segunda-feira, abril 09, 2007

Diluído

A existência é anterior à representação da existência, claro. Tal evidência dá pistas para uma verdade menos óbvia, que diz respeito à substancialidade das coisas: nenhum signo encerra um significado em sua totalidade. É sempre como uma fotografia que, por mais ampla, nunca capta o todo. De modos diversos, o mesmo ocorre com todas as formas de compreensão e de reprodução da realidade (como é o caso da linguagem) - se bem que a própria compreensão já possa ser entendida como uma reprodução, já que ela também se dá por meio de uma linguagem, talvez a que temos menos acesso, mas ainda assim uma linguagem, pois que o cérebro não faz senão representar. Ocorre que estamos acostumados a tomar conhecimento da existência representada, tendo em vista que, se nossos sentidos nos prestam essa possibilidade, nos restrigem a outra, que seria ter acesso à existência in natura. Parece mesmo que a aproximação a esta existência pura não se dá pela via dos sentidos, pois nunca se encontram certezas de que as verdades estão, de fato, acercando-se da Verdade, ou seja, isto nunca é sabido, é, no melhor dos casos, intuído, configurando-se, assim, mais como um sentimento. O modo racional de representação do infinito é convencionado, e não poderia ser de outra maneira: o infinito não cabe em saber, só pode ser intuído, por isso é taxado por símbolos quando referido, como acontece com a própria palavra infinito. Sozinha, a palavra diz nada (aliás, nada ao infinito), de maneira que só temos uma idéia do que ela pode representar através de sua associação com outras palavras.

[Por enquanto, este pensamento de segunda pára aqui. Já posso ler inconsistência na minha premissa ("Tal evidência dá pistas..."), mas posso ter acertado em alguma coisa (tendo, quem sabe, atirado para muitos lados). O fato é que a idéia de limite tendendo a zero, com que tomo contato agora em Cálculo I, foi que me (ins)pirou. Espero esclarecer alguns pontos que para mim são relevantes disso tudo, o mais breve. E ir adiante.]

segunda-feira, abril 02, 2007


Nunca outra vez

Maurício esticou o braço e abriu a porta do carona. Não foram trocadas palavras, e, a bem dizer, nem olhares se cruzaram. Bastou-lhe a mini-saia. À Anabela, bastaram as rodas imponentes da camionete de Maurício. Imperava o silêncio na noite, bem abaixo das estrelas. O automóvel fez um ruído raso e dobrou na outra esquina. Imóvel, misturado a alguns sacos de lixo no outro lado da rua, dois olhos sobressaltaram-se ao acompanhar a cena. A força derradeira não serviu nem pra levantar. Anabela tinha pernas de vender. Ele era o resto, era o rastro de borracha no asfalto. Ele ficava, Anabela ia. Não sabia aonde.

sábado, março 31, 2007

Quem sabe, amanhã

Mais do que isso, queria possuir um corpo como um animal. E lembrava dela assim mesmo, com vontade, como uma oportunidade para liberar sua mais estranha energia, que mandava nele de maneira incompreensível. Ela era três, uma a cada momento. Agora era fêmea, e tinha se escondido. Ele precisava achá-la, era a única que correspondia a suas investidas. Ela já esteve em instituições psiquiátricas e de vez em quando, nas vezes em que a fome aperta, recorre aos albergues. Esses lugares são difíceis para homens. Tem que estar sempre de olho aberto. Um invejoso, um ladrão, qualquer coisa. Por nada se dá o acontecido. Para mulher não. O pessoal se passa, mas Anabela não se importa, gosta e ganha mimos dos companheiros de noite, como se estivesse fazendo algum favor para eles.

Depois que a encontrava, e se conseguia resolver-se, ela virava um fardo. Ela mudava, e ele queria distância, que se escafedesse de uma vez. Ficava rude com a moça, coitada. Fazia pouco caso, xingava e mandava para longe. Às vezes ela ia, resmungando palavrões desconexos e alternando gritos que escandalizavam quem estivesse ao seu alcance. Cada um ia feder pro seu lado. Anabela desaparecia por dias e com o passar do tempo, quando as vontades voltavam, ele se arrependia. Na verdade, arrepender não é o termo exato. Não tinha noção do mal que tinha feito, não assimilava a culpa. Passado um bom par de dias, suas ações passadas se confundiam, e não discernia se ontem era o dia em que conseguira cachaça ou se fora sua prova de cálculo. Mas penava pela sua falta, de qualquer maneira.

Mas outras vezes Anabela não tomava o rumo. Agüentava as carraspanas e os maltratos no osso do peito, e permanecia por volta. Ela era um cachorrinho que, não sabe bem por que, mas deve obediência a seu dono. Mesmo sob fogo cerrado, permanece fiel, e prefere não se afastar. Nestas ocasiões, ele esquecia do sentimento de asco que o dominava, e, antes da vontade animal voltar a reinar, uma outra forma de relação toma lugar. Uma cumplicidade toma conta. Eles se entendem, admiram o céu ou o parque, aceitam e aprovam a companhia. Quase sem palavras, vivem por breves momentos, uma vida em comum.

quinta-feira, março 29, 2007

À luz do poder

Se aquele homem tinha seu caminho desenhado pelas árvores, não viemos nós todos também sendo mais direcionados do que diretores? Nos enquadramos em tantas fronteiras das quais não temos ciência, que soa quase utópico falar em verdadeira liberdade, quem dirá a generalizada.

Se, por um lado, a liberdade não é concedida por quaisquer tipos de ditaduras, por outro, ela tampouco parece estar dada, de maneira natural. Sendo pragmático, a liberdade parece não ter lugar nesse mundo, ainda que a pregação e a instituição do individualismo suponham o contrário. O poder não deixa sombras.

quarta-feira, março 28, 2007

A ditadura acaba onde começa a verdadeira liberdade do homem.

Nunca a manhã

Cruzou o grande parque com trajetos sonambulantes, as árvores desenhando seu caminho. Tinha nelas os únicos sinais de uma vida concreta, que desapareciam a cada curva.

Aquela manhã luzia entrecortada por algumas folhas caducas mais teimosas, e as sombras que projetavam não durariam outro amanhecer. O vazio explorava o espaço com seu facão aniquilador, abrindo tudo ao que o frio fazia nada, cada vez mais penetrante. O homem teimava em ficar de pé, sendo pedra fraca. Demorava-se na vez das árvores, como um cão, na ânsia de encontrar Anabela. O sol lhe concedia um sorriso inexpressivo, que nem chegava a ser amarelo. O mundo desfizera-se de som e, monocromático, era só um destempo que parecia divertir-se com a lenta decadência do homem. Era um passar que não passava, um presente duro, sem fim, tal qual uma fotografia triste que fedia como se fosse muito muito velha.

Mas, tão jovem quanto Anabela, sua morte havia começado nas frestas que seu orgulho fizera em seu viver. O derradeiro impulso, que o submetia ao jogo impiedoso da sobrevida, vinha não sabia donde, literalmente: não sabia. Era só ser, livre e decadente. Quisesse - pudesse querer - trocaria seu inútil livre arbítrio por um corpo de animal.

terça-feira, março 27, 2007

Alegre Manhã no Porto

Sorte e pontes, o cinza volta às ruas da cidade. Os trapos cobrem, mortos vivos, todos misturados, piolhos e pulgas, toda uma sociedade alimentando-se do asco, da umidade e de epitélios mortos. Abaixo deles, um corpo dá vida e energia a esta cultura que teima em enfrentar o frio que castiga já fazem dias, que chegou com vontade este ano e que não dá sinais de apatia. Os trapos, que ele chama de cobertor, não são suficientes para tornar a temperatura confortável. E mesmo que fossem, seu cheiro elimina qualquer possibilidade de aplicação da palavra conforto.
O desapego completo não veio da nobreza de espirito, veio antes da necessidade e orgulho. O costume anestesia. Já não importa atravancar a passagem, que desviem o olhar, que sua presença seja uma bolha de mau cheiro obstruindo a calçada. Foi-se o tempo que vivia da pena. Pedia, explicava, convencia a caridade com um olhar de fome, de desamparo. Agora espera o resto, as sobras de todos que não desistiram. Moedas não lhe são mais úteis, desde que não é mais permitida sua presença em um bar, um restaurante, uma venda. Antes de ser capaz de mostrar algum dinheiro, é convidado a se retirar, na melhor das hipóteses. Enxotado, com mais freqüência.

Apostou, há um bom tempo atrás, apostou alto. É o problema de mirar na cabeça, o prêmio é grande, mas não pode errar. Mirou e foi, mas não conseguiu. Quando olhou para trás, não tinha mais caminho de volta. Cabeça dura, não confessou o erro, não pediu penico. Cada passo à frente distancia mais a encruzilhada, agora resta esperar.

Loucura e sorte, sua história não poderia ser por ele contada. O tempo solitário, a febre, infecções e paranóias destruiram sua consciência. Duvido ser capaz de manter um diálogo inteligível. Mais certo soltar idéias sem nexo, flashes e ilusões, balbucios.

E assim acordou hoje, um pouco mais tarde do que o normal, porque o sol não veio fustigar seu rosto. Sorriu e sentiu o estômago. Precisava comer, sabia onde encontrar algum com o que enganar. A parte mais complicada é a madrugada. A vigília e o medo misturados com a febre que não deixa repousar. Não tinha nada que interessasse a alguém para ser tirado, mas ainda tinha seu corpo para doer. E sádicos existem. A surra que tomou certa vez não o deixa dormir, o mantém alerta. Repousava tranqüilo, ainda não conhecia as maldades escondidas na noite. Mal teve tempo de acordar e se proteger, chutaram-no sem piedade. Foram apenas alguns segundos, correram e ele ficou sangrando ali no chão. Nos dias seguintes a dor continuava a lembrar, e foi difícil dormir. Os outros dormem em bandos, melhor para se proteger. Mas não é um deles, nunca obteve permissão.

Com um mamão passado servindo de refeição, volta a seu mundo. Enrola-se em seu cobertor, seu reino, e lembra-se de Anabela, fazem dois dias que não aparece (não sabe disto com certeza, confunde-se freqüentemente). Quem sabe hoje tem a sorte de receber sua visita.

quarta-feira, março 21, 2007

Ao Pedro

Comprimidos não são resposta, mas há vezes que são solução.

segunda-feira, março 19, 2007

Arte


Teve um Pedro (versão comprimida para concurso)

O rodomoço desejou boa viagem. Verdade que o ônibus estava quase vazio: vindo do Rio, chegara em Porto Alegre com exatos 3 passageiros. Estes uniram-se a nós, 3 amigos, mochileiros de 1ª viagem, e rumamos ao Chile, país mais comprido do mundo. Não era menor a ansiedade: muito chão a percorrer entre a terra de Drummond e a pátria de Neruda. Mas haveria um Pedro no meio do caminho. Chamava-se Pedro o rodomoço. E passou a ser nosso guia.A Argentina nos deu as boas-vindas com infinitos girassóis, mas Pedro, chileno que era, não falaria de flores neste terreno. Chilenos têm rixa com argentinos, de guerras distantes. Sobraram piadas nesse trajeto. Só cessariam frente à imponência dos Andes – era mesmo de silenciar. Sentia-se a solidão dos primeiros exploradores. Na fronteira, paramos. Sem pensar, corremos à água que descia ao pé da montanha. Pedro impediu que a guarda chilena soltasse cachorros contra nós – era proibido. Desculpamo-nos com o fôlego que nos restara. Viria dos céus a resposta de Pedro, e, enquanto a neve caía, tivemos certeza de que o que vissem nossos olhos sobre o Chile, teria o olhar de Pedro, um eterno explorador. Poetizara Neruda, “o mundo era do ar que esperava”.

[Se não gostaste, vá em www.ci.com.br, em "Concurso Viajante CI", e vota neste texto, a fim de que eu ganhe de aniversário uma viagem de um mês pela Europa. Se gostaste, vota mais de uma vez. Os caras sempre conseguem deixar o processo burocrático, mas tu terás paciência, afinal, a Europa é logo ali, e a causa é nobre. Terás apenas que acessar teu imeio uma vez, o que é bem razoável visto a quantidade que tens feito isso diariamente. Muchas gracias, e conto contigo nesta saga. E é contigo mesmo, ainda que penses que, ah, certamente, ele deve estar falando com outra pessoa. ;P]

terça-feira, março 13, 2007

Obrigado

Fiquei muito ocupado e pensei,
tenho que dar prioridade às coisas sérias.

Pensamento seguinte:
quais são as coisas sérias?
As mais importantes?
as de gente grande?

Acho que minha divisão foi de acordo com a cobrança.
Minha,
de fora,
das expectativas,
não importa.

Sei de tudo isto,
e de que adianta?
Adianto sempre
Obrigações.

Piana

em branco e preto
piana a eternidade
sonora a mesma vida
na percussão de um dó
é sempre um sol
sem ida nem vinda

é de se amar
a tristeza do piano!
- órfã de nostalgia
ah, que lindo balbucia!
se os dedos malpousam

tudo é pleno, ao piano
ouçam,
é o amor sem plano nem reta
piana, letra não lida
porque a vida é analfabeta

pode bem versar lento
que vem avesso ao lamento, o piano,
ao arrepender
que só repete o fá que acertou
que não dá ré de mi que entortou
que redimir é letra lida
e a vida não tem sentido
senão cantada, senão sentida

chama,
é a vida
dá o tom, ama
- piana

quinta-feira, março 08, 2007

segredos

"Tudo que a mente do homem pode conceber, ela pode alcançar."
A frase, de W. Clement Stone, veio à minha cabeça, antes de conhecer sua procedência origianal, enquanto lia O discurso do método, de Descartes. Vim a conhecê-la no interessante documentário O Segredo.

terça-feira, março 06, 2007

Parque O'Higgins

rodavam crianças e jovens sobre patins
e as voltas que faziam
rodar também me fizeram

passos jogados pra trás:
retrocedo
outra vez te desconheço

então deslizas...
tua presença é nova
numa distante tarde chilena

Aí fudeu

Andou,
andou pensou
e parou.

Olhou para trás,
desconfiou
e andou.

Olhou de novo,
não parou
e medrou.

Sentiu
e não andou,
correu.

Correu sem olhar,
mas não deu,
no final das contas,
perdeu.

sexta-feira, março 02, 2007

A corrupção do sereno

e tendo a vez da palavra caído
de um dedo em riste direto no meu colo
disse:
escolham bem o seu vício

e todos calaram seus cochichos e abriram bem os olhos
a noite fez do silêncio meu eco, separou tanto quanto pôde minhas sílabas
bandeira nenhuma se ergüeu; entreolhares no palanque

mas a densidade deste segundo não expandiu seu comprimento
e no seguinte instante um bêbado discursou comicamente:
a multidão nem viu a poeira fina que pisava

e a noite desistiu daquela noite, o que é sempre muito muito triste

Uma verdade inconveniente

A Terra aquecerá e nós perderemos todos os cabelos.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Café frio

Incômodo
sentido neste azedo
Se não fosse já tão tarde
resetava

Muito incômodo, tudo asco
Tomo um gole de café
como dose de coragem (sem efeito)

Incomodo
Repetindo a mesma nota
Destilando meus boqueios


Nem meus modos
Sem razão
Só um rosto
Sem tesão

O cheiro do café seco na xícara
é resquício,
insuportável,
lembrando tua ausência.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

oceana

não
descartes
o matemático
método prático
catálogo de pensamentos
rascunhado e passado a limpo

logo existirás
é uma questão de ser
ou não
e quem sabe até questão
de tempo

recolhe as gotas tuas
separa
e oceana teus continentes

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Sono

Sentado, o morto abaixa o cano
sente nojo da bagunça
sente sono e chora

O barulho ecoou pelo fosso de luz e saiu telhado afora, espalhando-se por toda a cidade

Sem palavras, permanece calado
Cresce lenta, de mansinho
saudade dos que viveram

Um vento gelado irradia, desfazendo por um instante o calor da cidade deserta

Sentado, o morto ouve a porta,
o cansaço não permite atender
Ouve o pulso martelando compassado
lembrando como é triste o carnaval

Lá no lago, o sol descerá muito calmo horizonte adentro, tingindo as águas de vermelho

Num repente, sentiu muito e arrependeu
tentou, mas não pôde voltar atrás
Tivesse o tambor outra bala
de vergonha se matava, outra vez.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Tremeluzente

melodia e meia
lua nova lá
se vão com o tempo as horas

demoras passam despercebidas
notas desaparecidas no meio-tom

perder-se, ah, perder-se
diluir o corpo em musicais do porto
dá vontade até de sair jamais

parar na beira o passo
e ter de compasso um horizonte
e a cor de um violino cantar
um SOL

Fronteiras abertas

http://www.fronteirasdopensamento.com.br/

Rascunho

Solto só
Só à procura de ser
Certamente sentir
Sem ter mais por sofrer

Protegendo de amar
Amargura por vir
Virando outro cego
Segurando para não cair

Postergando desculpa
Padecendo, menti
Te encarando, opróbrio
Brio por ti, perdi

Acordei a tempo de dizer que te amo

Depois dum Carnaval

Em metade vos digo, assombro um bar na cidade baixa. Enquanto espio, solito, o vai e vem dos passantes, dou de quando em quando um gole miúdo na minha cerveja, regulando para que, ao mesmo tempo, dure tempo suficiente e não esquente. Suficiente porque não quero ir para casa, e porque não posso pedir mais uma. Restrição auto-imposta esta. Penso que não posso exagerar todas as noites, e todas as noites, salvo algum compromisso, cada vez mais raros estes compromissos, estou aqui, na mesma cadeira, olhando o movimento. Ficar em casa é suicídio, no sentido literal da palavra. Bater cabeça, como se diz. Quando muito bate, a cabeça racha.

Fregueses vão, alguns ficam. Outros chegam e passam. A minha mesa é sempre minha, ninguém toca. Sempre a mesma, canto de lá da porta, bom para observar. Chego cedo e vejo tudo, sei quem vem seguido, quem é novo, quem leva a namorada para casa e volta para caçar, quem liga pro namorado e diz que está com a amiga. A noite desenvolve-se à minha volta e eu funciono como um sol, observando a movimentação previsível. Dois pontos. Primeiro, sou um sol por estar no centro, não por brilhar. Muito pelo contrário, me torno opaco em meio àquela agitação. De início, ainda existo para um ou outro marinheiro de primeira viagem. Logo, como não me movo, não falo e muitos duvidem que escute, acabo um móvel ao qual não se dá pelota. Segundo, o centro fica por minha conta, fruto do meu exclusivo ponto de vista, completamente individualista, de que tudo o que existe tem a mim por ponto zero. Mais uma semelhança, assim como o astro, chega a hora em que me recolho.
Começo de semana eu sou dos últimos a deixar o recinto. Vai se aproximando o fim da semana, o povo resolve ficar mais além, eu tenho minha rotina. De qualquer maneira, termino minha garrafa e dou adeus. Isto é forma de dizer pois não me despeço de ninguém. Quando em vez tento alguma piada que o garçom retribui com um sorriso amarelo de quem precisa garantir sua clientela. Volto a pé, moro perto. O apartamento pequeno é de frente, há quem procure exatamente um destes. Eu não gosto. Escuto as pessoas transitando e me lembro que não tenho mais vida. Já chorei, confesso. Sábado é o dia mais foda. Deitar sozinho, dormir sozinho, saber que semana que vem será igual, e que na próxima e na seguinte e sucessivamente. Virei nisso. É o que uma mulher é capaz de fazer com alguém.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sagarana

A cacunda do bobo é o poleiro do esperto.
João Guimarães Rosa

Barulho de tintas

Faço-me ouvir
Em silêncio por nós dois
Imagem que soa no papel
Da tinta que escorre, um troféu

Grito baixinho
Um surdo, um ouvido
Olvidas de mim

Incorre de novo
Cala, receio
Repete teu erro

Grafito em mágoa
Um tinto de lágrima
Borrando na tela
Eu pinto um GRITO

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Céu de planetas

uma mão pôs-se sobre a tela
e tê-la pareceu escapar
eram riscos fugidios
palavras caladas

não sabia mais pintá-la
não sabia a perfeição
ajudou ter riscado horizonte
um lugar pras coisas que não sei
o lado de lá é feito de sóis
e eu só vejo sua luz nos planetas do meu céu
a rotação é lenta
e às vezes me acostumo
à consistência dos sonhos
ao meu dia escuro

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Tom Menor

Acorde da tristeza
Janela em canto e tudo pára
Tudo isso para, num segundo instante
Um primeiro olhar sorrir

Por encanto, ao que me consta
Enquanto passa o café
Posa em corpo, prá meu verso
Luz fria da manhã

Pose musa e pára tudo
Muda um pouco, quadro a quadro
Abro os olhos, me deparo
Um gatilho prum sorriso

Encanto em tom menor
Entrando janela adentro
Num domingo, muito cedo
Tudo muito, muito belo.

Fica, se não muito, um pouco mais
Só o tempo necessário
Preciso guardar

Acordo de um sonho
Mão tateia, procurando
Me conforta, te encontrar.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Adapto a falta de nexo, mas sobram motivos para notar um algo errado. Uma parede que muda de cor, pessoas mortas dançando tango, silêncio num bar, diversos motivos para questionar uma noção amplamente difundida. Sem meios termos, o que mais parece é que estou numa fábula pronta para desmoronar.

Aceito o desafio e sigo adiante, tomando cuidado para desviar de um padre caído no chão. O pobre enlameado contorce-se por uma dor muito forte. O motivo desconheço, se surra ou veneno, se um pecado recém confessado e impassível de perdão. O bafo que desprende e torna densa a caminhada parece até ser dotado de vida. Um bafo verde, úmido e morno, que parece indicar que aquele lugar não é indicado aos passeios. A jornada se desenrola por um caminho de terra, com barro e sons desencontrados. Estranha acústica deste lugar onde tudo soa mais de uma vez, às vezes de um modo surdo, noutras como numa lata de lixo. A jovem marmota, cujos óculos buscam disfarçar seus traços de pouca esperteza conversa com a velha coruja, de voz calma, grave e macia:

- Quem será que vem lá? Certamente não é muito esperto, pois veste meias sem sapatos. Nesta lama que anda por aí, não convém tal atitude.
- Correta sua observação inexperiente amiga. Mas não julgue tão prontamente, pois as meias podem proteger do contato direto com o chão. Sabe-se lá o que este estranho viajante sente ou pressente.
- Pode até ser que não seja possível julgar sua inteligência a primeira vista, mas sua aparência sim, e afirmo que a natureza não foi muito generosa para com ele.

Chego aos dois pequenos animais tagarelas, que me olham com olhares diversos. A marmota me mira por cima de seus óculos, com ar de superioridade. A coruja prefere um olhar de enfado. O mais estranho de todos sou eu, que não atribuo grande importância a dois animais que conversam. Pergunto que horas são:

- Depende para que - responde a coruja.
- Como assim? O horário independe de razão. Depende tão somente do posicionamento solar - respondo eu, sem muita certeza do que digo.
- Isso foi antes. Antes de trocarem o sol.

Dou-me conta de que no lugar do sol há um grande holofote vermelho, formato do logotipo da coca cola. Um patrocínio desfazendo toda uma noção da passagem de tempo. Paciência.

- Preciso seguir, mas não sei para onde. Sabem aonde chegarei por este caminho?
- Qual a diferença se este é o único caminho que existe? - responde a marmota - Se seguir é uma necessidade, a pergunta é praticamente inútil.
- Já que não vejo boa vontade nas respostas de vocês, sigo meu caminho. Não vejo razão para ficar perdendo tempo com essa conversa despropositada.

Sigo com a cabeça baixa, pensando no que acaba de acontecer. Não me importei com o tom claramente hostil da pequena marmota, mas a indiferença da coruja realmente me deixou incomodado. Neste momento, dou-me por conta que meu pé livrou um pouco da lama do caminho, e o que ele mostra é colorido. Limpo um pouco mais e o que é revelado é um padrão flower power. Penso que isto pode estar relacionado com a coruja e a marmota, mas nenhuma das duas me pareceu hippie ou coisa parecida. Esta coisa de flores, cores e paz e amor é coisa do passado. Passado parece ter o tempo, já que me dou por conta que minhas mãos estão enrugadas e um pouco pálidas. As dores no corpo me dão mais pistas, na falta de um espelho. Estou velho, sem dúvidas.

Adapto a falta de sexo, conseqüências da idade já avançada. Caminhar é preciso, mas me faltam ânimo e forças. Já não lembro mais por que caminho e nem ao menos sei se algum dia já lembrei. Mas logo avisto uma multidão. Vou ter com eles, saber o que acontece por aqui. A multidão se agrupa em círculo. No centro, dois homens muito magros e esfarrapados lutam com todas as suas forças. Informo-me sobre o acontecimento:

- Oferecemos um prato de comida aos dois pobres coitados. Mas os dois têm que brigar por ele. O barbudo é bom de soco - diz um rapaz, sem tirar os olhos do espetáculo.
- Eles não poderiam dividir? - Pergunto.
- Mas qual seria a graça então? Idéia estúpida esta sua.

A cena é deplorável. Os pobres diabos estão desesperados e tiram forças que nem supunham ainda ter. O de barba castiga o descamisado, mas este consegue agarrar uma pedra e golpear a cabeça do primeiro. O povo urra com o sangue. O barbudo não se dá por derrotado e consegue voltar a socar o pobre sem camisa. Espanca-o até seu corpo parar de mover-se. Recebe seu prêmio com a mesma gana que utilizou contra seu adversário, agachando-se sobre o prato e utilizando as mãos com destreza para devorar seu alimento. A multidão extasiada afastasse, deixando o corpo sem vida a mostra. O rosto está inchado pelas pancadas, mas inconfundível. É o meu alguns anos atrás.
Calma lá, que de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Ainda nas férias, objetivo ler alguns mais prometidos que visita de cumpadre. Depois, iniciar nas leituras econômicas - nada a ver com o tamanho, mas sempre entremeando alguma filosofia, pra não me perder. Tem o Mãos de Cavalo do Daniel Galera pra continuar, A Ocasião do Saer pra acabar e mais uma porção desses que deixei pela metade. Não quero mais deixar pela metade, salvo os que não me agradarem - persistirei. O Grande Sertão do Rosa me implora a leitura há tempos, não posso mais negar. Tenho que ser rápido, a matemática se aproxima.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Primeiro

Este blog completou, neste mês, um ano de existência. Pela liberdade com que foi se construindo, quase que diariamente, fez-se tal qual um mosaico, de verso e avessos. Possivelmente o grande lema que me tem acompanhado, como um pano de fundo para os posts, é ditado por aquela única certeza de Sócrates. Pois, só não sabendo eu posso buscar alguma verdade - ou mesmo inventá-la. É assim que tenho, falo de minha parte, erguido esse blog, sobre os sólidos pilares da dúvida, que, antes de constuir, desconstrói - e conhece. Ou, pelo menos, tenta. Dos modos diversos com que se podem buscar as respostas, emerge este caleidoscópio, girando junto com o mundo, talvez em sentido contrário - mas junto - fruto direto das luzes que deitam sobre si. Cada fragmento deste blog não sou eu ou um pedaço de mim, mas a minha vontade de ser sendo outra vez aurora, mas nunca a mesma. Certamente sobram restos, e pedaços inteiros de inutilidades. Por isso é saudável dividir o espaço com um amigo e, numa dessas, ler comentários de um passante. Minha vontade não é minha propriedade, e a verdade é que minha palavra morre e nasce todo o dia, como a flor que só desabrocha na presença de um certo calor de vida - nunca no vácuo, ausência de aspiração. Caminho segundo as idéias que me são. E se elas modificam-se, troco a direção, o sentido - ou viro do avesso.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Com licença, vomitarei.

E, depois de anos, novamente. Sempre novamente, é tudo novo, e ao mesmo tempo velho. Que conceitos ainda valem? Parece sempre haver uma contrapartida anuladora. A gente segue como que participando de uma equação cujos termos não fogem muito de um desvio padrão, e avessos. De maneira que quase nada é certo, mas também quase nada é errado, e vide o diverso. É impressionante, tudo nos foge, como nada nos pertencesse. Ou, bem, que é pertencer? Tudo que não nos deixa transparente? As palavras, por exemplo. É como se não as dissesse - elas que me dizem, e sem pedir licença. Dizem supostamente subordinadas, mas quão independentes! Não tente entender frases feitas de verbos fugitivos! Ah, que perigo. A natureza humana vive sobre este e tais perigos. Ou estou dizendo bobagens. O que não livra ninguém da responsabilidade, talvez a única que nos caiba, de continuar sempre procurando algum sentido. Mesmo a loucura procura algum sentido - é como a ordem dentro do caos. E assim corremos ao infinito, coisa louca. E se não fechar o círculo? Terá valido a pena?

Veja como eu digo, mas só por um instante: toda força dispendida é a medida certa para aquilo que ela causa, mas também é o preço do que deixou de causar. Aparentemente temos aí um dilema eterno. Mas que eternidade é essa que se aplaca com uma decisão - por vezes uma inconsciente decisão? A vida de um homem não cabe na sua memória? Possivelmente nasci quando lembrei pela primeira vez, e isto não tenho idéia de quando aconteceu - me escapa. Voltamos a toda sorte de coisas que nos são escapáveis, das mais corriqueiras às grandiosas. A morte, entre as grandiosas, vez por outra encara e o duro de mirá-la é percebê-la inesquecível. E falo vez por outra para menosprezá-la. O menosprezo, note, é não mais que uma fuga, e o problema da fuga é ter os olhos virados para frente, para o oásis da salvação, que é sempre suposta. Isto porque parece haver alguma liberdade sem limites vislumbráveis a permitir devaneios, inchamento de egos e proclamação de todo tipo de verdades, geralmente para vencer batalhas contra o medo. Algum medo. Talvez desse vazio, filho da anulação. será da solidão?

Sábado

Baixa a persiana e deita encolhido, como se estivesse com frio, e espera passar. Não passa. Mudança de planos. Veste uma camiseta já tirada e calça-se. As chaves. Volta ao quarto, revira a escrivaninha. Lembra-se do bolso da mochila, não precisou delas da última vez que entrou. Da porta recém aberta, passa o ar frio, encerrado do corredor que carece de ligação com a rua, ar de caverna. Do quente para o frio para o quente. Já fora, o mormaço de verão castiga, absorvendo o ânimo já escasso da tarde de janeiro. Árvores às vezes ajudam, ver verde acalma.

Num sonho estranho, como é a maioria, viu um professor, com o qual teve pouco contato, vestido de palhaço. Não é engraçado, é antes um palhaço triste. Palhaços são tristes, tristes ou malignos, não importa. Era só figurante. Importaram mais as escadarias intermináveis, que subiam e desciam, não lineares. Nunca se sabia ao certo onde tal caminho iria dar. E na pequena praça, debaixo de chuva, todo o tipo de tipos ameaçadores. A fotografia era escura, atmosfera abafada. Um quê de filme noir, mas em um clima de distopia. Tudo às avessas, pessoas estranhas, nenhum olhar cúmplice, a falta de uma referência, do porquê de tudo estar daquela maneira.

Nem cogita o ônibus e segue a pé. As ruas vazias denunciam o fim-de-semana e aumentam ainda mais a angústia. Homens num bar, uma dupla com uma cerveja, outro de pé no balcão bebericando qualquer coisa misturada com fanta, todos matando tempo. Pena ou inveja? Talvez ambos. Pela Redenção, aproveita a volta das sombras mas não gosta de ver pessoas felizes. Enfim, só corta caminho por entre bicicletas e chimarreiros. Pela André da Rocha, sobe a Marechal. Olha para os lados e entra na porta escura. O mesmo ar cavernoso, como se os corredores escuros fossem ligados por alguma galeria secreta e comum. Sobe os quatro lances de escada num só fôlego e para para respirar enquanto olha para a porta descascada no fundo do corredor. Bate na campainha, o olho mágico escurece, a porta se abre e Isadora convida para entrar.

terça-feira, janeiro 16, 2007

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Proust e o Gênio

... os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado, que têm a conversação mais brilhante, a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder, deixando subitamente de viver para si mesmos, de tornar a sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se reflete, por mais medíocre que aliás pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido.
Proust, Marcel. À Sombra das Raparigas em Flor. Em Busca do Tempo Perdido, 2. São Paulo: Globo, 15ª ed, 2005, página 17.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Canto do quarto

Música que canto por sentir
Sinto na pele o medo de cantar
Somente aceito, não minto
Por medo, decidi continuar

Canto abrigo, silêncio
Fecha mais ainda,
Fecha mais e mais
Fecha sobre si mesmo

Eis que flecha minha vida
Seta quebrando teu bloco de gelo
Tu congelada, encolhida
Desperta, posição fetal

Fatalmente desprezo
Qualquer felicidade que venha importunar
Foto, quadro em branco e preto
Minha melancolia fingida.

sábado, janeiro 06, 2007

OU

Estudando biologia, todos os problemas são microscópicos.

Estudando biologia

Todos os problemas são microscópicos.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Lapso

Aos 29 dias do dezembro de 2006, Bastos sorriu. Após censurar uma guriazinha que brincava na praça pela bola que o atingira, a menina correu e voltou trazendo-lhe uma flor, uma margarida, flor comum nos jardins urbanos. Foi a primeira vez que Bastos sorriu desde seus treze anos, era uma pessoa amarga. Nunca voltou a sorrir.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

A árvore de natal

caiu uma árvore de natal
é estranho
esas geralmente não caem
mas caiu
e junto uma estrela
a floresta pegou fogo
é simples assim
deveriam cuidar
com mais cuidado
árvores de natal
não dá nem lenha
restou intacta do incêndio
caída
como para simbolizar alguma coisa
árvores de natal gostam de simbolizar

Modorra

Sonho cansado
Sono preguiçoso,
Paquiderme

Calor de verão
Sol castigando
Pausa no tempo

Acordei amolecido
O ar parado cansou
Cantou perto o mosquito
Longe a vontade passou

A culpa volta moendo
"Indolência!", Maquina a cabeça
Estico um pouco o braço
Continuas aqui.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Apenas

verso leve
como voar
não diz porque não pousa
só passa
sussurra e passa

verso leve
beija a face adormecida
não ouve porque repousa
mas sonha
sonha e atravessa

verso leve
travesseiro de penas
flutuam nuvens sobre a cidade
que o vento forma e deforma
segundo sua velocidade

verso leve veloz
deixa-se na reticência
como se o infinito fosse
livre verso leve

sob o fio

a lâmina afiada aponta
a ponta brilha
cega meu olho
me sossega

finca a carne
e molha o chão
vertigem dosada
a queda dos pingos
a sincronia de uma paixão desaforada

arde a vida em chama
ávida clama e dança
são dois dedos de oxigênio
gênio!
cai o corpo carbonizado

a faca chora
tirou-me o seco
lágrimas quentes
sinto muito
como nunca senti

Verdes Raros

Sonhos sensatos e raros mergulhos
Um gozo de tempos em tempos de paz
Jogos de almas, palavras trocadas
Cadeia de eventos em ventos do sul.

Bato de frente com verdes mareados
Batem na fronte os verdes mareados

Contam histórias, afogam silêncios
No verde sem fim, fui aprisionado
Conta comigo de novo começo
Não escondo mais meu sorriso.

Bato de frente
Batem na fronte

terça-feira, dezembro 19, 2006

Previously on Diverso e Avesso

Toda fantasia começa com um menino no centro da cena.

Que não conhece o mundo a sua volta, então inventa.

Subitamente, a fantasia acaba. Sons de teclados, fragmentos de diálogos das salas vizinhas, o ventilador de um computador, o silêncio que não tem origem, tudo se mistura freando o passar do tempo. Inquieto, mudança brusca de ambiente, o conforto do mesmo cede lugar à mudança. Hábito ou vício? Tudo isso por uma economia burra. Um canal dos meus fones de ouvido estraga, e toda a realidade reaparece, real.

Ah, os acordes da realidade! Emudecem uns ao outros - o turbulento silêncio que, proclamando a ditadura da liberdade, torna-nos surdos à verdade.A cena agora é a de um comício, que dará origem a uma passeata. O recado final, dado por um dos homens do palanque, não poderia ser outro. Ouvem todos o que querem ouvir, a liberdade aos gritos, e saem apressados a correr o mundo - a catequizar os leigos. Um dos homens corre à sua vila e proclama - "estamos todos livres!", e o povo passa rapidamente de desconfiado para igualmente extasiado - "livres!". Que bênção! O grande dia! Visitam-se as portas de todas as casas. A família que estava reunida em volta da tv até esquece da novela por um instante. Pareciam eles mesmos estarem dentro de uma, coisa estranha, até então sua memória dava conta de uma liberdade comunicada à margem de um longínquo rio, ao sol de um longínquo tempo, por um homem em seu cavalo empunhando sua espada, como mostrava uma figura num livro de história do colégio. O caçula abre a boca e profere sua primeira palavra em língua portuguesa, com uma voz fresca porque nova, doce porque ingênua - "liberdade", e arranca a cabeça da boneca da irmãzinha.

Caminham todos felizes pela boa nova, a euforia leva-os para frente. Alguns gargalham pela simples visão da alegria de seus pares. Nada pode contê-los a partir de agora. Até que um rapaz muito tímido, sempre contemplativo, sempre chamado de abobalhado na surdina pergunta com a voz tão insignificante quanto a sua presença: e para onde vamos agora? Como assim? Somos livres, não precisamos dar satisfações! Todos condenam o pobre, mas não gargalham mais, nem ao menos continuam seu caminho. Já não sabem mais livres de que, ninguém é capaz de responder o que exatamente os prendia. Livraram-se da ilusão, precisavam agora livrar-se da realidade. E, no meio da multidão desorientada, uma boneca sem cabeça é pisoteada sem nem ao menos ser notada.

Desliga a tv com a imagem, estranhamente dolorosa, da boneca pisoteada fixa em suas retinas, e permanece imóvel. Lembranças de uma revolução. A tão falada revolução que não viveu e sobre a qual seus pais parecem ter feito um pacto de silêncio. Talvez por isso não estivessem agora naquela sala. Uma revolução inventada, a vergonha de uma geração.Ele nunca tivera bonecas, nem mesmo irmãs que as tivessem, e, se fosse bem sincero à sua memória, notaria uma escassa infância que ainda mal desfrutou. Carrinhos e bolas lhe escapavam. Talvez por isso a boneca decepada lhe atingira o peito como um assombro que vem e rouba o ar e suspende o corpo - foi por uma mistura de aflição e fascínio, num reflexo, que apertou o off.Na tv ainda se viam desenhados, na parte inferior direita, os contornos de um corpo genérico, mas sem uma generalidade básica, ausência esta que lhe dava calafrios. Sentiu-se inseguro e desamparado. E ainda mais devido à sua imobilidade irreversível. Uma eternidade se passou até que alguém entrou na sala.

Muito bem crianças, hora do passeio no pátio. Aproveitem que o sol está lindo.
Ver a televisão era um momento bastante esperado por todos seus colegas e por ele também. Mas naquele dia a experiência tinha sido completamente diferente. Aquela imagem era diversa de tudo que já tinha visto. Imagens da glória da libertação eram comuns, não era aquilo que despertava sentimentos contraditórios em seu peito. Era a boneca que apareceu no filme, sem ser notada por mais ninguém. Poucos segundos, num canto da tela, e sem cabeça. Já tinha brincado com uma daquelas uma vez na sala de jogos. Já tinha estado lá sete vezes, e lembrava de cor de cada uma delas. Na última, tinha sido um dos melhores da turma naquele ano. Orgulho! Pôde brincar com um carrinho sem fio! A imagem não lhe saia da cabeça, podia sentir até agora o poder de dirigir aquele carro que se movia como num passe de mágica, pelo mero apertar de botões. Mas aquilo não fazia sentido, não havia brinquedos antes da libertação. As crianças trabalhavam naquele tempo por todo o tempo. Como haveria uma boneca na rua, ignorada e destroçada daquela maneira? Algo estava errado. E aquilo embrulhava o estômago.

À noite, a tensão já tinha ido embora junto aos últimos raios do entardecer. Um vento suave mas gelado como que o anestesiou por completo, e, agora, um único sentimento brotava do fundo de sua alma. Na verdade, melhor seria dizer que não se percebiam as raízes daquela sensação que mais parecia um gigantesco nada, tão profundo e infinito como o negro céu sobre sua cabeça, tão trespassante como aquele minuano. Sua dor desta vez não era sentida, era, antes, impossível, da mesma maneira que sua própria existência lhe parecia infactível. Teria pensado, se naquele momento pudesse pensar, em todas as perguntas que ao mundo pudesse fazer. Divorciado de seus sentidos, quem sabe tenha desejado apenas que aquela noite nunca acabasse, e a reticência compulsória da sua natureza reinasse para todo o sempre.

Silêncio. Silêncio completo. Não dá prá ter silêncio completo. Sempre fica uma vozinha. Não vou pensar em nada ... tão escuro ... dia de TV ... cheiro... ? ... fumaça? ... queria ser adulto prá ficar acordado... droga! Não consigo ficar sem pensar. Sempre fica alguma coisa. Será que alguém consegue? O Rafael acha que pode tudo, abobado. Aposto que nem ele consegue. Tomara que amanhã tenha suco no café... suco no café? A gente diz café, mas não é sempre café... coisa louca... estudar prá ser importante. Queria saber jogar, correr, sei lá. Aí podia ser importante sem estudar... pena que não pode ligar a luz ... bomba ... e a professora? Ela é muito mais esperta do que o Rafael, me ensinou tudo que eu sei, vai que ela sabe não pensar também? Aí pode ouvir o silêncio, mas deve dar medo, ficar sozinho, sem nem a tua cabeça, mas não pode dar medo, senão não é silêncio, aí já pensou, então como é? ... fez frio mas tava bom brincar, correr esquenta, mas eu canso, droga, coisa sem graça, aí ninguém me escolhe pro time, mas eu sou bom em história, ninguém vai melhor que eu, mas ninguém se importa com aula, mas a professora me elogiou! ... hoje teve TV depois da oficina ... aquela boneca ... quem não ia ver? Nem se importaram, e ela tava sem cabeça ... uma vez vi matarem uma galinha ... festa ... quebraram o pescoço e depois cortaram a cabeça ... assaram ... ... escuro ... amanhã tem... que morno... ... galinha ... ... ... boneca ... ... morno ... ... ...

Está ficando muito tarde - pensou, quando deu-se por si. Caminhou de volta à casa. No trajeto, deteve-se, como de costume, um breve tempo na pracinha longe dois quarteirões de sua casa.O orvalho escorria silencioso pela gangorra. O balanço movia-se levemente, mas não a ponto de se fazer ouvir. Chegou ao centro da pracinha e tomou assento no gira-gira. Depois, ainda que este estivesse úmido, deitou-se, com o corpo pequeno que facilmente se adaptou à forma circular do brinquedo. Com a ponta do pé esquerdo fez força para conseguir embalo, e começou a girar com velocidade cada vez maior, até não precisar mais dar impulso. Sua visão era a de um céu em espiral, as estrelas fundindo-se e se separando como se fossem cometas cruzando-se. O negro profundo do espaço ganhava ares de mistério, como o interior impenetrável de uma caverna. Agarrou-se com mais firmeza ao metal, tinha a sensação de que poderia perder-se pra sempre caso voasse dali e fosse engolido pela escuridão. Fechou os olhos, dentro de si ainda era quente.O gira-gira foi perdendo velocidade, parou. Abriu os olhos, o céu sobre si ainda girava, confuso. Com esforço levantou-se. Andou alguns passos até sentir novamente o frio da noite, sua única companhia ali. Dirigiu-se à gangorra. Abaixou a ponta que estava no alto - estava mais seca - e se sentou, primeiro mantendo-a equilibrada através das pernas, depois, baixando aos poucos, até fazer chegar ao chão. Pôs-se a mirar a ponta oposta, agora em situação diversa, no ponto alto. Por um momento, quis que alguém estivesse ali com ele - nem que fosse o Rafael -, só para sentir-se mais longe do chão, no ar, como a estrela que brilhava em linha reta com a ponta oposta. Um peso para a leveza. Sempre sonhara em voar...A umidade veio concentrar-se em sua direção. Pensou na força da gravidade, tão constante e silenciosa. A professora havia explicado com uma maçã. A mesma maçã sobre a qual falara a tia da catequese, pra falar de pecado, mas isto ele não havia entendido bem. A gravidade sim. Levantou-se. Já estava se molhando demais.

O pecado é bem mais confuso. Porque o pecado é mau. Mas, quando é pecado, é porque tá bom. Se é ruim, se eu não gosto, se machuca, não é pecado. Ficar dormindo até mais tarde quando tem serração é pecado. Contar prá todo mundo que eu acertei tudo no ditado é pecado. Pecado mesmo é a Rita, eu não sei bem porque, mas sinto.Coruja curiosa, parece deus espiando prá me ver pecando, olhos arregalados grudados em mim.Coruja de sobretudo, esperando eu pensar maldade para me prender em suas garras.Calças geladas. Molhadas. Não posso me trocar... fazer barulho nem pensar. Se se dão conta que me escapuli... melhor frio do que surra. Não sei. Surra passa logo, frio rasga.Rasgando carne, trincando ossos, frestas tão pequenas espantam um sono que o cansaço convidou com tantos folguedos. Silvando baixo, intermitente, parecia estar por todos os lados. Sobretudo, os olhos crescem no escuro, fixos, inquirindo, lendo tudo, até o que fica lá no fundo. A gangorra tão conhecida toma proporções assustadoras quando sobe, o equilíbrio acaba, e o abismo não parece ter fundo. Queda sem fim, nem fim no tempo, nem fim no espaço. Concomitantemente, tudo no mesmo ponto, no mesmo instante. Silêncio igual teria duvidado pouco tempo atrás, tudo junto muito longe.Escureceu.

A mãe achou que tivesse mijado nas calças, o que não deixou de mencionar à mesa do café-da-manhã. Engoliu a vergonha com pão e leite, mais dificilmente porque era simulada. A irmã menor lançava-lhe um olhar incômodo. Lembrou-se da coruja - já não sabia se tinha sonhado com ela ou se a vira de fato na noite anterior. O olhar silencioso e perturbador que inquiria a solução de seus enigmas. Enigmas que ele mesmo não saberia resolver.O pai fechou o jornal, levantou-se. Era o sinal, todos para o carro.Alguma notícia importante, pai?O pai manteve-se quieto e muito sério.Sim, havia uma. Mas o pai de Israel não havia gostado nem um pouco dela.

Não era exatamente uma notícia, era antes um aviso disfarçado na seção de variedades. Mas não havia dúvidas de que era ele.
Não havia mais volta. Tinha começado.

Com sorte, talvez ninguém o reconhecesse, ou, pelo menos, não alguém que fizesse caso com o contexto da foto. Mas era, definitivamente, um aviso, um último recado que pedia com urgência uma atitude. Mesmo a legenda estava cheia da perspicaz ironia de Flávia, dizendo tudo, quase sem dizer. Mas como, diabos, ela conseguira aquela foto? Olhou o retrovisor, sentindo-se vigiado e, depois, desprotegido, apesar de que, aparentemente, a rua estivesse deserta. Israel não deixou de perceber a aflição calada do pai. De um certo modo, isso lhe acalmou um pouco. Afinal, não eram simples bobagens de criança aqueles sentimentos que lhe tomavam. Seu pai parecia ter mil segredos dentro de si, quem sabe colecionados ao longo da vida toda. Que ele, Israel, faria com os seus? O céu, as estrelas, a lua, todos confidentes que lhe entendiam como se parte dele fossem. Restava-lhe ainda uma vontade de que, não só que o ouvissem, respondessem às suas indagações ou ao menos compartilhassem seus mistérios de forma menos silenciosa.A irmãzinha puxou seu cabelo, já estava virando costume. Antes que Israel revidasse de alguma forma, porque criança nunca deixa barato, a mãe interveio, falando firme com a caçula. A pequena Samira queria atenção, e a cabeça de Israel era a única ao seu alcance. Talvez mais alguns poucos anos e já pudessem conversar sobre isto de caminhar com as próprias pernas.

Sua primeira providência era tirar todos dali. Não queria sua família envolvida, eles não precisavam saber de nada... seria melhor para todo mundo. Ela não tinha o direito. Diabos, tinha sim, e ele esperava por aquele dia, sabia que chegaria.Apesar da raiva e do medo que tomavam conta, a sutileza com que foi feito lhe dava um conforto estranho. Uma lembrança boa de Flávia. Todo o tempo que passaram juntos, não foi só sexo, e também não foi uma simples amizade, um simples namoro. Tinham um duelo permanente, estavam sempre desafiando um ao outro, sem nunca deixar isto claro. Eram desafios intelectuais ou morais cuja principal característica era exatamente que cada um se esmerava para que a afronta não fosse claramente percebida. Era um jogo de dissimulações, mas era antes uma disputa de egos. Quem tinha o senso de humor mais requintado, tão requintado que ninguém mais poderia perceber que ali havia humor. Admirava Flávia e sabia que era recíproco.Precisava deixá-los em lugar seguro, iriam atrás dele com certeza, o que significava separação. Da esposa não tinha grandes problemas. Gostava dela, era uma boa pessoa e tinha consciência de que ela o amava. Mas separar-se dos pequenos seria um martírio. Notava em Israel as mesmas inquietações que sentia quando era um guri. Pensativo, mas ao mesmo tempo dissimulado, ele não fazia perguntas. Não externava perguntas, bem entendido. Aquele olhar vazio não enganava. Sozinho, era bem capaz de acabar como o pai.Ao mesmo tempo, Israel sentia os olhos da coruja cada vez mais perto. A testa do pai estava suada, e ele preferiu ficar quieto. O pai não respondeu para onde iam. Não perguntou duas vezes, tinha aprendido que era melhor fingir que estava tudo bem. Ninguém gostava de fuxiqueiros. Ele não, pelo menos.Estava enferrujado, não estava mais acostumado a estas fugas. A última tinha sido sua grande peça em Flávia. Claro que tinha todo o contexto da libertação, as cartas e tudo mais. Mas sabia que ela não deixaria barato, pregaria uma muito maior.O primeiro carro cortou a frente deles. O segundo chegou logo em seguida, ninguém viu de onde surgiu. Saíram três homens com uniformes dos libertadores de cada um deles...

Israel acordou e não reconheceu o quarto. Não era um quarto da zona habitacional. Nem era como os da escola, que tinham beliches e grandes janelas. Este tinha cortinas, suas paredes eram pintadas, era bem bonito e grande. Sua cama era a única ali. Ainda assim, era bem maior que o quarto de sua casa, onde dormiam ele e sua irmã. Por falar nela, não estava ali. Nem ela e nem seus pais.

Depois que os libertadores os fizeram descer do carro, a irmã começou a chorar. Um deles, que parecia mais novo do que os outros, mas que era, definitivamente, o chefe, avisou calmamente minha mãe que a criança deveria calar-se, caso contrário, eles o providenciariam. O pai só precisou olhar Samira nos olhos e ela compreendeu e ficou em silêncio. Não trocaram mais nenhuma palavra durante todo o trajeto. Foram conduzidos a algum lugar nos fundos de um furgão, rodaram por horas. Durante todo este tempo, Israel teve medo. Ainda sim, não pode deixar de ficar pensando no primeiro carro que os parou. Nunca tinha visto um daqueles. Chegou muito rápido, parecia rápido até quando parado. E ele ficara extasiado com aquilo. A esses pensamentos, de curiosidade e fascinação infantil, juntavam-se pensamentos de que aquela estrela lhe disse alguma coisa. Voaria, não tinha dúvidas. Olhou para seu pai com saudades. Sabia que tudo aquilo era por causa dele, provavelmente nunca mais o veria. Esperaram todos sentados no banco de uma grande garagem. O pai parecia resignado e sua mãe tinha os olhos vermelhos. Chorara baixinho na traseira do furgão. A irmã estava grudada no colo da mãe e parecia em choque. Desde que o pai a repreendera com os olhos, não abriu mais a boca. Quanto tempo ali ficaram, não saberia dizer. Provavelmente, dormiu no banco da garagem e dali fora levado para o quarto.
Lembrava de ser dono de um urso, um urso dourado. Os fragmentos do sonho ainda eram vivos na sua memória. O urso tinha os olhos tristes e brincava com miniaturas de soldados no pátio. Pequenos soldados de plástico moldado, inanimados, como os que vira no museu de Santa Maria, anos atrás. O amigo urso dispôs os bonecos simulando uma batalha. Verdes contra amarelos, que tinham armado uma emboscada para os primeiros. O pátio era o mais cumprido que já vira. Ainda assim, o urso não cabia ali, ficava apertado, e seus olhos passaram de tristes e chorosos para dotados de uma raiva sem limites. Israel chamava pelo seu nome, Bóris, pedindo calma. Mas a raiva crescia nos olhos de seu amigo animal e o terror do ataque iminente paralisou seu corpo e sua voz. Não podia gritar por socorro e nem ao menos se afastar o suficiente. Nos olhos da besta, uma boneca esfarrapada e decapitada refletia e, em uma das mãos da boneca, o pai chorava de arrependimento.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

cadentes

para si
só quer para si
o sol, o seu sol

parece até que ar
de um lugar
de ser só, de ser só, de ser só

mas eu sei que só eu não
serei não, perecerei
que se fosse um sol só de arder
morreria por mim

eu não quero o fim de tudo em mim
quando o sol puser o céu assim
sem cor, sem me ver
que eu seja estrela de alguém
seu sol, luz de ser

terça-feira, dezembro 12, 2006

Israel acordou e não reconheceu o quarto. Não era um quarto da zona habitacional. Nem era como os da escola, que tinham beliches e grandes janelas. Este tinha cortinas, suas paredes eram pintadas, era bem bonito e grande. Sua cama era a única ali. Ainda assim, era bem maior que o quarto de sua casa, onde dormiam ele e sua irmã. Por falar nela, não estava ali. Nem ela e nem seus pais.
Depois que os libertadores os fizeram descer do carro, a irmã começou a chorar. Um deles, que parecia mais novo do que os outros, mas que era, definitivamente, o chefe, avisou calmamente minha mãe que a criança deveria calar-se, caso contrário, eles o providenciariam. O pai só precisou olhar Samira nos olhos e ela compreendeu e ficou em silêncio. Não trocaram mais nenhuma palavra durante todo o trajeto. Foram conduzidos a algum lugar nos fundos de um furgão, rodaram por horas. Durante todo este tempo, Israel teve medo. Ainda sim, não pode deixar de ficar pensando no primeiro carro que os parou. Nunca tinha visto um daqueles. Chegou muito rápido, parecia rápido até quando parado. E ele ficara extasiado com aquilo. A esses pensamentos, de curiosidade e fascinação infantil, juntavam-se pensamentos de que aquela estrela lhe disse alguma coisa. Voaria, não tinha dúvidas. Olhou para seu pai com saudades. Sabia que tudo aquilo era por causa dele, provavelmente nunca mais o veria. Esperaram todos sentados no banco de uma grande garagem. O pai parecia resignado e sua mãe tinha os olhos vermelhos. Chorara baixinho na traseira do furgão. A irmã estava grudada no colo da mãe e parecia em choque. Desde que o pai a repreendera com os olhos, não abriu mais a boca. Quanto tempo ali ficaram, não saberia dizer. Provavelmente, dormiu no banco da garagem e dali fora levado para o quarto.
Lembrava de ser dono de um urso, um urso dourado. Os fragmentos do sonho ainda eram vivos na sua memória. O urso tinha os olhos tristes e brincava com miniaturas de soldados no pátio. Pequenos soldados de plástico moldado, inanimados, como os que vira no museu de Santa Maria, anos atrás. O amigo urso dispôs os bonecos simulando uma batalha. Verdes contra amarelos, que tinham armado uma emboscada para os primeiros. O pátio era o mais cumprido que já vira. Ainda assim, o urso não cabia ali, ficava apertado, e seus olhos passaram de tristes e chorosos para dotados de uma raiva sem limites. Israel chamava pelo seu nome, Bóris, pedindo calma. Mas a raiva crescia nos olhos de seu amigo animal e o terror do ataque iminente paralisou seu corpo e sua voz. Não podia gritar por socorro e nem ao menos se afastar o suficiente. Nos olhos da besta, uma boneca esfarrapada e decapitada estava refletida e, em uma das mãos da boneca, o pai chorava de arrependimento.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

terça-feira, dezembro 05, 2006

Cebola de máscaras

Inconformado, despi-me das fantasias que tinha criado para viver. Atônito, descobri que ainda vestia uma. Faltava decidir por conformar-me com isto ou, como uma mosca presa no vidro de uma janela aberta, lutar pateticamente, arrancando um por um os disfarces subseqüentes.
Não sei qual escolhi, mas estou vestido neste momento.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Dezembro

Dezembro é um mês incrível. Alguém acredita em dezembro? Eu não acredito. Alguém vê, por exemplo, dezembro passar? Não passa. Tu achas que ele nem mal veio já vai, mas ele não foi nem irá: não espalhem, mas dezembro não existe. Alguém consegue ler num calendário os dias de dezembro? Dias de um calendário são massantes, protocolares. Dezembro não é rotina. O ano tira férias em dezembro. O que tinha pra acontecer, aconteceu, o resto é retrospectiva. Ou é pré-datado pra janeiro. Já percebeu? Nem os cobradores aparecem em dezembro!

Eu sei que é difícil acreditar, afinal são muitos anos (quantos tu tens?), eu chego hoje ao meu vigésimo terceiro dezembro. E quase acredito. Mas deveríamos ter suspeitado quando descobrimos que nem mesmo o Papai Noel aparece em dezembro. É tudo invenção. É tudo invenção! Muito necessária, há que se admitir. De que outra forma um fim se ajustaria ao começo com tamanha perfeição. Imagina, novembro acabar e a gente, assim, dá de cara com janeiro! Precisávamos mesmo deste amortecedor, este plasma onde confundem-se as matérias de passado e futuro. O que passou é digerido e o que é devir vem num sopro, feito mágica, cola na gente. Passamos sopostos trinta e um dias com essa nítida sensação de que um grande plano está sendo traçado às escondidas. Dezembro está embalado pra presente. Entendeste? Ele é sem ser, ou, é o que virá, mas agora. Sempre vestido de mistério, dezembro atravessa-nos o espírito. É isto, se queres saber: ele existe, mas sob outra forma de existência. É por isso que gosto tanto de dezembro: ele não tem tempo nem lugar, mas não deixa de ser. Vã será a tentativa de entendê-lo. Dezembro é de sentir, não de saber. Na verdade, talvez isto também seja o precioso da coisa toda: não saber. É preciso ter alma pra amar dezembro, e reconhecê-la.

Instiga este acaba-não-acaba. Dá até um calafrio. É como se novembro e janeiro fossem prédios bem altos, à distância de metro e meio: sabemos que conseguiremos saltar de um prédio para o outro, mas a proximidade com o fim nunca nos deixa tão vivos, e provoca arrepios. Concorda?

Sejas um otimista ou um adepto do conformismo, estejas em quaisquer das variações entre a esperança convicto e o niilismo convencido, percebe que dezembro penetra tuas narinas e tu já não distingues quando respiras ou sufocas, teus desejos parecem ocupar o mesmo espaço de tuas frustrações, tudo assim confundido, que chega a ser estranho quando parece fazer sentido. Isso se desse pra tomar dezembro entre os dedos e mirá-lo como uma borboleta. Mas dezembro pousa tão macio no dia primeiro, levanta tão ligeiro no trinta e um, que só dá pra recordar a cor quando se acorda o ano novo, e tu sentes na bochecha a umidade de um beijo que quer te lembrar, só quer te ensinar a fugir da mesmice. Dezembro foge da mesmice.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Reino dos sonhos

Por enquanto, o sonho ainda reina. José, sentado em uma pedra mais anatômica ri do que vê. Sentiu-se cansado e nem deu explicações, só um telefonema. Dava tempo ainda e foi. O mar era a resposta que procurava, mas isso só revelou-se nas pedras. No caminho, no ônibus, só seguia o que, por alguma razão, era o correto. A praia era sua e já era tardinha. O vento marinho cheirando a frescor, a falta de problemas, gelava. Enconstou-se como podia, cobriu-se com seu terno e dormiu tranqüilo. Ali, ninguém acharia José.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Redenção

Um para cada lado foi como seguiram depois da despedida. Roberto foi enfático, mas não queria aquilo. Foi um blefe. Achou que quando Vanessa sentisse que realmente teria coragem de terminar com tudo, tomaria tento da realidade e desistiria daquela idéia idiota de separação.


Passara duas semanas de cão. Demorou para entender o que Vanessa queria. Começou reclamando de qualquer erro dele, coisas que sempre fez agora eram motivo de reprovação imediata. O pessoal do trabalho já estava comentando. Comia pouco, não falava, estavam estranhando seu mau humor. Mas bem que a Doutora Fernanda e a estagiária dela entenderam direitinho o que estava acontecendo e já botavam as asinhas de fora. Olhavam-no como duas raposas caçando: olhares vorazes. Roberto não se preocupou com isto. Não naquelas semanas em que aquilo que via crescer desmoronava. Quando ele finalmente resolveu questionar como ela agia de maneira estranha, Vanessa desconversou – Ai, não é nada. Que mania de sempre achar que é alguma coisa. Só tô cansada, trabalhei prá caralho hoje – mas estava estranha. Estava estranha, mas desconversava, e foi o que lhe deu forças para blefar no momento fatídico.

Tá acontecendo ou não? Coisa estranha, absurda, sem importância, cretina. E o telefone não toca. Não toca e não adianta ficar olhando para ele. Bobagem. Primeiro, é como o mundo caindo, depois, como se tudo fosse se resolver num estalo, num clique. Será? Puta merda, parece que esperou eu me convencer, isso não se faz. Gosto porque não tenho? Mas tenho ainda. Não sei. Preciso descobrir a palavra mágica, sei que existe. Vou dizer e tudo vai voltar ao normal, ninguém vai mais tocar no assunto, vai me abraçar, me beijar, e vamos sorrir. Que que eu fiz, porra? Que merda será que eu fiz? Ou não fiz. Alguém fez... caralho, puta que pariu, isso não. Que merda. Vou pressionar. Mas não vou ligar. Vou esperar, deixar. Não vai se agüentar e vai me ligar. Ou mandar mensagem. Aí sim, aí vai ver, vou tirar isso a limpo.

A ligação não fora esclarecedora. Ela não confessou nada, pelo contrário. Negou e disse que nunca o trairia, que o amava. Aquilo deixou Roberto mais puto do que nunca. Como assim amava, caralho? Quem ama gosta, quer estar junto, quer conversar, tocar. Ela comportava-se de maneira diametralmente oposta. Como ele sentia sinceridade no seu tom de voz, a única conclusão lógica a que podia chegar é de que era um trouxa muito fácil de ser enganado. Quantas vezes já teria sido crédulo desta maneira? Todos os fatos apontando para um lado, mas uma explicação combinada de uma voz arrependida o levavam a acreditar no absurdo. Despediram-se e foi dormir bravo com sua estupidez.

“E aí, que que deu?” foi a primeira coisa que Vinícius lhe perguntou pela manhã, no cafezinho. O seu, grande e amargo, o dele, doce. Tomavam o primeiro ali, ao lado da cafeteira e levavam o próximo para suas mesas. Não deu nada, conversamos durante um bom tempo, mas ainda não sei o que que houve direito. Ela tá confusa. “Toma uma atitude então, rapá. Diz pra ela que ou dá ou desce. Ou vai prum puteiro curtir a fossa, hahaha. Pode não resolver o teu problema, mas pelo menos tu comeu alguém.”
Não é preciso dizer que a conversa não ajudou e que o trabalho não rendeu como deveria mais uma vez. Pelo menos estava emagrecendo. Sentia o vazio no estômago cada vez que pensava na vida de solteiro. Aquilo dava medo. Será que conseguiria sobreviver naquele mundo novo? Teria que conhecer gente, refazer agenda, uma sucessão de primeiros encontros, mesmos papos, mesmos fins de semana naqueles lugares com aquele monte de gente otária. Voltaria a ser um deles, mais uma vez. Não queria, mas Vanessa que colocou nas mãos dele. Estava decidido.

Roberto blefou. Foi ele quem disse, com todas as letras, que tinha acabado. Não era palhaço para ficar passando por aquilo. Não era palhaço, mas deu alguns passos e virou-se, esperando o arrependimento. Vanessa continuou caminhando, não titubeou. Ele ficou assistindo ela chegar ao chafariz antes de desistir e continuar caminhando na direção oposta. Ela era bonita e não teria dificuldades de achar um novo namorado. Ele sabia que ela gostava dele e que não acharia fácil a separação. Mas tremeu quando ela não virou para a última olhada. Já não tinha tanta certeza de que ela voltaria para seus braços.

Vanessa agüentou firme até o carro. Entrou, colocou a chave na ignição e desabou em choro. Não sabia se era aquilo que queria, nem se não era. Não queria nenhuma alternativa possível. Só gostou de ele ter dito, nunca teria feito sozinha.

LOVE

quarta-feira, novembro 22, 2006

sabe chorar de alegria?
lágrimas lilás
de um jacarandá
bem no meio da rua

terça-feira, novembro 21, 2006

;-)

Recebo uma boa notícia e me quedo feliz. Esqueci do resto do dia e pintei um novo com as cores dessa voz. As janelas que me circundam guardam um azul que pressente um verão. Há de vir em breve. Por enquanto, silencio um sorriso entre parênteses.

O Problema do Oligopólio no Voto em Sistemas Multipartidários

Governos de coalizão são formados para fugir do dilema que surge quando nenhum partido sozinho recebe apoio da maioria dos eleitores. Mas, quando os eleitores percebem que serão governados por uma coalizão, um efeito de realimentação ocorre e muda a natureza do voto.
Os eleitores racionais não votarão mais no seu partido ou candidato preferido; ao invés, levarão em conta as possíveis coalizões que surgiram devido à distribuição dispersa dos votos dos demais eleitores. Assim, a decisão do eleitor racional passa a depender de como ele pensa que os demais eleitores votarão: as eleições se tornam jogos, com os eleitores buscando estratégias mais favoráveis através da análise dos possíveis passos uns dos outros.
Anthony Downs, Uma Teoria Econômica da Democracia, clássicos 15, edusp, 1999, p. 170-171.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Milton Friedman

Morreu o economista Milton Friedman. Fundador da Escola de Chicago, ganhador do prêmio Nobel de economia de 1976 e da medalha John Bates Clark de 1951. Sua contribuição foi inestimável ao advogar sobre a importância da quantidade de moeda como instrumento de política governamental e como determinante dos cíclos de negócios e da inflação, e também para o refinamento da função de consumo, através da hipótese da renda permanente.
Foi responsável, juntamente com Friedrich von Hayek pela revitalização das teorias econômicas liberais na segunda metade do século XX. Nos anos 1970 e 80, contribuiu para a aplicação dos princípios liberais em diversos países como Estados Unidos, Inglaterra e Chile.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Outro Engano

Não tenta falar de amor
Com quem não se importa
Cantando baixinho, sussuro
Amordaçado, carente

Emenda sonho e dor
Fala depressa, inventa
Renega carinho, orgulho
Engole o choro num soluço

Deixa de lado, vem
Vem sem pressa, meu bem
Foi-se embora mais um ano
Ano que vem, outro engano

Fala passando a mão
Quero carinho compassado
Vou me fazer de coitado, e depois
deixar marcada a dentadas

E depois tudo de volta
Atarantado, que cena!
Sem cortejo, choro, nem vela
Mudo, calo, e tu consentes

Tentaste e eu te avisei
Tem coisa que não vale a pena
Passar por trouxa não paga
O gosto da sinceridade

Deixa de lado, vem
Vem sem pressa, meu bem
Foi-se embora mais um ano
Ano que vem, outro engano

terça-feira, novembro 14, 2006

É simples

Heard Somebody Say
Devendra Banhart

I heard somebody say
That the war ended today
But everyone knows it's goin' still

Our motherlands and motherseas
Here's what we believe
It's simple
We don't want to kill

I heard somebody say
That the war ended today
But everyone knows its goin' still

Our motherlands and motherseas
Here's what we believe
It's simple
We don't want to kill

Oh, it's simple
We don't want to kill
Oh, it's simple
We don't want to kill
Oh, it's simple

segunda-feira, novembro 13, 2006

Resgate

Pouca trégua deram as tempestades na última estação. Era a terra secar e já caíam mais dois metros de água. Doze ilhas submergiram, outras doze se formaram. Tivemos que construir pontes improvisadas. Nada fácil plantar assim, nesses terrenos sofridos - a semente custa pegar vida. Foi preciso investir nos mais altos terrenos, pra recomeçar. Trocar as árvores caídas por um verde baixo. Não fosse a matéria orgânica a dar fertilidade teríamos saído do zero. Mas a terra conhece nossa história, sabe onde e com que força estão entrelaçadas nossas raízes. Elevamos nosso solo, e de istmo em istmo, buscamos nossas ilhas. Conquistamos um continente, que só nós poderíamos resgatar. Somente amar atravessa certos mares. E há mares que vem pro bem.

Verde

Amadurecer é deixar de se comunicar estritamente com o umbigo.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Otimizando


Correto, certo, fechado. Como planos tangenciando no ponto certo, uma formiga neoclássica vaga entre as dimensões. Imaginando bolas abertas, que delimitam fronteiras sem nunca chegarem perto o suficiente, escolhem o ponto ótimo, aquele no qual estão mais próximas da fronteira. A todas essas, as cordas vibrantes compõem formas de Calabi-Yau, e a formiga sente-se a vontade, em um mundo que não compreenderíamos, e onde, certamente, iríamos pirar, por não compreender. Afinal, se o papel não comporta, como podemos admitir que existe?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Nadar

O mundo inteiro me chacoalha: ânsia e angústia me respiram. Cápsula. Giro. Imagino um ar - tento parar. Mas o tempo me foge, o movimento me trai: prevejo um vômito. A garganta é a casa da angústia. E o vazio, a morada da ânsia. Não sei engolir: vomitar. O mundo inteiro me chacoalha. Perco o chão. Ou ganho o ar. Fica mais nada, do espaço que perdi, do tempo que ganhei. Antevejo uma liberdade que não sei.

Verdade

Contei a estória ao contrário, para evitar maiores sustos. Tudo explicado de tim-tim por tim-tim, que surpresas não me estavam programadas.
Mas me enganei no resultado. Contando ele primeiro, acabei por evitar os rompantes, mas arranjei os porquês. Que bela sarna me arranjei, ninguém esperou o último deles, já queriam saber do primeiro.
Eu não gosto do alvoroço, e isto já deve ter ficado claro. Pois dele não me livrei e, agora, ainda tinha que agüentá-lo do avesso.

terça-feira, novembro 07, 2006

Avesso e diverso

posso muito bem ser avesso
ou ser bem diverso e também desconversar
- ser ave de gesso

posso alçar vôo só num verso lento
um verso devagar de momento
divagar sobre uma nuvem de sentir
ou passar veloz submerso em mim
posso até um que outro divertir
por este ou por aquele fim

bem mais difícil seria divergir
deste outro que me é sem eu ser
deste que é diverso ao meu verso de rimar
deste que se constrói sobre palavras
aversões desassentadas de suas terras

bem mais difícil seria dissecar o espírito ora difuso
enxugar essas letras úmidas de mergulho raso
declinar deste impulso que toma ares alheios
pousar bem no meio deste signo que indica o tesouro

poder não ter certas contradições
mas as contradições certas
poder perder a voz mas não a vez
ser um paradoxo flexível
com loucuras de embriagar
e asas de também repousar

poder até usar a rima
assim, como lazer
poder dizer por cima do pescoço
eu não sou de gesso
escolher que poder mereço

A prática

As ações são muito mais sinceras do que as palavras.

Scudéry, Madeleine

terça-feira, outubro 31, 2006

Volta

Meus medos. Gostaria de perdê-los. Sei lá, esquecer no cinema, entre as pipocas que me escapassem, deixar, distraído, no meio de um livro grosso de uma biblioteca distante. Ou, melhor seria que os perdesse à beira do Atlântico, submersos na impermanência das dunas, para que quando a maré subisse, à noite, o mar dissolvesse todo resquício de minha insegurança, o sal corroesse o mais férreo dos meus receios. Meus medos me estacionam, me paralisam. Mas não de modos primitivos ou grosseiros. Meus medos me inibem com pormenores finos, quase educados. De maneira que por pouco não convenço a todos de que se não obtive progresso aqui ou acolá foi porque a escolha mais acertada era mesmo calar, era mesmo não ir, era mesmo não fazer caso. E, pior, convenci a mim mesmo, inúmeras vezes, de que minha inação era exemplo de minha sobriedade, de meu bom-senso. A vitória do meu pensamento sobre minhas paixões. Até ares de intelectual ganhei no espelho - um pouco de vaidade ajuda quando faltam convicções. Todavia, muito secretamente, coisa que não aparecia nem como sombra nas minhas pupilas contraídas, eu desaparecia dentro de mim. Nos meus medos foi onde me perdi. Ao me impedir sistematicamente de aparecer, eles foram me desaparecendo, seqüestrando minha respiração, bebendo meu sangue: ganhando meus ares, sendo meu corpo. Tremo e tenho minhas unhas roídas, todas. Não sei o que me livrou de uma asma. De minha memória, meus medos me concedem poucas lembranças, e, ainda assim, por meio de um processo burocrático: protocolos, carimbos, concessões e censuras. Ainda me escapam suspiros transgressores, mas, porque têm de se esconder, planejam uma revolução com tanto cuidado, tanta lentidão, que o ímpeto dissipa-se, o fôlego extravia-se num emaranhado de senhas desconexas. Senhores de mim, meus medos me governam cada dia com mais petulância, ceifam-me o passado como se fosse uma erva daninha, promulgam-me um futuro de perspectivas limitadas. São ditadores os meus medos. Uma droga. Os desgraçados viciam. Contei quarenta e oito horas em que escapei de suas vontades, em dois dias quase inteiramente dormidos. E o sonho tem sido o lugar praticamente exclusivo, se os sonhos fossem praticamente, em que eu digo o que penso e até sem pensar, vou aonde quero e até sem saber, sou – sou! – sem deixar de ser. Acordo. E não me surpreende o desacordo entre meu sonho e minha prisão. Por algum motivo - ora, sabemos, são os medos - esqueço o sonho e risco mais um dia na parede. Um pássaro me vem à janela. Escrevo notícias de mim para o mundo, que enrolo e amarro às suas patas frágeis. Vôo um vôo de um pássaro que não sei por onde vai passar. E a minha liberdade conta os dias no reverso de meus dias, na tentativa de encontrar-me na véspera de meus medos.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Já voltei e volto a repetir, mas minto por ironia ou compaixão, tanto faz. O que não faz é admitir de vez para logo encerrar. Cerro dentes e olho pro lado, tonto. Melhor assim do que o olho no olho, embaraço e obrigação. Não fazia antes, não é do meu feitio agora. Se me importa abrir uma fresta, não faz pouco em escancarar por completa. O problema é princípio, no final importam os meios.
Atitudes deliberadas levam a conseqüências inesperadas. Compras, contas, erros e monstros, livros bizarros. À luz de idéias, fogo de mel e encantos de bundas, tudo misturado no mesmo caldeirão espiralando como num desenho animado e borbulhando céu afora.
Apaga.

4 minicontos

Porque era ela, era ele.
Sentia-se um palhaço. Doía-lhe a espinha. Fazia-o de bobo com sua prepotência. Ousada, apontava no seu nariz: vergonha. Enfadava-lhe aparecer. Talvez fosse mesmo a sua alma contida naquele pus retido.

O destino de quem é transparente.
Não tinha jeito. E aquele andar coisa-de-louco. Curvou-se em reverência natural. Ela passou cega e apressada como se percorresse a própria mão. Fez cócegas na dele. Estaria traçada na linha da vida.

Da última geração.
Tudo que tinha era pressa. Destino ou decisão, o que viesse primeiro. Não tinha dados ou dor. Muito menos a sorte de um amor. Fosse um computador! Mas era só a pressa. Peça do tempo sobre a ausência.

Réquiem para um desencontro.
O violão não ouviu a voz da luz. Sentiu o calor esticar suas cordas, silenciosa tortura expandindo seu corpo. O último grito veio em seis notas trágicas que o fogo rebentou. A lâmpada explodiu de dó.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Dicas de um passageiro

Los Hermanos estarão (com Mombojó) dias 16 e 17 no salão de Atos da UFRGS e vai dar pra entrar por R$ 7,50, te liga. E outra, a Feira do Livro de Porto alegre, que começa nesta sexta-feira, está cheia de oficinas bacanas, entre outras programações.

Perderão aqueles que deixarem pra depois.

terça-feira, outubro 24, 2006

Estou ocupado no momento. Enquanto aguardam, sugiro que acessem os links ao lado, altamente por nós recomendados. Não posso me comprometer quanto a isto, mas, creio que meu colega Rômulo Arbo continuará com suas sempre brilhantes contribuições.

Obrigado

Felipe Maciel

sexta-feira, outubro 20, 2006

terça-feira, outubro 17, 2006

Passaporte

dá saudade
de ver-te
desconhecendo

passar por ti
teus olhos e através
fronteira

linda
imaginar tua língua
detrás de teus lábios
que me silenciam canto
de sorriso

dá saudade
reconhecer-te
só de sonho

cruzar na rua a ponte
numa tarde demorada
passar-me despreocupada
com brisas de volver quem é

Desktop

Clama-se pela necessidade de novas fontes e portos, proclama-se que navegar é preciso. O pombo correio não pára de ir e vir com mensagens de boas novas, em uma centena de línguas. O rei já não se sente confortável em seu trono de descansar, confia mais é em ninguém. Aflitos, dois eunucos suicidam-se bem na sua frente. Impaciente, um nobre organiza um golpe. Mas se descuida e pega um vírus que põe fim aos seus planos. Um jovem de 11 anos dá risada num ponto remoto do reino.

www.malvados.com.br

segunda-feira, outubro 16, 2006

Nem sei se

Não, não chores não
por mim
eu fico um pouco mais
aquém do que imaginou
além do que sorriu

Nem de graça vou
voltar
é o que sonhei
prá ti que declinou
prá quem mais eu menti

Chora
Não
Por mim

Chora
Não
Por mim

Sim tu te entregou
prá mim
foi só tesão
prá quem se enganou
sabendo que partiu

Sinto, te entregou
prá mim
não serve não
por que não esperou
saber o que eu senti

Chora
Não
Por mim

Chora
Não
Por mim

quarta-feira, outubro 11, 2006

GIz para Renato

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer,
Quando convém
Aparecer ou quando quero.

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou

Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, p’rá ser honesto,
Só um pouquinho infeliz.

Mas tudo bem
Tudo bem
Tudo bem

Lá vem lá vem lá vem
De novo:
Acho que estou gostando de alguém

E é de ti que não me esquecerei.

[giz, renato russo]

terça-feira, outubro 10, 2006

O Sul de Borges
Quando um dia ensolarado começa pesado, sei que não melhora mais. Há dias estou assim e sei que é o excesso de compromissos. Não é o dia que está assim, sou eu. É café preto engolido às pressas, no estômago vazio, digerindo notícias lidas no mesmo ritmo, lidas para que não pareça um idiota para o primeiro idiota que encontrar. Na porta do elevador, me lembro das chaves do carro e volto. Em cima do armário, mesmo lugar de sempre. Aproveito para tomar um copo d'água e para pegar um disco para escutar no caminho. Baden Powell, o trânsito é o tempo que me dou para escutar música, coisa cara para mim. Cara, mas que andou perdendo espaço para outras, talvez mais urgentes. Luxo é elástico.
No carro, pego a direita, e o Fim Da Linha mistura-se com a lembrança de uma Ipiranga cheia. Gosto das ruas de Porto Alegre, das árvores, do clima provinciano, menos caótico. O ar condicionado, os vidros fechados, a música, tudo isso não me deixa voltar realmente para cá. Falta o mormaço, a falta de vontade hoje tem outras razões. Estranho preocupar-me com o trânsito de Porto Alegre, tendo vivido São Paulo. Viver São Paulo significa horas nos deslocamentos. É sair uma hora antes do compromisso para descobrir que um acidente parou tudo, e todos sabem que isto acontece, e ninguém quer saber, porque deveria ter saído duas horas antes.
Engraçado como o pessoal espantou-se quando disse que voltaria para cá. Não sofri seqüestro relâmpago e nem assalto, por que deixar Sampa? É claro que nunca ganharei aqui o que ganharia lá. O que eles não entendem é exatamente isto aqui. Árvores no bairro, poder tirar o pé. Mas eu não tirei o suficiente. Na garagem, vejo que tenho dez minutos para chegar ao escritório, o dobro do necessário.
Toca o telefone. É o Bruno? Não é do feitio dele ligar a essa hora da manhã.

Olhos de Édipo

"[...] Tomas acompanhava esse debate (como dez milhões de tchecos), e acreditava que haveria certamente entre os comunistas alguns que não eram assim tão ignorantes (deviam pelo menos ter ouvido falar dos horrores que tinham acontecido, e que não paravam de acontecer na Rússia pós-revolucionária). Mas é provável que a maior parte deles não soubesse de nada.
E ele dizia para si mesmo que o problem a fundamental não era: sabiam ou não sabiam? Mas: seriam inocentes apenas porque não sabiam? Um imbecil sentado no trono estaria isento de toda responsabilidade somente plo fato de ser um imbecil?
[...]
Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com sua própria mãe, e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu de Tebas. [...]"

{A insustentável leveza do ser, quinta parte, capítulo 2 - Milan Kundera}

sexta-feira, outubro 06, 2006

Grovska (1)

- Grovska, disse ao acordar. Não fez caso, mas, dada a circunstância, nem era mesmo de se fazer. Tinha dias em que punha as meias do avesso, outros em que escovava os dentes com a escova de Bruna, uns em que simplesmente desligava o despertador achando, talvez, tratar-se de um mosquito desses que ousam incomodar uma boa noite de sono. Ou seja, acostumara-se a vestir a consciência somente depois de bem ter dado o nó na gravata, último movimento antes de pegar as chaves e sair de casa. Quem sabe fosse a senha de seu despertar o barulhinho das chaves entrechocando-se como se revelassem seus sonhos com urgência, antes que eles evaporassem feito água.

Esquentou água pro café pensando, exatamente, em que haveria sonhado. Acordara com uma sensação estranha, que de estranha passou a inexplicável quando olhou pro relógio e, incrédulo, constatou que pela primeira vez no ano havia se antecipado à hora de levantar, que no seu caso era sete e trinta. Que coisa. O microondas apitou. Conseguiu capturar imagens e sensações menos escorregadias: bonecas, país estrangeiro, pressa. Enrugou a testa. Do quarto veio soar o despertador. Sete e trinta informava a voz doce de sua namorada, e cada vez menos doce alertava, até vir o berro histérico e chato numa voz quase masculina, muito da maleducada. Foi desligar. O microondas voltou a apitar. O dia prometia e a promessa era nada agradável. Grovska. Grovska? Enrugou a testa. Estranho. Admitiu que ainda sonambulava. Tomou um gole do café. Esquecera do açúcar. Voltou a pensar nas bonecas. Não eram de pano, soube que sabia naquele instante. Eram duras, talvez frias, pintadas. E com pressa. As bonecas é que tinham pressa. Não só elas, ele também, todos. Talvez os perseguissem. Tinha uma ponte. Tomou mais um gole, balançou a cabeça, foi pôr açúcar. Três colheres de chá. Atravessavam a ponte, talvez fugissem do país estrangeiro, ou para ele. Desconhecia aqueles homens, por que o perseguiam? E, que diabos, bonecas?! Pela primeira vez no dia sorriu. Pensou na namorada, ela sorria na foto sobre a mesa, virou-se para contemplá-la. A essa hora estaria em algum daqueles cafés de Roma, ela adorava café. Eles. Tomou o último gole. Heitor veio esfregar-se em suas pernas. Era o gato. Querendo comer, certamente, e com muita razão. Miou. Gostou de ouvir algum som afetuoso. Acariciou os pêlos de Heitor. Macios. Heitor parecia gostar, presumia-se um sorriso. Pensou na namorada novamente, desta vez teve a sensação de senti-la. Macia. Heitor miava agora repetidamente. Será que quer comer? Foi ver se achava aquela ração, mas não lembrou onde Bruna dissera que guardava. Teve uma idéia fabulosa: pegou um pires, pôs leite. Heitor enrugou a testa. Por um breve instante ambos miraram o leite. E slept, slept, slept, soou a pequena língua de Heitor esvaziando o pires com sua pequena língua. Esvaziou. Ficou olhando pro gato, o gato pra ele. Definitivamente Heitor não estava satisfeito. Lembrou que ontem não havia lhe dado nada do que comer, ou... beber. Talvez nem anteontem, será? Foi buscar no armário um prato de sopa.

Foi quando contemplava com interesse e espanto a cena do alvo Heitor de bigodes leitosos dando conta do segundo prato fundo que tocou o telefone. Absorto, apercebeu-se só no sétimo toque, quando o gato deu-se por satisfeito aparentemente. Foi atender.

Grovska?

Heitor enrugou a testa.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Sem sentido significa correr pelas pedras da pouco perspicaz alvorada para aos poucos rangir dentes no asfalto ensangüentado. De abril correm moinhos que gelam ao tempo de comadres. Na sombra ou ao largo, choram bombachas e tremem seus sóis, pois sois sentado na primeira de todas. Clapem pelo jugo, meus entes, pois pelados foram quase todos, e argumento que sequer senti.
Entrou de repente e pedalou o máximo que pôde com ânsia de lacrimar. Ao próximo destacou e mesmo de posse rugiu para o lençol. Pouco sacana, mas assomou de pronto e, dueto, sorriu com a bizarrice do comparsa.
- Forte pasto metal
- Aquece na mente que bóia carrega de pronto, e sonho padece exaurido
- Mas fronte que passa é garrafa silêncio
- Noturna se muito, prefiro galega
Passava de bote e tempo de mato. Arfante começo de fina planura, que segue e soga mas deixa atalho. De dois ou três voltava ao mesmo e luz forçando não livra de beiços. A torta malhada se gritou baixinho, molhando invejas de quarta zunindo.
- Não para de rir e pensa que voa
- Se penso ou dispenso, revogo de fé
- Mas carta é só, e espaço corrente
- Fico tenente que logo me sano
Tristeza surgiu, da risada do outro. Nuvem deixando a sala, e música voltando ao ouvido. Em torno, cansaço e sorrisos. Na mesa, garrafa pela metade, ainda dá mais um gole, que segue embalando o rumo. Pouco de versos que enrolam um pouso, mas de cordas a mente se volta. A cabeça já pensa sozinha, já pode pegar de volta as rédeas. Ainda volteia, mas olha em volta e vê a baderna. Mas tem tempo, amanhã se preocupa em arrumar as coisas da viagem.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Olhos nos Olhos

Independente do que sentia, não podia continuar com aquilo. Sabia que seria difícil, mas logo logo passaria. Sempre passa.
Vítor saiu de casa com a cabeça feita. Já tinha uma boa desculpa e preferia fazer direto, sem rodeios. Machucar de uma única vez, que nem injeção. A enfermeira chamava sua atenção para uma ilusão ou um brinquedo, qualquer coisa. Quando se dava por conta, já tinha sofrido a vacina, tudo acabara, só restava um fundo gelado de picada, que logo desaparecia. Faria assim, melhor prá todos.
Ele amava Roberta, e isto não podia negar. Passaram bons momentos juntos, davam-se bem. Tinham gostos parecidos, não tinham problemas para ir ao cinema ou escutar música, eram prazerosos seus diálogos. Mas, ela era fresca. Era isso, e ele não admitia tal coisa. Churrasco, tinha que levar picanha e queijinho, no qual os amigos, não só por gula, mas por implicância justificada, atracavam-se sem pudores. Não acampava e peixe tinha que ser com grife: linguado ou salmão. Se fosse seu amigo, certamente seria implacável na arriação.
Ao entrar no carro, sentiu-se mal. Era medo. Igual a quando correu do cachorro do seu Anselmo, com todos torcendo por ele do outro lado do portão, ou quando deu-se conta de que o pai não ficaria mais curado, que era somente uma questão de tempo. Os membros não respondem, o estômago embrulha, o suor é frio. Calmou, pensou novamente e lembrou de todos os argumentos que já tinha usado para se convencer. Girou a chave e seguiu seu caminho. Trocar o Cd. Led Zeppelin não combina com seu momento. The Cure. Filho da puta apressado, não pode esperar? Não era isso que queria pro momento, não essa melancolia. Precisa de outra. Que que será que quer? Stones não, definitivamente. Chico! Era isso, perfeito para todas as ocasiões onde há mulher na jogada. Puta, tá amarelo, vou ou paro? Caralho! Travou
...

Dor, arde, puta que o pariu, ahhhhhh, merda, que que é isso? Tá louco? Embrulho no estômago. Vontade de vomitar. Doi, muito frio.

...

Não andar? Melhor morrer? Puta merda meu. Um segundo e isso? É assim? Cadeira de rodas, depender dos outros. Vai ser assim? Paraplégico. Caralho de som do carro. Custava prestar atenção, merda. Foder, nunca mais?! Puta que o pariu. Ninguém mais vai me querer. Vou ficar sozinho pro resto da minha vida. Acabou a minha vida. A Roberta, será que ela vai continuar comigo?

Primavera

Esperava mais de um dia tão bonito. Como mais não viria espontaneamente, tratou de providenciar na marra.

terça-feira, outubro 03, 2006

Eus poéticos

as pessoas dizem de tudo
mas o pessoa diz como poucos
e disse, do poeta, fingir dor
mesmo a dor que deveras sente

pessoalmente, digo mais
não só finge como dita
ditador
e o que lhe causa a poesia
leitor
é a agonia de tua liberdade
grita ela sobre cada verso
num universo paralelo

não havendo poética impessoal
não há obrigações com ética
ou revelações altruístas
cada verso e toda estrofe
é para uma pessoa só e implícita

segunda-feira, outubro 02, 2006

Caminhou durante bom tempo pela estrada. Muito tempo para dizer a verdade, não estava acostumado. O chão batido, pedras soltas parecia não ter mais fim, mas a paisagem era agradável, não podia negar. Pelo menos os tucanos, dois, que nem importaram-se com sua presença, foram um espetáculo a parte. Soltos, lindos, misturando-se aos vários tons de verde do mato vizinho.
Estranho experimentar situação tão pacificadora na situação em que se encontrava. O corpo doía muito, precisava respirar devagar, filhos da puta. Mas não era provável estar muito longe da vila, não tinha passado tanto tempo dentro do carro. Será que dormira? Aquele jagunço de merda não brigou limpo. Não que tivesse vencido de outra maneira, nunca foi um brigador. Sempre foi melhor na conversa, e mais de uma vez achou conveniente voltar prá casa com o orgulho avariado, mas com os dentes no lugar. Filhinho de papai fiadasputa. Botando banca, botando marra. Pisando firme no salão só porque é filho do homem. Caralho. Quer um harém prá ele? Quem que pensa? Não ia baixar a cabeça, nem a pau.
Finalmente, depois de horas caminhando (na verdade, não tinha muita noção de tempo, sem relógio, celular, ficava completamente perdido) avistou uma cabana. Casebre. Longe da estrada. Finalmente, ajuda, água para a sede e para o corpo. Ainda não era um telefone, não havia fios por perto.
Será que pega celular por aqui? Acho brabo. Assim que der jeito, volto lá e aqueles merdas me pagam. Tudo preso. Acham que são donos do mundo? Acham que aquele fim de mundo é o mundo. Não perdem por esperar.
Na casa, o cachorro ladra, mas o guri vem prender. Chama pelo pai, que andava por perto. A velha vem acudir, que o homem tá pisado. Deitam ele e providenciam um de comer. Mas, o que que, ainda que mal lhe pergunte, o que que houve ao senhor...?
Marcos, professor do colégio no Rolantezinho. Me desculpa a falta de educação, com a confusão, não me dei por conta e não me apresentei. Pois foi que teve baile ontem, no salão do Bola. Fui conhecer, que sou professor, mas não tenho senhora. Quando o baile já tava acontecendo, resolvi conversar com uma moça, bem simpática, Ana Cecília, e chamei prá dançar. Foi quando Zé Túlio, filho do prefeito veio tirar as caras. Parece que tinha interesses na moça. Mas, como ele já tava de gracejo por uma, se rindo todo, resolvi argumentar que não tava fazendo mal algum em conversar com Ana Cecília. Não tive nem tempo de escolher baixar a cabeça ou comprar briga. Surgiu um bronco de porrete na mão, nem sei de onde, e sentou o sarrafo. Apanhei que nem cachorro. Protegi a cara e güentei. Depois que caí, mais de um bateu, mas nem vi quantos. O senhor veja a safadeza das pessoas, como tem gente que não vale nada nesse mundo.
Ficou um silêncio. A mulher ficou quieta, o capiau ficou quieto. Nem o cachorro latiu. Pediu desculpa, mas que eu pegasse rumo.

Esquisofrenia curada

A partir de Hume (1741-42) e Smith (1776), surgiu a visão, amplamente difundida nas ciências econômicas, de que a maior parte das pessoas age perseguindo seu próprio interesse ao invés do interesse público. Enquanto isto, as ciências políticas continuaram assumindo que os agentes políticos estavam principalmente preocupados com a busca do interesse público. De acordo com essa visão, o indivíduo que compra e vende itens no mercado, agindo de maneira egoísta ao buscar a maximização de seu bem estar, muda o seu comportamento no momento de uma eleição, votando em políticos e leis que, ao invés de beneficiá-lo, beneficiam a nação como um todo, ou, ao tornar-se um político, toma decisões moralmente corretas ao invés de comportar-se privilegiando grupos de interesse que o financiam ou apoiando políticas que o levarão a reeleição. O que a teoria da escolha pública faz é dispensar a dicotomia entre um homem econômico e um homem político, passando a considerar que os indivíduos engajados em atividades de mercado e em atividades políticas agem sob as mesmas motivações em ambos os casos.