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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Depois dum Carnaval

Em metade vos digo, assombro um bar na cidade baixa. Enquanto espio, solito, o vai e vem dos passantes, dou de quando em quando um gole miúdo na minha cerveja, regulando para que, ao mesmo tempo, dure tempo suficiente e não esquente. Suficiente porque não quero ir para casa, e porque não posso pedir mais uma. Restrição auto-imposta esta. Penso que não posso exagerar todas as noites, e todas as noites, salvo algum compromisso, cada vez mais raros estes compromissos, estou aqui, na mesma cadeira, olhando o movimento. Ficar em casa é suicídio, no sentido literal da palavra. Bater cabeça, como se diz. Quando muito bate, a cabeça racha.

Fregueses vão, alguns ficam. Outros chegam e passam. A minha mesa é sempre minha, ninguém toca. Sempre a mesma, canto de lá da porta, bom para observar. Chego cedo e vejo tudo, sei quem vem seguido, quem é novo, quem leva a namorada para casa e volta para caçar, quem liga pro namorado e diz que está com a amiga. A noite desenvolve-se à minha volta e eu funciono como um sol, observando a movimentação previsível. Dois pontos. Primeiro, sou um sol por estar no centro, não por brilhar. Muito pelo contrário, me torno opaco em meio àquela agitação. De início, ainda existo para um ou outro marinheiro de primeira viagem. Logo, como não me movo, não falo e muitos duvidem que escute, acabo um móvel ao qual não se dá pelota. Segundo, o centro fica por minha conta, fruto do meu exclusivo ponto de vista, completamente individualista, de que tudo o que existe tem a mim por ponto zero. Mais uma semelhança, assim como o astro, chega a hora em que me recolho.
Começo de semana eu sou dos últimos a deixar o recinto. Vai se aproximando o fim da semana, o povo resolve ficar mais além, eu tenho minha rotina. De qualquer maneira, termino minha garrafa e dou adeus. Isto é forma de dizer pois não me despeço de ninguém. Quando em vez tento alguma piada que o garçom retribui com um sorriso amarelo de quem precisa garantir sua clientela. Volto a pé, moro perto. O apartamento pequeno é de frente, há quem procure exatamente um destes. Eu não gosto. Escuto as pessoas transitando e me lembro que não tenho mais vida. Já chorei, confesso. Sábado é o dia mais foda. Deitar sozinho, dormir sozinho, saber que semana que vem será igual, e que na próxima e na seguinte e sucessivamente. Virei nisso. É o que uma mulher é capaz de fazer com alguém.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Adapto a falta de nexo, mas sobram motivos para notar um algo errado. Uma parede que muda de cor, pessoas mortas dançando tango, silêncio num bar, diversos motivos para questionar uma noção amplamente difundida. Sem meios termos, o que mais parece é que estou numa fábula pronta para desmoronar.

Aceito o desafio e sigo adiante, tomando cuidado para desviar de um padre caído no chão. O pobre enlameado contorce-se por uma dor muito forte. O motivo desconheço, se surra ou veneno, se um pecado recém confessado e impassível de perdão. O bafo que desprende e torna densa a caminhada parece até ser dotado de vida. Um bafo verde, úmido e morno, que parece indicar que aquele lugar não é indicado aos passeios. A jornada se desenrola por um caminho de terra, com barro e sons desencontrados. Estranha acústica deste lugar onde tudo soa mais de uma vez, às vezes de um modo surdo, noutras como numa lata de lixo. A jovem marmota, cujos óculos buscam disfarçar seus traços de pouca esperteza conversa com a velha coruja, de voz calma, grave e macia:

- Quem será que vem lá? Certamente não é muito esperto, pois veste meias sem sapatos. Nesta lama que anda por aí, não convém tal atitude.
- Correta sua observação inexperiente amiga. Mas não julgue tão prontamente, pois as meias podem proteger do contato direto com o chão. Sabe-se lá o que este estranho viajante sente ou pressente.
- Pode até ser que não seja possível julgar sua inteligência a primeira vista, mas sua aparência sim, e afirmo que a natureza não foi muito generosa para com ele.

Chego aos dois pequenos animais tagarelas, que me olham com olhares diversos. A marmota me mira por cima de seus óculos, com ar de superioridade. A coruja prefere um olhar de enfado. O mais estranho de todos sou eu, que não atribuo grande importância a dois animais que conversam. Pergunto que horas são:

- Depende para que - responde a coruja.
- Como assim? O horário independe de razão. Depende tão somente do posicionamento solar - respondo eu, sem muita certeza do que digo.
- Isso foi antes. Antes de trocarem o sol.

Dou-me conta de que no lugar do sol há um grande holofote vermelho, formato do logotipo da coca cola. Um patrocínio desfazendo toda uma noção da passagem de tempo. Paciência.

- Preciso seguir, mas não sei para onde. Sabem aonde chegarei por este caminho?
- Qual a diferença se este é o único caminho que existe? - responde a marmota - Se seguir é uma necessidade, a pergunta é praticamente inútil.
- Já que não vejo boa vontade nas respostas de vocês, sigo meu caminho. Não vejo razão para ficar perdendo tempo com essa conversa despropositada.

Sigo com a cabeça baixa, pensando no que acaba de acontecer. Não me importei com o tom claramente hostil da pequena marmota, mas a indiferença da coruja realmente me deixou incomodado. Neste momento, dou-me por conta que meu pé livrou um pouco da lama do caminho, e o que ele mostra é colorido. Limpo um pouco mais e o que é revelado é um padrão flower power. Penso que isto pode estar relacionado com a coruja e a marmota, mas nenhuma das duas me pareceu hippie ou coisa parecida. Esta coisa de flores, cores e paz e amor é coisa do passado. Passado parece ter o tempo, já que me dou por conta que minhas mãos estão enrugadas e um pouco pálidas. As dores no corpo me dão mais pistas, na falta de um espelho. Estou velho, sem dúvidas.

Adapto a falta de sexo, conseqüências da idade já avançada. Caminhar é preciso, mas me faltam ânimo e forças. Já não lembro mais por que caminho e nem ao menos sei se algum dia já lembrei. Mas logo avisto uma multidão. Vou ter com eles, saber o que acontece por aqui. A multidão se agrupa em círculo. No centro, dois homens muito magros e esfarrapados lutam com todas as suas forças. Informo-me sobre o acontecimento:

- Oferecemos um prato de comida aos dois pobres coitados. Mas os dois têm que brigar por ele. O barbudo é bom de soco - diz um rapaz, sem tirar os olhos do espetáculo.
- Eles não poderiam dividir? - Pergunto.
- Mas qual seria a graça então? Idéia estúpida esta sua.

A cena é deplorável. Os pobres diabos estão desesperados e tiram forças que nem supunham ainda ter. O de barba castiga o descamisado, mas este consegue agarrar uma pedra e golpear a cabeça do primeiro. O povo urra com o sangue. O barbudo não se dá por derrotado e consegue voltar a socar o pobre sem camisa. Espanca-o até seu corpo parar de mover-se. Recebe seu prêmio com a mesma gana que utilizou contra seu adversário, agachando-se sobre o prato e utilizando as mãos com destreza para devorar seu alimento. A multidão extasiada afastasse, deixando o corpo sem vida a mostra. O rosto está inchado pelas pancadas, mas inconfundível. É o meu alguns anos atrás.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Sábado

Baixa a persiana e deita encolhido, como se estivesse com frio, e espera passar. Não passa. Mudança de planos. Veste uma camiseta já tirada e calça-se. As chaves. Volta ao quarto, revira a escrivaninha. Lembra-se do bolso da mochila, não precisou delas da última vez que entrou. Da porta recém aberta, passa o ar frio, encerrado do corredor que carece de ligação com a rua, ar de caverna. Do quente para o frio para o quente. Já fora, o mormaço de verão castiga, absorvendo o ânimo já escasso da tarde de janeiro. Árvores às vezes ajudam, ver verde acalma.

Num sonho estranho, como é a maioria, viu um professor, com o qual teve pouco contato, vestido de palhaço. Não é engraçado, é antes um palhaço triste. Palhaços são tristes, tristes ou malignos, não importa. Era só figurante. Importaram mais as escadarias intermináveis, que subiam e desciam, não lineares. Nunca se sabia ao certo onde tal caminho iria dar. E na pequena praça, debaixo de chuva, todo o tipo de tipos ameaçadores. A fotografia era escura, atmosfera abafada. Um quê de filme noir, mas em um clima de distopia. Tudo às avessas, pessoas estranhas, nenhum olhar cúmplice, a falta de uma referência, do porquê de tudo estar daquela maneira.

Nem cogita o ônibus e segue a pé. As ruas vazias denunciam o fim-de-semana e aumentam ainda mais a angústia. Homens num bar, uma dupla com uma cerveja, outro de pé no balcão bebericando qualquer coisa misturada com fanta, todos matando tempo. Pena ou inveja? Talvez ambos. Pela Redenção, aproveita a volta das sombras mas não gosta de ver pessoas felizes. Enfim, só corta caminho por entre bicicletas e chimarreiros. Pela André da Rocha, sobe a Marechal. Olha para os lados e entra na porta escura. O mesmo ar cavernoso, como se os corredores escuros fossem ligados por alguma galeria secreta e comum. Sobe os quatro lances de escada num só fôlego e para para respirar enquanto olha para a porta descascada no fundo do corredor. Bate na campainha, o olho mágico escurece, a porta se abre e Isadora convida para entrar.