feira, agosto 27, 2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
quarta-feira, agosto 15, 2007
Na fragmentação, perde valor o todo.
Ou, no todo fragmentado, a parte perde relevância. A parte é órfã de uma alma total.
Uma moeda de 10 centavos não VALE dez centavos de um real.
Como fazer para partilhar sem perder a dimensão total?
Haverá um mecanismo para dar conta da desvalorização proporcional à repartição?
Quando há quase um demérito em ser parte, a solução parece ser o todo.
Como fazer a VALORIZAÇÃO inversa da parte?
Ou, no todo fragmentado, a parte perde relevância. A parte é órfã de uma alma total.
Uma moeda de 10 centavos não VALE dez centavos de um real.
Como fazer para partilhar sem perder a dimensão total?
Haverá um mecanismo para dar conta da desvalorização proporcional à repartição?
Quando há quase um demérito em ser parte, a solução parece ser o todo.
Como fazer a VALORIZAÇÃO inversa da parte?
sexta-feira, agosto 10, 2007
Parado no ar
Contradança, concordando com o par que vem
Acordando em sossego
Vem servindo de novo
Vem zunindo, soando e silêncio
Suado de novo,
Soando e suados, caímos os dois
Acabados
Contratempos, tantos e quantos
Como que pedalando contra o vento
O quanto pudesse agüentar
Ainda em silêncio
Mais, mais
Mais e mais
Do mesmo que não canso de provar
E acabei lambuzado
Espera um pouco,
Deixa o vento passar
Vou ficar aqui parado
Em silêncio.
Acordando em sossego
Vem servindo de novo
Vem zunindo, soando e silêncio
Suado de novo,
Soando e suados, caímos os dois
Acabados
Contratempos, tantos e quantos
Como que pedalando contra o vento
O quanto pudesse agüentar
Ainda em silêncio
Mais, mais
Mais e mais
Do mesmo que não canso de provar
E acabei lambuzado
Espera um pouco,
Deixa o vento passar
Vou ficar aqui parado
Em silêncio.
quinta-feira, agosto 02, 2007
IV CANTO (o último e eterno canto do primeiro quadro)
agora só faltam as cores
e arrematar os detalhes
- tarefa não menos distinta
graça
a gente busca de graça
a nossa busca é de graça
dentro e fora do quadro
a gente ri junto
com dois pontos um plano de gráfico:
(eu rascunho sobre o livro de cálculo)
esboço uma curva ascendente
o traço se vai adiante
o trinco da porta cochicha - infinito
e arrematar os detalhes
- tarefa não menos distinta
graça
a gente busca de graça
a nossa busca é de graça
dentro e fora do quadro
a gente ri junto
com dois pontos um plano de gráfico:
(eu rascunho sobre o livro de cálculo)
esboço uma curva ascendente
o traço se vai adiante
o trinco da porta cochicha - infinito
III CANTO
um pé no chão
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
a vida chama
que ascende e queima
a vida derrama
um balde de tinta na gente
e a gente vela e desvela
e a gente tenta pô-la na tela
fazemos arte - a gente parte
e a vida cumprimenta
e outro suspenso
quem sabe dançando
a fogo lento
a vida chama
que ascende e queima
a vida derrama
um balde de tinta na gente
e a gente vela e desvela
e a gente tenta pô-la na tela
fazemos arte - a gente parte
e a vida cumprimenta
II CANTO
há luz debaixo da cama
há luz por trás do vermelho
há luz batendo na porta
há dias vind'ouros chegando
e aquelas estrelas que brilham
brilharão em outros céus
pois que há luz sobre as trevas
há luz antes dos sóis
há nós
que não desatam
há luz por trás do vermelho
há luz batendo na porta
há dias vind'ouros chegando
e aquelas estrelas que brilham
brilharão em outros céus
pois que há luz sobre as trevas
há luz antes dos sóis
há nós
que não desatam
Primeiro quarto (esboços do primeiro quadro)
[há algo belo, que transfere o grandioso pra quatro cantos de um quarto]
I CANTO
dispenso o compasso
escrevo estrelas no teto
- a noite vive
acorda a mão em vermelho
amanheço a janela à mão livre
um verde perto da porta
- e parte de um travesseiro
meia na ponta da cama
a cama no meio do quarto
o quarto nos quartos de um quadro
e o tempo guardado no fundo
I CANTO
dispenso o compasso
escrevo estrelas no teto
- a noite vive
acorda a mão em vermelho
amanheço a janela à mão livre
um verde perto da porta
- e parte de um travesseiro
meia na ponta da cama
a cama no meio do quarto
o quarto nos quartos de um quadro
e o tempo guardado no fundo
quarta-feira, julho 25, 2007
Quadro úmido
passo por ali pra me alimentar
do teu ar
sai por uma fresta
um vapor de banho teu
passo por ali pra me molhar
ficaram gotas pingando
- dá pra ver um xampu
misturo na cabeça
banho-me com espuma de ti
do teu ar
sai por uma fresta
um vapor de banho teu
passo por ali pra me molhar
ficaram gotas pingando
- dá pra ver um xampu
misturo na cabeça
banho-me com espuma de ti
Quanto mais se pensa, menos se escreve...
A beleza não é vencer, mas lutar até o fim. Ir até as últimas conseqüências.
quinta-feira, julho 19, 2007
Andaram juntos feito corpos, lado a lado, sem ser necessária uma única palavra, apenas o contato leve e roubado. Uma, bixo puta, indo porque sim, sem bem afeto, sem bem admiração, só uma coisa familiar, um tesão, um impulso que não tem descrição, mas que é a próxima instrução de um programa por seu corpo seguido. Ele, bixo nada. Animal sem vida que desistiu já faz um tempo, que não se importa e só espera. Bixo nada que encontrou uma coisa que havia perdido. Após perder suas vontades, se deixou levar, foi caindo, descendo e rolando, esperando que um barranco um pouco mais significativo quebrasse seu pescoço de uma vez e acabasse logo com isso. Agora, tinha uma obsessão.
Obsecou pelo gosto provado. Riu novamente, depois de tempos, se bem que de maneira furtiva, até mesmo sem jeito. Envergonhou porque acabou aprendendo que não ria, e achou que sua alegria é sinal de fraqueza. Ao mesmo tempo, ela levantou as calças, como que por acaso, quase que com indiferença. Não riu, da mesma maneira que não gozou. Ou gozou, mas não se importou. Do alto de um tesão mecânico, saiu a passo do beco. Parou debaixo do poste, abriu a bolsa e catou uma pastilha. Seguiu à esquerda e depois rua acima. Na porta, demorou-se com as chaves, abriu, fechou. Subiu três lances de escada, mais uma última porta. Uma vez em casa, despiu-se de alguma fantasia que ainda restava e deitou a cabeça tranqüilamente, conforme era de praxe.
sábado, junho 30, 2007
Nada muda
Nada serve, tudo muda.
Um esforço
após o outro
revela-se em vão.
Em um minuto
o quarto vira em hora,
a hora vira em sono
e o branco permanece
um alvo na tela.
Nem um bumbo reto,
marcial,
se vê capaz
de espantar
esse silêncio.
Um esforço
após o outro
revela-se em vão.
Em um minuto
o quarto vira em hora,
a hora vira em sono
e o branco permanece
um alvo na tela.
Nem um bumbo reto,
marcial,
se vê capaz
de espantar
esse silêncio.
quinta-feira, junho 28, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
Medusa às avessas
não dão sossego
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar
(gente passatempo
todo mundo quer girar)
a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar
o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante
(bom dia é um dia escapado, veloz)
bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena
perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria
soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite
e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada
(olhos de gente nunca chegam)
ao tempo
ansiam pelo depois
correm pra vê-lo correr
morrem por vê-lo passar
(gente passatempo
todo mundo quer girar)
a multidão apressada
respira por indícios
num repente, outro início
a gente cega
não deixa sossegar
o amanhã nem amanhece
e aquela gente esquece
marca-se o espaço
atravessado em ponteiros
bengalas em punho e adiante
(bom dia é um dia escapado, veloz)
bebe-se da hora alheia
em cronometrada arena
perde-se no descanso:
a lança fere um ponto
e hora escorre por vão de artéria
soluços frenéticos de um dia passageiro
que engole o relento da noite
e em raras madrugadas
quando ninguém está olhando
o sereno desce ligeiro e deita
umedece a vida, teimando ainda doce
a vida lenta
a vida não admirada
(olhos de gente nunca chegam)
segunda-feira, junho 18, 2007
terça-feira, junho 12, 2007
She's not a girl who misses much
Madalena terminou seu café da manhã e subiu para buscar sua mochila. No banheiro, observou-se demoradamente enquanto escovava seus dentes com uma impaciência típica de seus 16 anos. Sentiu-se cansada e resolveu ser diferente aquele dia.
Antes de continuar, é importante conhecer um pouco mais de Madalena:
Antes de continuar, é importante conhecer um pouco mais de Madalena:
No dia anterior, Madalena passara a tarde rodeada por seu séquito. No anterior também. E antes desse, idem. Era bonita, como muitas gurias aos 16. Mas, mais que isto, afinal todo mundo têm 16 uma vez na vida, era confiante. Morena de cabelos lisos, sabia sorrir para conquistar e sorrir para magoar. As colegas davam tudo para serem eleitas, e Madá era tirana. Algumas menos dotadas ganhavam seus momentos de preferência e aproveitavam enquanto podiam. As preferidas desfilavam como artistas. Enquanto se contentavam em ser belas coadjuvantes, Madá tratava-as como iguais. Bastava não tentarem se impor e tudo estava resolvido. Enfim, tinha o mundo a seus pés (ainda que, aos 16 anos de idade, o mundo se resuma, basicamente, pelo seu colégio e alguns poucos grupos destacados de outros colégios da cidade).
Mas Madalena era assim muito por ser linda e por ter a oportunidade. Era esperta e sabia lidar com pessoas. Como por instinto, reconhecia os elementos de um grupo e orquestrava tudo a seu bel prazer. Ao mesmo tempo, ela tinha essa coisa por dentro. De quando em vez, precisava de solidão. Queria ficar sozinha, deprimia-se com isso, mas não podia lutar contra. Fora por causa disto que Sandra caíra.
Sandra era uma espécie de número dois. Eram inseparáveis. Ditavam o que era e o que deixava de ser. Onde ir e o que era engraçado, inteligente ou bobagem. Mas Sandra fez pouco de Madá quando esta, num ataque de melancolia fora de hora, mandou todo mundo embora e quis, desesperadamente, ficar sozinha, às três da tarde! Sandra caiu em desgraça no conceito de Madalena, e, conseqüentemente, do grupo todo. Hoje, Sandra é, condenscendentemente, autorizada a participar das reuniões, das festas, do recreio, como uma figurante "querida".
Pois, esta manhã, Madalena sentiu-se, mais uma vez, cansada de tudo isto. Deixou seu boné da Adidas em cima da cama e colocou o Panamá de seu pai. Olhou-se mais uma vez no espelho, pegou sua mochila e foi para o colégio. Quando estava chegando, alguma coisa houve. Todo o séquito com seus bonés levemente tortos olhou e se sentiu "out". Ainda que todo mundo em volta estivesse com um boné, a partir daquele momento elas não tinham certeza de que era a coisa certa a fazer. Madá sentiu o desequilibrio que tinha criado e sentiu-se desconfortável em saber que uma decisão sua era capaz de criar uma pequena revolução. Só sentiu-se confortável quando seus olhos encontraram os olhos daquela guria de preto, que usava um all-star e estava sozinha com seu mp3. Não sabia bem por que, mas ela entendia.
segunda-feira, junho 11, 2007
Através
A vida não é a liberdade, mas o que se faz com ela.
O relógio vai empilhando números, funcionando taliqual uma esteira de fábrica. Entram segundos, saem horas, em questão de minutos. O tempo não deixa resíduos de si. Talvez porque nem exista o que restar. Não é apreensível - mente o relógio. O homem não penetra no tempo, doutro modo não haveria liberdade alguma. É certo que algumas restrições existem, mas não se dão no tempo; a qualidade da liberdade não se dá, então, pelo tempo, pois não há liberdade onde não possa haver impedimento.
Isto pensado idealmente. Pois não só os relógios estão por aí aos bilhares com seus tiquetaques incessantes, como o mundo gira em períodos demarcáveis, e a vida - humana - acontece em sessenta anos, mais ou menos. O tempo em si não foi inventado pelo homem, esteve aí a pré-história para não nos deixar mentir. Mas a liberdade permitiu inclusive que se compreendesse o tempo sob diversas perspectivas, e a isto se seguem valores e comportamentos vários. O homem racionalizou o tempo, deu-lhe um sentido em sua vida. Talvez por achá-lo razoavelmente incompreensível no absoluto, tratou de reparti-lo. Que faria alguém com a eternidade?
Tomando uma, talvez outra, de suas invenções: o dinheiro. Que faria um homem com uma nota de cem trilhões de dólares? Com quanta liberdade estamos dispostos a lidar? Quem está disposto a aceitá-la?
Nascemos com a memória, e não tivemos de ensiná-la a apreender. O que podemos falar de nossa vida, passa por sua apreensão. E por nossa linguagem. Mas fiquemos com a memória, por enquanto. Ela não distribui o que apreendeu da vida em tópicos, porque não atribui um mesmo valor a todas experiências. Quem sabe aquilo que fez incontáveis vezes seja o mais esquecido, quem sabe por isso mesmo. A quantidade não é primordial para a memória. Se ainda não podemos dizer que o que conta na vida não é quantificável, talvez possamos dizer que quem conta não está preocupado com isso. Tampouco este contador de histórias - ou esta contadora, já que aqui se fala da memória - tem a marcação do tempo na ponta da língua, ou toma-lhe como indissociável dos fatos. Não, isso não lhe parece tão importante. Datas precisas tanto fazem, horas se atropelam, minutos se resumem. O que fica na memória - a vida que não perece, ao menos enquanto sãos vivemos - atravessa os anos, atravessa os lugares, e se pensarmos profundamente, atravessam mesmo as pessoas, até alcançar um ponto fixo de sentimento, que nos acompanha não por outro motivo senão porque também somos aquele ponto.
Se soou óbvio dizer que o que fica é o que atravessa, ou seja, continua, é porque a linguagem tem por natureza a simplicidade, assim como a natureza tem esta por linguagem. Flocos de neve descem a encosta do morro pela gravidade. Unem-se e continuam descendo. Crescem porque vão encontrando mais flocos pelo caminho. Já deixaram de ser o que eram. Mas não deixaram de ser. E sempre terão sido. E assim sempre serão.
O relógio vai empilhando números, funcionando taliqual uma esteira de fábrica. Entram segundos, saem horas, em questão de minutos. O tempo não deixa resíduos de si. Talvez porque nem exista o que restar. Não é apreensível - mente o relógio. O homem não penetra no tempo, doutro modo não haveria liberdade alguma. É certo que algumas restrições existem, mas não se dão no tempo; a qualidade da liberdade não se dá, então, pelo tempo, pois não há liberdade onde não possa haver impedimento.
Isto pensado idealmente. Pois não só os relógios estão por aí aos bilhares com seus tiquetaques incessantes, como o mundo gira em períodos demarcáveis, e a vida - humana - acontece em sessenta anos, mais ou menos. O tempo em si não foi inventado pelo homem, esteve aí a pré-história para não nos deixar mentir. Mas a liberdade permitiu inclusive que se compreendesse o tempo sob diversas perspectivas, e a isto se seguem valores e comportamentos vários. O homem racionalizou o tempo, deu-lhe um sentido em sua vida. Talvez por achá-lo razoavelmente incompreensível no absoluto, tratou de reparti-lo. Que faria alguém com a eternidade?
Tomando uma, talvez outra, de suas invenções: o dinheiro. Que faria um homem com uma nota de cem trilhões de dólares? Com quanta liberdade estamos dispostos a lidar? Quem está disposto a aceitá-la?
Nascemos com a memória, e não tivemos de ensiná-la a apreender. O que podemos falar de nossa vida, passa por sua apreensão. E por nossa linguagem. Mas fiquemos com a memória, por enquanto. Ela não distribui o que apreendeu da vida em tópicos, porque não atribui um mesmo valor a todas experiências. Quem sabe aquilo que fez incontáveis vezes seja o mais esquecido, quem sabe por isso mesmo. A quantidade não é primordial para a memória. Se ainda não podemos dizer que o que conta na vida não é quantificável, talvez possamos dizer que quem conta não está preocupado com isso. Tampouco este contador de histórias - ou esta contadora, já que aqui se fala da memória - tem a marcação do tempo na ponta da língua, ou toma-lhe como indissociável dos fatos. Não, isso não lhe parece tão importante. Datas precisas tanto fazem, horas se atropelam, minutos se resumem. O que fica na memória - a vida que não perece, ao menos enquanto sãos vivemos - atravessa os anos, atravessa os lugares, e se pensarmos profundamente, atravessam mesmo as pessoas, até alcançar um ponto fixo de sentimento, que nos acompanha não por outro motivo senão porque também somos aquele ponto.
Se soou óbvio dizer que o que fica é o que atravessa, ou seja, continua, é porque a linguagem tem por natureza a simplicidade, assim como a natureza tem esta por linguagem. Flocos de neve descem a encosta do morro pela gravidade. Unem-se e continuam descendo. Crescem porque vão encontrando mais flocos pelo caminho. Já deixaram de ser o que eram. Mas não deixaram de ser. E sempre terão sido. E assim sempre serão.
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