quinta-feira, julho 13, 2006

Nota de Esclarecimento

Os editores deste blog vêm por meio desta tornar público que o post anterior não retrata fielmente os sentimentos do autor no momento da criação. A idéia original foi alterada para dar lugar a uma idéia mais plástica, ainda que não fielmente correspondente com a realidade.
Mesmo cansado, mesmo aflito, faço plantão, fico velando. Afinal, de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada.

Desmanje

negociAÇÃO

De todas as negociações que conheço
muitas acabaram ou pelo ódio ou pelo tédio
(principalmente no Oriente Médio)
mas a nossa, interrompida pelo chamado laboro,
há de terminar no seu fim único – ação (e não vem com choro)

Negociação é uma partida de xadrez onde sempre vence a dama.

quarta-feira, julho 12, 2006

Eles de novo

Sim, eu não me canso de dizer: mercados estão em toda a parte.
Quem estiver passando ali na galeria Chaves, no centro de Porto Alegre, pode constatar algo interessante. Entra na Multisom e dá uma conferida nas ofertas de CDs. Depois, do outro lado da galeria, dá uma olhada nos discos oferecidos pelas lojas de discos mais "especializadas". Nas últimas, os mesmos discos custam o dobro do preço. Até aí, tudo bem, seria uma prova de que os mercados não funcionam.
Mas esperem. Por que alguém pagaria o dobro por um produto que custa a metade do outro lado da galeria?! A resposta mais razoável parece ser por falta de informação. Quem vai em lojas especializadas está a procura de artistas específicos ou de discos "difíceis". Quem vai na Multisom procura uma coletânea de novelas, "o mais vendido" (e não estou falando no último do Mombojó), ou, como eu, vai fuçar a loja toda em busca de "bons e baratos". As lojas da frente fuçam os balaios da Multisom, compram os títulos interessantes, e colocam na vitrine ao dobro do preço (freqüentadores de balaios notarão que estes discos só aparecem nas vitrines destas lojas especializadas depois de serem colocados em promoção na Multisom). Assim, a diferença é explicada por onde está a mercadoria: misturada no balaio do magazine ou na vitrine da butique (ainda que aquelas lojas não tenham aparência de butique).

segunda-feira, julho 10, 2006

Não é brincadeira



Gostaria de poder brincar com dados estatísticos como fazia com esses cubinhos bicolores depois de um longo Banco Imobiliário. Mas aqueles são tão sem graça...

Xadrez

Um bom enxadrista não joga sempre no ataque. Antes disto, ele executa seus movimentos de forma que leve o jogo a um objetivo específico, por ele pré-definido. O bom enxadrista conduz a partida para que seu oponente, ceda o xeque-mate com graça e elegância.
E é meu o 100° post deste blog! O que eu ganho?! Uma viagem à europa? Fama, fortuna e felicidade?
Não creio, a julgar pelas minhas informações sobre o dinheiro em caixa.

Café com net

O Léo mandou o link. Uma
invenção simples que pode se espraiar por aí.

sexta-feira, julho 07, 2006

O lado alegre do arco-íris

Chove, chove,
Chove todas essas tuas palavras!
E depois vê como secam!
Que palavras, que nada!
Desabotoa esses trajes!
Deixa-nos nus!
Conheça-me em braile!
Saiba-me de cor!

Chove, chove,
Essas lágrimas tristes!
E depois vê como eram vapor condensado!
Aquece essa atmosfera!
Corre pro Sol, deita na grama!
E deixa a gravidade nas sombras!

Interpretações

Da natureza e gênese

ao dividir as palavras como pão
que hão de fazer os democratas

de que modo semear os restos tais
sem criar pelo acaso armas atômicas

não
palavras não são pares
são inteiras, ímpares
toda palavra par é maldita e falsa
toda palavra par quer dizer o oposto

a palavra certa não se quebra
no máximo se reproduz

Comentário que surgiu no outro blog:
Toda palavra par é madita e falsa??? ai de ti! se souberes que o par é o melhor presente nesta vida.. jamais ousarias em escrever tal atrocidade. par é muito mais que uma palavra, é uma escolha, a que eu escolho. toda palavra par quer dizer o oposto??? realidade triste e contraditória a que descreves, mas não por isso verdadeira, não por isso a plena. Caro amigo, só se é inteiro, quando em par, paz.

Resposta - minha tentativa de contextualizar a poesia com o pensamento em seu instante de criação:
Veja só, amiga, quantas interpretações podem conter tão poucas linhas! Na verdade, falamos de pares distintos, veja bem: quando escrevi, o meu pensamento estava inclinado a falar sobre esses discursos fáceis de cair no gosto do povo, porque feitos de palavras dúbias, com sentidos muito pouco tangíveis, dizendo tudo ao mesmo tempo, sem se posicionar efetivamente, ou seja, dizendo nada. O "par", aqui, representa essa multiplicidade contraditória, que anula a si mesma, quebra-se. E o "ímpar" é pra ser o discurso que, dizendo o que disser - sendo de qualquer natureza -, é uno, no sentido de coerente. Mas esses teus "pares" e "ímpares" podem vir a render algum próximo post! Obrigado por comentar!

E tu, que opinas?

quinta-feira, julho 06, 2006

Tenho tendências a ser surrealista. Muitas vezes também enquanto estou acordado.

quarta-feira, julho 05, 2006

Sobre a beleza da fantasia (e talvez sua supremacia sobre a realidade)

Aos 49 minutos o goleiro Ricardo vai pra grande área tentar o empate. No rebote do escanteio a bola cai a seus pés. Ele vira-se para o gol, ajeita a bola, desloca o esférico um pouco mais para a frente e, ainda de fora da área, enche o pé e manda no canto do gol de Barthez. Ricardo não acredita, ninguém acredita, Felipão não acredita. Saem todos correndo sem rumo, sorrindo, gritando, pulando - é gol! Inacreditavelmente, é gol! Um milagre. Dois portugueses levam cartão amarelo, inclusive um reserva, pela comemoração de 3 minutos. A claque portuguesa também quer correr, mas não pode, então faz soar seu coro pela Europa inteira. Um grito desorganizado porque todo de emoção. Na verdade, no estádio inteiro não há pessoa que entenda o que aconteceu - nem o juiz, que dá mais dois minutos de jogo ilógicos. Felipão e Murtosa estão dentro do campo, sobre a linha lateral, enquanto o árbitro reserva tenta tirá-los dali, mas sem sucesso. Aí ele se une aos brasileiros e tenta avisar o juiz de que, de fato, não há mais tempo de jogo, mas com aquele barulhio* todo ele não ouve nem o fone plugado ao seu ouvido. Finalmente termina o jogo quando Zidane fala alguma coisa que não conseguimos ler em seus lábios. Há uma segunda entusiasmada comemoração dos portugueses.

Na prorrogação dá 2 a 0 Portugal. Os franceses não tiram da cabeça o gol de Ricardo.

*palavra inventada no meio da confusão

terça-feira, julho 04, 2006

Problemas além-derrota

Em uma competição, qualquer pessoa sensata trabalha com a idéia de derrota, no sentido de reconhecê-la como uma possibilidade. É necessário estar preparado - Parreira admitiu que não estava. Não me diga!?!

Eu, sim, digo mais: não estavam nem dispostos a competir, a essência de todo campeonato. Alguém viu algum esforço? Alguma indignação? Alguma luta? Certamente não. Tivéssemos visto, talvez eles fossem recepcionados como a Seleção Argentina, afinal, quem torce não clama por vitória, mas por vontade de vitória.

Seguíssemos o exemplo dos dignos hermanos, dos bravos portugueses, ou dos prevenidos e entusiasmados alemães, estaríamos com a honra salva. Aqui ou na Alemanha, não importa.

Os ossos do ouvido

música pra depois
de dizer
que não

quando tiver atenção, aí sim
pode vir pra mim
que eu te canto novamente

nada ver dizer
que é superficial
só porque ouviu
pela segunda vez

já que é pra depois
guarda lugar pra nós dois
entre martelo, bigorna e estribo

segunda-feira, julho 03, 2006

Será uma música?

Se parAR.../Já não quÉro mais
Não-des-faz asSIM os nossos laços
Que já não tem mais espaços
Pra gente viver só -->

-->Volta aquI!/ Deixa que Eu te pego a mão
Que eu já sei a direção
Pronde a gente deve rir

Quinze minutos pro carro partir
e o coração partido
mas não, não te envolve mais
com esse tal de sofrimento
que tem muito envolvimento
que termina em perdição

Toma esse anel
que é pra dizer - quando eu não disser
que eu te quero bem, meu bem
que eu te quero bem aqui
ou pra onde a gente ir
e veja bem - onde quer que tu esteja
que importa se eu te espero?
eu te quero, tu me quer - o quero é que importa
abre essa porta

quinze minutos pra gente parar de partir separados
no máximo juntar, repartir, reproduzir
sem deixar
Eu
de lado

Walter Franco


Site oficial: http://www.walterfranco.com.br/
Biografia: http://walterfranco.sites.uol.com.br/walter.html
Discografia: http://walterfranco.sites.uol.com.br/discos.html
Download de álbuns: http://lagrimapsicodelica.blogspot.com/2006/01/walter-franco.html

FIQUE MUDO

Não me pergunte
Não me responda
Não me procure
E não se esconda
Não diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo

Seja num canto
Seja num centro
Fique por fora
Fique por dentro
Seja o avesso
Seja a metade
Se for começo
Fique à vontade

Não me pergunte
Não me responda
Não me procure
E não se esconda
Não diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo

Propaganda - Vendem-se novas vacas

O carrapato avista um lombo saudável de uma vaca e se joga. A vaca não se incomoda, afinal tem muito, muito sangue nesse corpo, e o carrapato ainda promete trazer generosas quantias do melhor capim, já que tem bastante influência no mercado. Incrivelmente a vaca ganha peso, inacreditavelmente parece mais cheia de vida, talvez mais cheia de leite. Curiosamente ninguém prova do leite, mas ah, nem precisa né, afinal nós sabemos, olha só como ela está robusta!

O leite é vendido aos litros. Fazem-se queijos, natas, requeijão e todas essas utilidades que não pararam de inventar. Cosumidores são o que não faltam, finalmente o gosto lácteo é experimentado. As pessoas trocam olhares fugitivos, balançam a cabeça afirmativamente, falsamente convictos. "É bom." "Sim." "É bom mesmo." "É sim, tem um gostinho amargo no final mas é ótimo." "Tem? Não senti..." "Talvez tenha sido só impressão, mas o fato é que é bom." Os diálogos vão por aí até se estabelecer um consenso, ao ponto em que um menino é rapidamente repreendido por sua mãe quando faz cara feia ao mastigar um dos queijos e em seguida cospe-o fora. "Que vergonha!"

Quatro anos mais tarde, as reclamações reprimidas das crianças, por ocasião do Grande Concurso das Vacas (que aqui pode ser interpretado como as Eleições ou a Copa do Mundo sem prejuízo algum de entendimento), conquistarão adeptos cada vez mais numerosos, primeiro mais surpresos, depois mais indignados, antes mais comedidos, depois mais clamorosos, até se tornarem todos fantasticamente eloqüentes. Uma senhora mexe em sua panela enquanto profere tardiamente: "Eu sempre soube que ia dar nisso."

O carrapato, lá no seu way of life, apressa-se em procurar outras vacas, sempre se beneficiando do fato de ser muito pequenino, incorruptível aos olhos do povo.

sexta-feira, junho 30, 2006

Espiral esquizofrênica

rede rede
rede redemoinho
redemoinho redemoinho
rede rede redemoinho
moinho
rede
redemoinho
moinho
moinho
rede
redemoinho
redemoinho rede
redemoinho rede
rede redemoinho
redemoinho moinho
moinho rede
remoinho rede
moinho de rede
moinho de rei
moinho de rainha
de redemoinho
de rede
moinho
rede mundo moinho
de rei
rede mundo moinho
redemoinho
rainha
mundo de rede
moinho de mim

Equilíbrio em Estratégias Mistas e Cobranças de Pênaltis

Isto é economia
Segundo o Steven Levitt, do Freakonomics Blog (listado aí ao lado) e mais dois autores, os batedores de pênaltis agem conforme a previsão teórica da Teoria dos Jogos, exceto por um detalhe: eles batem muito menos embaixo e no meio do que deveriam.
Por que isto ocorre? A sugestão dos autores é que errar chutando no meio é muito mais vergonhoso do que errar no canto. Mesmo marcando mais, o jogador pode ficar com um estigma de estúpido, ou algo do gênero.
Se tudo o que um jogador quer é vencer, ele deve chutar baixo e no meio. Se ele preocupa-se em não parecer idiota, melhor escolher um canto.

Weast Coast



Roubei a imagem de http://www.fotolog.com/strawberryfire/?pid=13457086 que roubou de http://members.chello.nl/cvanderlely/wcpaeb/history/wcpaeb3.htm. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.

terça-feira, junho 27, 2006

Dois clichês para um romance banal

Num encontro casual de duas pessoas - e hoje em dia não posso me limitar dizendo de sexos opostos - um dos dois (o que nutrir o conhecido interesse), ou ambos, num caso feliz, enfim, ALGUÉM evocará a idéia de coincidência, mesmo que para pessoas atentas esta seja bem discutível, mas, sobretudo, a partir dela sugerindo uma predestinação dos deuses, da vida, do destino mesmo, qualquer coisa assim, algo que se impõe sobre o mero acaso, assim inaugurando uma espécie de relação abençoada, afinal "estava escrito nas estrelas". Não satisfeito, ainda mencionará o fato de estar, exatamente naquele momento ou momentos atrás, pensando na outra pessoa, veja só - aí lançando mão de outro clichê essencial e tão sem sentido quanto, como se o ato de lembrar, recordar de uma pessoa a partir de qualquer evento fosse já de antemão algo que significasse carinho, omitindo todo aquele manancial de lembranças que simplesmente querem dizer nada senão que, sim, você tem uma mente ativa.

segunda-feira, junho 26, 2006

Toda espécie de bobagem

O importante sobre as bobagens é que elas saem de sua boca ou entram em seus ouvidos com seu descaramento natural, você não faz nenhuma objeção porque, afinal, é uma simples bobagenzinha, trivial o bastante para não provocar qualquer desvio de rumos. Você faz pouco caso. Ocorre que, por ruídos de comunicação ou excentricidades da linguagem, é saudável que, mesmo as bobagens, sejam minimamente contextualizadas - salvo as confusões intencionais muito utilizadas em propaganda. Afinal, somos todos ingênuos até que nos ensinem e provem o contrário. E, uma vez, acreditada, a bobagem passa a contagiar até a medula óssea do coitado. Ou de um país.

sexta-feira, junho 23, 2006

Desculpa para quando se é pego em flagrante

"Who are you going to believe, me or your own eyes?"

Groucho
, meu Marx preferido.

quinta-feira, junho 22, 2006

Cultura Corrupta

Como saber se fatores culturais importam para o nível de honestidade de uma sociedade? Uma forma seria colocar diversos indivíduos, de diversos países, selecionados aleatoriamente, vivendo sob os mesmos incentivos (conjunto de prêmios e punições para as atitudes por eles tomadas) por tempo suficiente e observar seu comportamento. Entretanto, tal experimento é, aparentemente, extremamente caro e difícil de implementar.
Ray Fisman, da Universidade Columbia, e Edward Miguel, da Universidade da Califórnia em Berkeley, descobriram uma situação em que algo parecido ocorre naturalmente: um experimento natural.
Scheinkman escreveu na Folha de São Paulo sobre o artigo:

segunda-feira, junho 19, 2006

Tal qual o tubarão, não posso parar, preciso estar em constante movimento. Se paro, afundo. E aí, babaus.

domingo, junho 18, 2006

dias de febre

ficar irremediavelmente em casa
sem nem querendo fazer coisa alguma

qualquer brisa de vontade é coibida prontamente
com uma dor de garganta de pulso firme

e antes de cair na cama,
buscando o sono - casa de não sentir,
me arrisco enormemente ao reclamar
vá que a garganta saiba ler
- vá saber

terça-feira, junho 13, 2006

O capitalista

Antes ao menos vendia a idéia de que descobria novos mercados. Em dias modernos esse pudor fez-se desnecessário, e é difícil hoje perceber algo não inventado por ele. Deixou de ser uma questão de simplesmente acreditar. Passou a ser lógico, muito porque aprendeu a vender com maior eficiência, mas certamente não só por isso. Quando alguém compra uma idéia gratuitamente, engana-se que a comprou por preço nulo. A grande sacada do capitalista foi evoluir o modo de cobrar, reverter a imagem de explorador a uma de ofertante, e você está dentro deste sistema, supostamente, somente por sua própria vontade. O capitalista aprendeu, também, a viciar. E viciar é fazer esquecer.

Agora, vítima assumidas são os melhores consumidores.

Coca Cola

O consumo de Coca Cola relaciona-se positivamente com a riqueza de um país, com a qualidade de vida de seus habitantes (medida por um índice da ONU) e com a liberdade. Pelo menos é o que diz a The Economist:

http://www.economist.com/markets/bigmac/displayStory.cfm?story_id=456039

segunda-feira, junho 12, 2006

na morada do meu amor...

porque amor também repousa, sonha, descansa, recupera-se e canta e dança embaixo do chuveiro, acorda descabelado e toma café da manhã com os olhos pequeninos.

Dança

Sim.
Dançar é a frustração vertical de um desejo horizontal

sexta-feira, junho 09, 2006

O teorema de Arrow

Segundo Kenneth Arrow no seu teorema da impossibilidade, é impossível agregar democraticamente as preferências dos indivíduos em uma escolha social que satisfaça certas propriedades desejáveis:

1-Universalidade: esta propriedade diz que o voto deve ter um resultado que ordene todas as escolhas possíveis e deve dar um resultado igual para um mesmo "perfil" de votos", isto é, não pode haver aleatoriedade no processo.
2-Unanimidade: se cada indivíduo na sociedade prefere uma certa opção com relação à outra, então a preferência da sociedade deve ser por esta opção.
3-Independência das alternativas irrelevantes: a escolha da sociedade entre 2 alternativas independe da existência de uma terceira alternativa.

O teorema da impossibilidade de Arrow afirma que se a sociedade possui pelo menos 2 membros (para um único membro, a escolha indivídual é igual à escolha social, e não faz sentido falar em agregação de preferências) e precisa tomar uma decisão entre pelo menos 3 alternativas, então um sistema de votação que satisfaça estas condições é necessariamente uma ditadura.



lançamento de disco no ocidente



Stereoplasticos lança seu EP no dia 11 de junho, no Bar Ocidente. Depois tem MOPTOP.

Varig

Quem vai pagar pelas dívidas da Varig?
Segundo o juiz responsável pelo caso Luiz Roberto Ayoub, não será o comprador. A julgar pelo resultado do leilão, os possíveis compradores não acreditam piamente nisto. A questão é que, certamente, alguém vai pagar estas dívidas e ninguém está disposto a entrar no jogo sem que as regras estejam claras. Parece que esta é uma situação comum na justiça brasileira. Juízes crêem ser possível uma solução onde ninguém saia perdendo. O problema é que ela não existe.
Minha aposta de quem pagará a conta? Acho que somos nós.

quarta-feira, junho 07, 2006

Montanha Mágica

Andando sobre trilhos de fumaça
Eu vejo tudo tão sem direção
E quando rio de toda essa graça
Que dizem que é tudo alucinação

O cinza dessas ruas não me agrada não
E toda essa pressa por um tostão
Não tem, não tem, não tem nada não
E toda essa pressa é tudo alucinação

Vou subindo a montanha mágica
Lá eu vou me curar

http://www.tramavirtual.com.br/artista.jsp?id=22898
Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa
Riobaldo Tatarana, o Urutu Branco

O vício

não quer sentir o gosto do remédio
não quer o tédio que não seja vício

já de início dispensa a verdade
que é, para si, impertintente:
ela não lhe reconhece dignidade,
ele dispensa sua patente

quer saber é da ignorância
quer saber da turbulência
o vício é um populista da maior eloqüência!

vende por preço alto o que nem tem valor
o vício é um horror disfarçado de santidade
o vício não escolhe idade, sexo nem cor

mas não é democracia! não se enganem!
profanem o vício, profanem!

não é certo nem errado
o vício é quadrado e quer te acorrentar
não o verá atravessar seu próprio mundo
ele vai cada vez mais fundo no seu poço vertical
o vício é, na verdade, um boçal disfarçado de importante
é pirata de um navio que deixou sem comandante

o vício avistará terras e proclamará até independência
com o selo oculto que perfaz sua enganadora transparência

sexta-feira, junho 02, 2006

Superpops

Fui ver O Código da Vinci. O livro não li porque já havia lido Anjos e Demônios, o qual definitivamente não se trata de um convite à leitura de sua (Dan Brown) insipiente coleção de livros que me recuso a chamar obra. Não que este último seja de todo ruim. Algo lhe salva, que é o mesmo que imaginei que salvaria o livro O Código da Vinci: a história é bem amarrada, resultado de uma profunda pesquisa do autor, que traz à tona algumas valiosas informações que provocam boas indagações em alguém em que tiver sobrevivido um mínimo de razão. O primeiro pensamento que tive ao encerrar Anjos e Demônios foi o de que este livro viraria um filme, sem dúvidas, hollywoodiano típico, porque trata-se exatamente de um roteiro para uma película nesses moldes. Daí porque resolvi ver o filme O Código... no lugar de ler o roteiro. Agora, disseram-me alguns que o filme exclui certas passagens e conta de forma diversa outras - mas eu duvido que no livro tivessem alguma profundidade, pois isto parece escapar de Dan Brown. E de fato, o que para mim se apresentou na tela não foi mais que uma série de links a serem pensados noutro momento (o filme obviamente não inclui um espaço para isso) reunidos numa trama simplória e forçada.

A História virou pop. Não consigo pensar em melhor exemplo do que este fato por mim presenciado ontem: o filme e seus apontamentos (mais especificamente um deles, que já exponho) era discutido no programa SuperPop, da Rede Tv!, apresentado pela cabeça mais pensante deste país, Luciana Gimenez. Meu irmão chamou pra ver, já que eu havia retornado do filme falando em Opus Dei, que - agora exponho - era o assunto em pauta do programinha (Deus ou os astros livraram Leonardo da Vinci dos maldizeres de Gimenez e seus convidados). Aqui, é necessário fazer ainda mais concessões para dizer que foi proveitosa a experiência de assistir. Sobre a apresentadora não direi mais que proporcionou os melhores momentos da noite enquanto manteve-se calada. Uma das convidadas era Tati do BBB, uma boxeadora que por algum distúrbio de personalidade acreditava ser uma estudiosa do assunto. Outra, não fiz questão de pegar o nome, mas tinha uma voz horrível, o que não vem ao caso, como não vinham nem um pouco suas opiniões - e ela era insistente. Tinha um, também anônimo para mim, que ganhou minha simpatia por seu costume de pouco falar.

Para completar a série de convidados irrelevantes - de forma estupenda - havia um padre (e o chamando assim ofendo a todos padres de bom coração e sã consciência - perdão), tirado não sei daonde, que, de duas palavras que falava, em uma se contradizia. Não consigo me furtar de dar o exemplo-mor: depois de ouvir sobre o teor da conversa, que discorria (como falei) sobre as impropriedades da Opus Dei de forma realmente contundente e indignadora (graças aos outros dois convidados-messias, a descrever), o padre quis levantar uma bandeira contra aquele despautério (práticas da Opus Dei), segundo ele a sociedade deveria reunir forças contra aquele desacato. Instantes antes, ele mesmo havia admitido ter feito uso do cilício (autoflagelação às ganha). Questionado sobre este indício de contradição (um pasmo de lucidez, irrepetível, na Luciana), o padre tratou de se explicar dizendo que fazia tal sacrifício porque não tinha o que fazer enquanto separava laranjas na Itália e, além disso, era bom para esquentar (?).

Uma ressalva que não pode deixar de se fazer diz respeito à bizarra narração das matérias que permearam o programa (todas relacionadas à Opus Dei). O pior é que as matérias ainda foram bem feitas, coitados. Digo, entrevistaram as pessoas certas, tentaram ouvir o pessoal da Opus (sem sucesso), foram nos lugares em que deviam ir, buscaram informações e as apresentaram. Só que o texto foi narrado por um desses caras que anunciam comercial de motel (mas quinze vezes mais forçada), numa voz pseudo-sexy (mas tão psedo que não enganaria a mais ingênua das freiras). Essa parte provocou risos estupefatos e depois gargalhadas incrédulas.

O que sobrou? Restaram os dois últimos convidados: Betty Silberstein, mãe de um numerário (praticante da Opus), que recentemente lançou o livro A falsa obra de Deus; e um ex-numerário, que seguiu a doutrina por 10 anos. A mãe luta para resgatar o filho da seita conservadora que o enganou e continua enganando. O ex-numerário conta dos pormenores da dita-cuja. Muito interessante, por vezes espantoso. Mas isso fica pra outro post.

quinta-feira, junho 01, 2006

Parece contraditória sim. Mas podemos pensar na natureza contraditória do universo. Natureza intrinsecamente probabilística que não percebemos por vivermos em uma escala macroscópica. Macroscópica para os nossos padrões, bem entendido. Nos níveis subatômicos, tudo acontece ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo, um fóton está em um ponto e em outro e em outro. No final o resultado é um só. A pergunta que fica é: o que acontece com as outras realidades que acontecem ao mesmo tempo? Elas continuam existindo paralelamente?
Mais interessante é pensar como seria nosso mundo se esta aparente desordem explicada pela física quântica ocorresse nas nossas escalas de espaço e tempo. Será que não acontecem? Infinitos universos paralelos derivados de cada ínfima possibilidade, e dando origem a tantos outros infinitos universos paralelos a cada instante. Mesmo naquela ínfima parte de todos estas realidades nas quais nós humanos existimos, existe uma infinidade de possibilidades tão absurdamente grande que é impossível concebê-la.
A grande questão que fica depois de tudo isto é: será que em alguma destas realidades eu vivo feliz com ela, só porque nesta eu resolvi tomar coragem e me apresentar em vez de ficar quieto, pagar a conta e ir embora?

quarta-feira, maio 31, 2006

Perguntaram a George Stigler, um dos líderes da Escola de Chicago, quando ganhou seu prêmio Nobel, qual a razão de não haver premiações para outras ciências sociais como sociologia, psicologia, história. Stigler respondeu: "Não se preocupem...eles todos já tem seu prêmio Nobel...em Literatura."

Está contido em

A possibilidade de não saber é desfrutada com paixão pelo indivíduo. De modo que, quando realizada, esta possibilidade adquire formas impositivas: os universos paralelos da ignorância multiplicam-se e produzem um grande emaranhado de não saber. Dentro de suas estruturas nascidas desviadas, cria-se uma cultura de natureza totalmente questionável, mas de lógica factual. A moral é senhora nestes terrenos.

A possibilidade de não saber sobrepõe-se a do conhecimento na medida em que, vivenciada, sabe-se única (e é a única coisa que sabe). Ao mesmo tempo, desconhecer é menor, está contido em conhecer. Que coisa contraditária parece essa!

sexta-feira, maio 26, 2006

Prólogo para um livro de receitas

Há alguma coisa entre a fome e a gula - tem de haver. Algo que transite entre a prosaica necessidade de meros componentes químicos e o prazer excêntrico de desencontrar-se na superabundância de alimentos, de esquecer-se na vastidão da mesa. Pois não é este aniquilamento nem aquela casualidade que se apresenta à mesa, quando, ao seu redor ou pelo menos à sua proximidade disposto, está este seleto grupo de amigos bem sentados em cadeiras, poltronas, sofás ou, eventualmente, banquinhos. Seleto, como não poderia deixar de ser um grupo que faz jus à alcunha da amizade, a mais verdadeira - os irmãos que escolhemos, como se costuma dizer.

Compõem esse rico ajuntamento o Ricardo e a Zéti (meus pais), o Paulo e Neusa, o Nicola e a Lisa, o Charles e a Marta, o João e a Zezé, por vezes mais alguns compadres ou filhos, todos formando essa reunião de pessoas, não por acaso, há mais de duas décadas preservando a amizade tal qual o vinho é preservado em barril de carvalho, assim adquirindo mais virtude, oxigenado na exata medida de melhor ser desfrutado. E em cada mês bebe-se deste vinho, alternando-se os lares, sempre o mais aconchegante que os anfitriões podem oferecer. O leigo conhecimento acerca dos vinhos não me possibilita outras metáforas certamente existentes, e esse exercício reservo humildemente às próximas páginas que eles mesmos, ingredientes imprescindíveis deste caldo, trataram preencher.

Discorri sobre o tempero que permeia essas celebrações mês após mês. Muito provavelmente porque outra coisa não pudesse dizer sobre a matéria - devo admitir que eu quero ser assim quando eu crescer, todavia, hoje, não vou muito além de um bife bem passado (alguém aceita?). Decerto que os jantares aqui descritos, antes de provocar salivação em massa nos leitores, terão satisfeito os espíritos desses gaúchos de bom garfo e coração. Mas que não se engane o desavisado: tal contentamento é provisório, pois, bem como observou Guimarães Rosa, "satisfeito, o animal dorme". Esses homens e mulheres, que aqui escrevendo suas receitas também compõem suas histórias, correm de tal inércia e, insaciáveis, vão pondo no forno a segunda edição, enquanto você degusta esta.

Bom apetitchê!

quinta-feira, maio 25, 2006

A luz, o mundo e as sombras do mundo

Três formas distintas concorrem no processo do conhecimento. A sabedoria existe tal qual a luz e é tal qual a sombra que a conhecemos costumeiramente. Assim, e porque a luz nos é diretamente invisível, dispomos de dois instrumentos para caminhar em direção à razão: essa sombra, projetada, a partir da luz, sobre uma superfície pela interposição de outra; e a própria superfície referida, muito freqüentemente nós mesmos. Deste modo, através deste estudo, tem-se uma idéia da luz. E ter a idéia da luz é, ao invés de cegar por causa dela, penetrá-la e conhecê-la - estar em vias de sê-la.

quarta-feira, maio 24, 2006

Notícia trágica e crítica cômica (ou vice-versa)

Não tendo tinta, jogou-se na tela o pintor.

Nota de um crítico sobre a obra:

Dizem, a vida imita a arte. Eis que surge esse sujeito - não sei de onde e não vem ao caso - e transforma, num só tempo, vida, morte e arte, esse triunvirato tão indissociável que às vezes nos aparece sem os contornos da diferença. Está lá o espetáculo da morte, tão banalizado nas cenas do cotidiano, tão nosso, e ao mesmo tempo ainda assombroso, dando a asfixiante sensação de que secreta em quaisquer dos pontos em putrefação na tela, ou em todos de uma só vez, um enorme buraco negro, fim de toda existência, de toda razão, de toda beleza. Está igualmente lá uma massa de cores aleatórias, todas elas sem nunca terem transparecido tanta vida, jamais haviam transposto o descaso de retinas indiferentes à sua pele mestiça, retinas reticentes em enxergar para além de órgãos, cartilagens, ossos e sangue, agora todos estes expostos, nus, estalados no que antes era somente branco, decompondo-se e se derramando tela abaixo, deixando-nos estupefatos, mais ainda porque a gravidade lhes impõe a mesma lei a nós imposta, como se negasse a ausência de suas almas ou, mais assustador, a presença das nossas. Por fim, lá está também, ou sendo uma estranha coexistência de morte e vida (ou coinexistência), a arte, em sua sorte invariável de narrar o inenarrável, de cumprir a impossível tarefa de, tendo esgotado as descrições informativas, fazer saber o homem que ele é o desaparecimento de todas as dualidades.

terça-feira, maio 23, 2006

Por que estudar economia? Joey Cheek tem a resposta!

They teach you a lot of things when you study economics: about marginal cost, incentives, dynamic optimization, etc.

But up until now, the real reason for why people study economics had been a closely held secret known only to economists—kept carefully hidden away from the hoi polloi.

Well, it turns out Joey Cheek, of all people, is the one who blew the secret. You may remember Joey Cheek as a gold medal speed skater from the Winter Olympics. It turns out he is also quite smart. He was admitted to Yale, Princeton, and Stanford. (Harvard, however, turned him down.)

Parade magazine quotes Cheek as saying that he plans to study economics. And then he goes on to blow the secret we economists have so carefully guarded for all these years. He plans to study economics because “that’s what gets the chicks.”

(My wife Jeannette adds that I am living proof.)

Com a mão

Foi como tirar com a mão. Foi o que lhe veio à cabeça após o som da campainha chegar a seus ouvidos. - Estou no banho, te ligo depois, tá? - Estou na minha vó. Te ligo quando chegar em casa. Ainda vou demorar um pouquinho - Tá bom. Beijo - Beijo. Desligou, passou o telefone na toalha, e voltou ao seu banho. Tinha sido só uma hora, mas parecia a eternidade. O tempo passa diferente dependendo de que lado você está da porta do banheiro. Os pensamentos ficaram mais claros e voltavam a fluir em velocidade de cruzeiro. Até a música que tocava na sua cabeça mudou. Aproveitou a água quente caindo no pescoço e desligou o chuveiro. Escorregou ao sair do box. Pensou ainda em como era bom não ter mais aquela angústia no peito.

sexta-feira, maio 19, 2006

quarta-feira, maio 17, 2006

Incentivos importam

Namorados esforçam-se mais no relacionamento quanto maior a probabilidade deste ir por água abaixo (mantendo-se constante, é claro, seu próprio interesse no relacionamento)?

Minha hipótese é de que sim. Mas acho que é preciso fazer a suposição de que o próprio namorado tenha um interesse não negativo na manutenção do namoro. Se permitirmos interesse negativo, a utilidade do namorado aumentaria com menos esforço (dado custo zero para encerrar o relacionamento).

Conhecimento maduro

"Passa-se com os livros uma coisa semelhante ao que sucede com um novo conhecimento que travamos com alguém. Num primeiro momento experimentamos um profundo prazer em encontrar coincidências gerais de opinião ou ao sentirmo-nos tocados num aspecto importante da nossa existência. Só depois, quando o conhecimento se aprofunda, começam a surgir as diferenças. Nessa altura, o comportamento inteligente caracteriza-se pela capacidade de não retroceder imediatamente, como muitas vezes acontece na juventude, e de pelo contrário reter o que há de coincidente enquanto se vão esclarecendo mutuamente todas as diferenças, sem se pretender chegar a acordo absoluto. "

Johann Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'.

terça-feira, maio 16, 2006

Os cavalos selvagens de Saer

"Imobilizado no meio da planície, Bianco espreita o horizonte. O borrão leve, móvel, que alterava a linha em que o céu e a terra cinzenta se juntam transformou-se numa mancha nervosa, alongada, que começa a adquirir relevo sobre a linha horizontal e, pouco a pouco, à medida que se separa dela e vai se aproximando, lentamente se desagrega e se transforma numa infinidade de pontos e, depois, de manchas escuras que se sacodem e vão crescendo progressivamente, levantando um rumor remoto que ainda não chega aos ouvidos de Bianco mas que os pássaros, as toupeiras, as perdizes e as doninhas da planície já perceberam, começando a agitar-se, fugindo em todas as direções. Uma lebre passa a toda velocidade, esquivando-se aos pulos, espavorida, das moitas de capim ressecado e ralo. Duas perdizes saem do meio do capim e, voando baixo, pesadas, percorrem um trecho pelo ar e voltam a mergulhar no capim para alçar vôo novamente um pouco mais adiante. No ar, bandos de pássaros se dispersam a toda velocidade. Uma toupeira bate várias vezes na parede de sua toca, sob a terra, depois fica imóvel. Agora o rumor crescente que vem do horizonte começa a chegar aos ouvidos de Bianco e pouco a pouco, da mesma maneira que a mancha original foi se desagregando numa proliferação de manchinhas escuras e ainda sem forma, o rumor apagado vai se desdobrando num ruído crescente e múltiplo, que ainda assim conserva certa uniformidade, e que Bianco deduz ser produzido pelo galope de muitos cavalos.
[...]
A tropilha avança a todo galope pela planície, dispersa e crescente como se sofresse mudanças descontínuas de tamanho, e o ruído dos cascos resoa e repercute, desdobrando-se sob as patas dos cavalos, e se dissemina pelo ar em que os pássaros fogem em todas as direções.
[...]
Os cavalos, todos escuros, os pêlos de tons quase idênticos, com o mesmo ritmo, a mesma velocidade, na mesma direção, masssa sombria e palpitante, de uma multidão unificada por todos os seus membros e ao mesmo tempo dispersa em cada um deles, aglomeração de carne quente, de músculos e nervos e de sentidos, vão propagando o estrondo pelo campo vazio e saturando-o a tal ponto que até os pensamentos maravilhados de Bianco são cobertos pela proliferação sonora e tornam-se inaudíveis ou incompreensíveis para ele em sua própria mente. Vigorosos, disciplinados e selvagens, parecem a massa arcaica do ser deslocando-se como um vento cósmico, dividida num número indefinido de indivíduos idênticos, tal como uma infinidade de estrelas separadas pelo negrume mas todas constituídas da mesma substância, ou uma fileira de álamos brotados da mesma semente e que, observados de certo ponto do espaço, superpõem-se e se fundem até dar a ilusão de serem um só."

A ocasião, Juan José Saer, páginas 25, 26 e 27.

terça-feira, maio 09, 2006

cenas surreais


O surrealismo aplicado ao cinema, a partir de filmes como L'Âge d'or (Buñuel/Dalí,1930), perde um pouco da sua espontaneidade. Isso porque não se pode fazer um filme totalmente sem critério, na medida em que alguma seqüência de etapas deve ser seguida. Qualquer linguagem mais poética ou simbólica aparece de forma mais tênue na película, por falta desta automaticidade. Em contrapartida, a linguagem cinematográfica parace facilitar a compreensão, ou melhor, instiga a vontade de compreender, porque coloca o pensamento em movimento, por mais non sense que sejam as cenas, existe aí uma lógica análoga à lógica do sonho. Há um choque, uma provocação que corre paralelamente e durante toda a projeção das imagens e som (havendo som). E é nessa arte que conseguimos com maior rapidez as respostas a esses questionamentos, sejam elas conclusões genuínas ou simplesmente frutos de ilusões do espectador. O cinema cria, a priori, um contexto que em outras artes existe de forma menos perceptível. Ainda que não se entendam, as questões, de uma certa forma, se encerram.

Por isso é que é mais fácil, por exemplo, rir até chorar numa sala de cinema.

Ouvindo A certain romance - Artic Monkeys.

segunda-feira, maio 08, 2006

Sobre a racionalidade do voto

O dever de toda revolução é encontrar seu revolucionário

sábado, maio 06, 2006

"Uma distribuição igualitária de renda pode gerar níveis de bem estar muito desiguais"
Amartya Sen

sexta-feira, maio 05, 2006

Rodrigo Cambará

Com certeza, posso dizer que é personagem de minha história. Através dele, ganhei marcas de batalhas, senti o gosto do sereno numa noite dum céu tomado por estrelas, ouvi o som de um violão festejando esta mesma noite, dei gargalhadas da seriedade moral, fui aos longes, aos campos todos do Rio Grande, cavalguei solito por serras, colinas, matas e pampas, e, pelo minuano, fui presenteado com seu cheiro de frio. Tocou-me uma adaga doutro frio, escorreu-me sangue quente, amargo e vivo, corri, roubei beijos, fiz caso da igreja e morri herói. E tudo ainda muito depois de ter fechado o livro.
Que hei de concedê-lo em homenagem?

terça-feira, maio 02, 2006

Cronodependência

Fosse o homem sair para uma viagem sabidamente sem volta, haveria de levar consigo seu precioso amigo, o relógio.

Talvez seja a morte, avessa a protocolos, a maneira mais eficaz de livrar o ser humano de seu maior apego.

quinta-feira, abril 27, 2006

Frege publicou em 1892

Assim começa Sobre o Sentido e a Referência, segundo capítulo de Lógica e Filosofia da Linguagem.

"A igualdade¹ desafia a reflexão dando origem a questões que não são muito fáceis de responder. É ela uma relação entre objetos ou entre nomes ou sinais de objetos? Assumi a última alternativa. As razões que parecem apoiar essa concepção são as seguintes: a=a e a=b são, evidentemente, sentenças de valor cognitivo diferentes; a=a sustenta-se a priori e, segundo Kant, deve ser denominada de analítica, enquanto que sentenças da forma a=b contêm, freqüentemente, extensões muito valiosas de nosso conhecimento, e nem sempre podem ser estabelecidas a priori. A descoberta de que o sol nascente não é novo cada manhã, mas é sempre o mesmo, foi uma das descobertas astronômicas mais ricas em conseqüências. Mesmo atualmente, o reconhecimento de um pequeno planeta ou de um cometa nem sempre é evidente por si. Assim, se quiséssemos considerar a igualdade como uma relação entre aquilo a que os nomes "a" e "b" se referem, pareceria que a=b não poderia diferir de a=a, desde que a=b seja verdadeira. Deste modo, expressaríamos a relação de uma coisa consigo mesma, relação que toda coisa tem consigo mesma, mas que nunca se dá entre coisas distintas. Por outro lado, parece que por a=b quer-se dizer que os sinais ou os nomes "a" e "b" referem-se à mesma coisa, e neste caso, a discussão versaria sobre estes sinais. [...]"

[¹ Uso esta palavra no sentido de identidade e entendo "a=b" no sentido de "a é o mesmo que b" ou "a e b coicidem".]

quarta-feira, abril 26, 2006

Provando que 1=2

Seja a=b. Então,  (IMAGE) . Somando-se um mesmo valor em ambos os lados não altera a igualdade, logo  (IMAGE) . Assim,  (IMAGE) . Adicionando-se agora 2ab a cada lado da equação, resulta em  (IMAGE) . Assim,  (IMAGE) , que pode ser escrito como  (IMAGE) . Cancelando o termo  (IMAGE) de ambos os lados na equação, resulta que 1=2.

Problema de Agência


Quando o Sem Nome arrodeia, nem não se sente o qual, que mesmo estando ele estado, fica tal e qual como antes era. Mas isso é só diversão, porque, mesmo na surdina e no escamoteado, o Ele por ali vagueia. Qualazartes que não prega, no mesmo ficando, e a cabeça aluzindo com as maladezas que nem na idéia se há de fazer. Então que o cuidado que se carece de não pelo Birolho chamar, redobrado tem de ser no também de não pensar. É quando não se mais pensa que no lusco-fusco da confusão que já tá feito o trato. Mas que trato é esse que não se põe a fé do escrito, a fé da palavra, a fé do fiador? É esse trato de valença? Nesse não creio, não boto fé. E uso e abuso das capacidades que o Sacripanta por gosto próprio me confere, mas na hora do acerto não entrego. Que trato feito sem o aval é do sem valia, e minha alma na hora derradeira faço gosto de não dar em mãos.

La música - Yo la tengo

A música cumprimenta o tempo e segue seu caminho.


Ouvindo o cd desta capa, Mishimoshi-moshi, Yo la tengo.

segunda-feira, abril 24, 2006

À RBS

Tenho redação criativa, idéias sem patente e preocupação social. Trabalho melhor sob pressão e sou o ócio em pessoa quando não incentivado - por outro lado, as coisas facilmente me instigam. Sou bastante cooperativo, ainda que a falta de comunicação falada seja por vezes empecilho. No papel sou fluente em português, espanhol, manjo de inglês e informática e linguagens artísticas. Porque me habituei a exercer o pensar, pergunto bastante e sugiro respostas. Tenho desejos mas, antes, necessidades e me disponho com prazer a priorizar necessidades maiores, que não minhas. Sou um ser em dúvida por nascimento e insatisfeito por opção. E quero ser colega do L.F.Veríssimo, por merecimento.

Fiz cursinho Pré-Vestibular de meio semestre, concomitantemente ao terceiro ano, e essa foi uma experiência valorosa pois me abriu ao conhecimento de forma definitiva. Fiz uma viagem memorável, a ser repetida, por Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai - Santiago, particularmente, me abriu horizontes ao mesmo tempo em que me inseriu no mundo. Fiz o curso de desinibição e oratória que abriu o meu horizonte particular, revelando potencialidades antes abaixo da superfície. Fiz parte de um time vencedor durante os anos 90, no meu colégio, onde aprendi o que é ser parte de um grupo, o que é recuperar-se e o que é ser líder e incentivador. Fiz inúmeras cadeiras na faculdade que me colocaram a par do poder da comunicação, bem como do seu potencial riquíssimo a ser explorado. Li O tempo e o vento, Quando Nietzsche chorou, A insustentável leveza do ser, entre outros, que me abriram para tudo aquilo que eu considero estar aberto. Fiz um curta-metragem na faculdade e um poema meu foi musicado por um amigo. Tenho e divido blogs, como pode ter sido adivinhado.

quinta-feira, abril 20, 2006

Joan Miró [1893-1983]



Contemporâneo do fauvismo e do cubismo, Miró criou sua própria linguagem artística e procurou retratar a natureza como o faria o homem primitivo ou uma criança, que tivesse, no entanto, a inteligência de um homem maduro do Século 20.

Joan Miró nasceu em Barcelona, na Espanha, em 20 de abril de 1893. Apesar da insistência do pai em vê-lo graduado, não completou os estudos. Freqüentou uma escola comercial e trabalhou num escritório por dois anos até sofrer um esgotamento nervoso. Em 1912, seus pais finalmente consentiram que ingressasse numa escola de arte em Barcelona. Estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris, transmitiu-lhe sua paixão pelos afrescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha e o introduziu à fantástica arquitetura de Antonio Gaudí.

Miró trazia intuitivamente a visão despojada de preconceitos que os artistas das escolas fauvista e cubista buscavam, mediante a destruição dos valores tradicionais. Em sua pintura e desenhos, tentou criar meios de expressão metafórica, ou seja, descobrir signos que representassem conceitos da natureza num sentido poético e transcendental. Nesse aspecto, tinha muito em comum com dadaístas e surrealistas.

De 1915 a 1919, Miró trabalhou em Montroig, próximo a Barcelona, e em Maiorca, onde pintou paisagens, retratos e nus. Depois, viveu em Montroig e Paris alternadamente. De 1925 a 1928, influenciado pelo dadaísmo, pelo surrealismo e principalmente por Paul Klee, pintou cenas oníricas e paisagens imaginárias. Após uma viagem aos Países Baixos, onde estudou a pintura dos realistas do século XVII, os elementos figurativos ressurgiram em suas obras.

Na década de 1930, seus horizontes artísticos se ampliaram. Fez cenários para balés, e seus quadros passaram a ser expostos regularmente em galerias francesas e americanas. As tapeçarias que realizou em 1934 despertaram seu interesse pela arte monumental e mural. Estava em Paris no fim da década, quando eclodiu a guerra civil espanhola, cujos horrores influenciaram sua produção artística desse período.

No início da segunda guerra mundial voltou à Espanha e pintou a célebre "Constelações", que simboliza a evocação de todo o poder criativo dos elementos e do cosmos para enfrentar as forças anônimas da corrupção política e social causadora da miséria e da guerra.

A partir de 1948, Miró mais uma vez dividiu seu tempo entre a Espanha e Paris. Nesse ano iniciou uma série de trabalhos de intenso conteúdo poético, cujos temas são variações sobre a mulher, o pássaro e a estrela. Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe a técnica altamente elaborada, e esse contraste também aparece em suas esculturas. Miró tornou-se mundialmente famoso e expôs seus trabalhos, inclusive ilustrações feitas para livros, em vários países.

Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra. Joan Miró morreu em Palma de Maiorca, Espanha, em 25 de dezembro de 1983.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

quarta-feira, abril 19, 2006

Das inconformidades

Poderia haver, e pode, alguém que não suportasse o sol e sua luz, fosse porque não simpatizasse com o azul que adquire o céu. No entanto, em lugar dele, haveria de existir outro condicionante para sua própria vida, eis que depende de energias cuja fonte é, hoje, unicamente o astro mencionado. Pois, e se, supondo-se, tal substituto fosse encontrado e experimentado na prática? Com que cor o céu se pintaria? Qual a chance deste novo, digamos, layout, agradar a todos? Nenhuma, certamente. Esse exemplo não implica nem determina a abolição do descontentamento, mas sublinha que todo desacordo deve estar ciente do que é inerente ao que se chama viver – seja a energia vital, sejam todos nossos intrínsecos pormenores, como o próprio descontentamento.

Nesse sentido, por exemplo, poderia se pensar com mais imparcialidade sobre o tão difamado capital.

terça-feira, abril 18, 2006

Watch out where the huskies go, don't you eat the yellow snow.

segunda-feira, abril 17, 2006

A Verdade por si mesma não tem nenhum valor

Há uma coisa mais dolorosa do que nunca poder ouvir a verdade - é nunca poder exprimi-la, mesmo com a melhor vontade do mundo. Porque o que quer que digamos, o outro não escuta nunca a verdade que lhe queremos transmitir. Aquilo que sai dos nossos lábios e o que se passa na alma do outro, são sempre duas coisas diferentes. No instante seguinte deixa de ser semelhante - isso depende de tantas coisas que nada tinham a ver com a tua verdade e a tua vontade de verdade - isso depende do que o outro queria ouvir, da situação em relação a ti, etc...
E a verdade por si mesma não tem nenhum valor, é como uma moeda num país onde não é corrente.

Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'

quinta-feira, abril 13, 2006

A armadilha da metáfora

Há de se ter cuidado com as metáforas: a magia que produz o riso pode esconder o veneno que aborta o pensamento.

quarta-feira, abril 12, 2006

?

Porque a verdade não nos é explicitada pela razão, somos seres da dúvida. Não há razão em viver senão pela própria busca desta razão. Aqueles que ignoram isso talvez se sentirão confortáveis, mas sempre desumanamente completos. Qualquer ponto de exclamação de nossa existência precede a interrogação.

terça-feira, abril 11, 2006

Markets are everywhere

Até no Grande Sertão:
"Nas folgas vagas, eu ia com os companheiros, obra de légua dali, no Leva, aonde estavam arranchadas as mulheres, mais de cinqüenta. Elas vinham vindo, tantas, que, quase todo dia, mais tinham que baratear. Não faltava esse bom divertir. Zé Bebelo aprovava: -"Onde é que já se viu homem valer, se não tem à mão estadas raparigas? Ond' é?" Mesmo cachaça ele fornecia, com regra. -"Melhor, se não eles por si providenciam, dão logo em abusos, patuléias..."
Se a verdade percebida parte de um ponto de vista, então a viagem de volta é uma viagem sem fim. Não existe ponto que possa ser recortado e colado com perfeição, isso porque, na realidade, não há ponto e sim movimento. A verdade que é acessível aos nossos sentidos está, por nossos sentidos, envolta em neblina. Fosse possível desprender-se do tempo e de todos os contextos em que nos encontramos, ou seja, desfeita essa névoa, ainda assim estaríamos sujeitos a uma verdade incompleta e desfigurada. De um certo modo, a verdade não deixa de inexistir. A existência não pressupõe algum sentido?

segunda-feira, abril 10, 2006

A língua subtraída

A língua que falas despojou-se de sentido. Ela não tem assovio, latido, nem riso de criança. Tua voz perdeu a vez na atmosfera corrompida com vulg'ares de esperança. Ela não tem nexo, não tem lógica: é disléxica sendo só analógica. Teu discurso não tem curso, nem nascente nem foz. Ele é desconexo de si próprio, de todos nós, um liberal suicida. E o teu texto? Sem entrada nem saída! Foge de todo contexto, sem saber arruinar a pouca vida que lhe esqueceram tirar.

sexta-feira, abril 07, 2006

Do impensável dispensável

Não faz sentido buscar pela razão um mundo fora deste tempo, fora deste espaço. Pois o próprio pensamento é sobre eles pensado e, principalmente, a partir deles é possível. Da mesma forma, dizer que estamos presos a estas dimensões é partir de um ponto de vista restrito, pois, se houvesse tal "libertação", quais novas possibilidades nos seriam concedidas? Para o quê estaríamos livres? Ou, que restrição nos impõe, verdadeiramente, a nossa relação factual com tempo e espaço?
Tais teorizações tentam conceber outra forma de existência, enquanto a nossa, experimentada, já nos incita infindáveis desafios. Aponta para um horizonte metafísico a metafísica. Daí a irrealidade objetiva de um pensamento desta natureza - sem natureza.

quinta-feira, abril 06, 2006

Luz

Pensamento nenhum é um fim em si. Doutra forma, descorreria dele monótono adormecer.

Disse Guimarães Rosa: "O animal satisfeito dorme."

Pensamentos suicidas são covardes mentirosos que ignoram a eternidade que há em pensar, que há em viver. O pensamento virtuoso não quer ser dogma, não quer ser regra, pois conhece e aceita a substância criadora do desconhecer.

Disse Sócrates, primazia do saber: "Só sei que nada sei."

E se fez a luz.

quarta-feira, abril 05, 2006

O caminho que segue é diverso daquele que planejou. Mas, ao afastar-se do caminho planejado, fecha as portas antes vislumbradas. O novo caminho tem seu nome escrito, mas sua jornada deveria ter começado muito antes, quando os planos ainda estavam sendo traçados. Pode descobrir, tarde demais, que já era tarde demais. Se então, o diverso virou do avesso. Os planos foram trocados e não há caminho do meio.

Música do encontro (24 de março de 2006)

Letra: Chico do Canto
Música: Francis Milk


O encontro dos artistas

Quem quiser contar,
conte comigo,
conte até mais
não sou inimigo

Faço parte desta engrenagem
Quero ser a graxa pra fazer andar
Vamos assumir as posições
Livrando abertamente as gerações
que fazem parte desta engrenagem
Herdando tudo aqui que há de bom

Eu canto como quem quer reunir.
Tu pintas como quem não quer partir

Poeta! Pinte o verbo da emoção

Vivemos pra você poder sentir

Vamos assumir as posições
Livrando abertamente as gerações
que fazem parte desta engrenagem
Herdando tudo aqui que há de bom

Eu canto como quem
quer reunir.
Tu pintas como quem não quer partir

Poeta! Pinte o verbo da emoção

Vivemos pra você poder sentir

terça-feira, abril 04, 2006

Primeiro meio-discurso sobre a predisposição das coisas

A possibilidade de algo ocorrer está intimamente ligada ao arranjo de predisposições que a tornam potencial. De outra forma dito, soando quase banal, nada ocorre sem que, antes, possa ocorrer. Daí se infere que nada na vida - aqui entendida como a experiência compreendida entre o nascer e morrer - ocorre de súbito sem que a isto seja possível ser dada explicação: por trás de cada manifestação há uma causa e, antes dela, a capacidade intrínseca ou adquirida de estar sujeito à tal manifestação.

Tal colocação, trivial a princípio, revela duas dimensões do processo incessante que é viver (ou, preferindo, ser), cuja existência, parece seguro dizer, é inerente ao movimento. Tomando-o (o processo) como teia de possibilidades com um sem-número de ramificações, cada qual representa uma opção possível logo respondida por recusa ou escolha, e, escolhida, instantaneamente ramificada, donde a mesma fórmula passa a se aplicar inesgotavelmente. O par de dimensões que conjuga essa finíssima e quase impensável engrenagem é formado por aquilo que aqui chamo (i)predisposição e pela (ii)causa ou elemento causador. Sem a presença de ambos não há nada que se dê, pois assim como uma inclinação a determinado resultado só se evidencia e se torna fato na medida em que deixa de existir como inclinação por alguma causa, nenhum agente causador concebe, por si próprio, lugar onde se manifestar, sendo que, para isso, faz-se necessária uma estrutura prévia que lhe permita praticar sua ação. Aqui parece importante relembrar que quando se fala em existir, tal conceito está, aqui, atrelado à percepção humana, isto é, falo do que pode ser percebido, não necessariamente do que é.

Pensando nessa estrutura anterior como espaço vazio a ser preenchido pela possibilidade concretizada – o acontecimento propriamente dito – e na causa como elemento que introduzirá, como se por um empurrão, os ingredientes desta receita, tem-se uma boa idéia do modo como se dá essa interação, entendendo-se os ingredientes como partes constituintes da causa, ou seja, causadores. Os efeitos, conseqüentes desta soma, são aqueles resultados alçados à experiência real, e povoam nosso mundo, entrechocando-se, percorrendo os mais diversos caminhos e direções que esta quântica origina em distantíssimos horizontes.

segunda-feira, abril 03, 2006

A notar

estou começando:
anotar tudo...
e a notar:
ar de artista
em mim.

"eu lhe ofereço
essas coisas que enumero
quando fantasio
é quando sou mais sincero"
(Holofotes, João Bosco/Antônio Cícero/Waly Salomão)

domingo, abril 02, 2006

Teoria dos Jogos

Teoria dos jogos é um ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações em uma tentativa de maximizar seus resultados. Primeiro desenvolvida como uma ferramenta para entendimento do comportamento econômico, teoria dos jogos agora é usada em diversos campos acadêmicos, indo da biologia, psicologia à filosofia. Desde os anos 1970, a teoria dos jogos tem sido aplicada ao comportamento animal, incluindo o desenvolvimento de espécies pela seleção natural. Devido a jogos interessantes como o dilema do prisioneiro, no qual o auto-interesse racional fere a todos, a teoria dos jogos tem sido usada nas ciências políticas, ética e filosofia. FInalmente, a teoria dos jogos recentemente chamou a atenção de cientistas da computação por causa de seu uso na inteligência artificial e cibernética.

Tradução livre da Wikipedia.

Mais em http://en.wikipedia.org/wiki/Game_theory

sexta-feira, março 31, 2006

nuar

canta desejo contido
em interjeições comedidas

canta sopros de vento,
descobrimentos,
por forças telepáticas

canta a imagem invertida,
o sublime invisível

é silencioso o canto dos olhos

quarta-feira, março 29, 2006

A geometria do adeus

Barcos se vão
e deixam pra trás
traços de que foram
antes que chegasse a distância.

eles se vão
e deixam desatados
laços do que foram,
do que eram 'inda agora
- mas agora é só silêncio.

aponta longe a pirâmide,
sofre a saudade embalsamada
nas profundezas, nos sarcófagos,
deste lago, deste lago de quem fica.

[a partir de leituras sobre Tales de Mileto]

terça-feira, março 21, 2006

A Firma

Na firma, cada um tem a sua função definida. E tem hierarquia também. Tem gerente, chefe da boca, tem o pessoal da logística, da segurança, o pessoal da linha de montagem. Tem até office-boy.
A firma existe porque dá lucro. Porque tem gente que gosta do que a firma faz. Mas a firma também entrou nessa de responsabilidade social. Além do lucro de seus acionistas, a firma também preocupa-se com o bem estar da comunidade. A firma dá segurança para a comunidade, já que as autoridades competentes não são nada disto. Segurança e botijão de gás. Sem falar nos empregos mais bem remunerados que os moradores podem arranjar. E tem plano de carreira. Seu pessoal costuma entrar cedo e trabalhar lá até o fim dos seus dias.
Mas, como qualquer outra empresa do país, ela tem problemas com a burocracia. Não consegue autorizações e tem que fazer as coisas com jeitinho. É isto que estraga a firma. Sem propina, ela não conseguiria funcionar. Nem ela nem a polícia. É a firma que mantém a polícia.

segunda-feira, março 20, 2006

da altura do décimo quarto andar
diz a janela escancarada
"insignificante"

revezam-se com rapidez as nuvens,
os tons entre escuro cinza
e azul petróleo, segundo um colega

as sombras, em menor velocidade,
escalam os altíssimos prédios,
imóveis projetanto-se em seus semelhantes

o sol vai descendo, como em toda tarde
(agora se vê melhor)
antes houve uma chuva que só no rio se percebeu,
ali, no cais do porto, às aguas se agitaram,
as mesmas águas de março
que a essa hora parecem espelho intocável

há uma bóia de forma triangular,
o laranja se enxerga de longe mesmo
mesmo quieto assim,
os barcos devem conhecê-la

houve um saco plástico
desses de supermercado
vindo dum desses picos
acompanhei-o já em sua dança decadente
foi para entre dois carros
em frente ao mercado público

muitos ônibus dobram esquinas
e sobem essa rua de mão única
o fluxo é constante e agitado
lá no fundo, um viaduto
a cidade termina pra quem vai à esquerda
e à direita começa tudo de novo

são muitas janelas
e, sabe-se, muita gente por detrás,
mas não se as pressente,
parecem mais, esses gigantes cinzas,
o centro onde se mastiga e morre o tempo

abre-se agora um espaço
e se mostra um azul original
bem como o branco de alguma nuvem
lá atrás, uma fileira delas, as mais escuras,
traçam linhas de chuva que se vão em diagonal

e debaixo, da praça frente à prefeitura,
vem um som tradicional
que se cumprem nos dias próximos
os anos dessa capital
e, entre muitos, os meus

quarta-feira, março 15, 2006

Não foi coragem o que levou Fulano a ir-lhe aos beiços. Foi muito mais o sentimento de um animal acuado. Nunca fora valente. Sempre preferiu a apatia para tratar de seus problemas. Esse era seu problema.
Por sua vez, Tadeu não esperava por aquilo. Com o tempo, já tinha aprendido a manha de Fulano. Este nunca reclamava das meninas que lhe mandava. Sua voz no telefone parecia pedir desculpas. Freqüentemente, mandava as meninas cobrar além do acordado. E Fulano pagava. Perguntava se o preço não era outro, mas sempre aceitava o preço dado. Pagava e ligava de novo. Quando Tadeu pediu para Fulano guardar um pacote em sua casa, Fulano tentou desconversar, disse que não sabia, mas o primeiro conversou-lhe o suficiente para que aceita-se. Sabia como convencer um bunda mole.
Mas um dia, Fulano chamou pela Vanessa. Adorava a Vanessa e só não pedia sempre por ela por vergonha de pagar sempre pela mesma mulher. Suas pernas estavam maiores do que nunca! Os cabelos pretos bons de puxar. Mas não estava muito falante. Parecia distante, mas fulano nunca foi de fazer perguntas.
Quando Vanessa já estava fumando seu cigarro, uma batida na porta. Fulano ficou decididamente nervoso, já que não costumava ter ninguém à porta àquela hora. Não costumava ter ninguém que não esperasse batendo na porta. Não tinha amizades e nem visitas. Era sempre o entregador, alguma encomenda, ou uma menina.
Era Tadeu, visivelmente alterado. Cheirava a álcool, mas parecia lúcido e transtornado. Seus olhos não paravam em ponto algum, prestava atenção em tudo ao mesmo tempo. Nem deu bola para Fulano e foi direto em direção à Vanessa. Chamou-a de puta e deu-lhe de mão aberta. Ela caiu sobre os joelhos, chorando, com a blusa meio aberta, sem sua saia. Fulano disse para Tadeu acalmar-se, para sentar, e Tadeu soltou os cachorros em Fulano. Mauriçola de merda. Fica na tua que não sobra prá ti. A moça levantou-se e fez menção em ir para o quarto quando levou um soco. Ela não emitiu um som sequer. Mas Fulano, que estava apavorado, acuado no canto da sala, foi para cima de Tadeu e arrebentou-lhe a cara com um soco, deixando o malandro, que era acostumado com as brigas da rua, estirado no chão.
Com a Vanessa ninguém mexia.

quinta-feira, março 09, 2006

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
nem atiçar suas saudades
mas acontece que não posso me furtar:

Calmas ondas de mar...
soam promessas de vida
na bonança que vem
no remanso do carnaval

[verão, tem fim não, tem começo - de março]

Cataventos de Osório
fabricam novos ventos
e novos eventos apontam no horizonte
vai!, avante!, escolhe a peça e move, adiante!

Parabéns, um passo à frente
e mais outro, que arrisque;
um que te sustente
e um outro que te busque

(Dança uma folha no céu)

Brinca com seu par
e joga com tempestades,
economiza em velocidade
e aprecia o tempo, o vôo, a liberdade - troféu

{meu caro amigo, chico buarque; águas de março, tom jobim}

segunda-feira, março 06, 2006

Foi-se o tempo.
O que era bom já não é mais. O inadmissível tornou-se corriqueiro. Quem imaginaria?
E o estranho é que não estranho nada.

sexta-feira, março 03, 2006

ZELIG

Foste tu? Fui eu?
ó, não saberei dizer
foi você quem prometeu
- e quem disse não temer?

ó, não saberei recontar
dos riachos e pedras por que passei
porque não sabem a água, o limo ser outracoisa
mas eu sei bem, eu me identifiquei
com um camaleão,
sei não...
não há rimas para zelig

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Em si (fora de contexto)

Vão em vida (...)
Primeiro a força. A ficha cai. Depois, a fraqueza.
No impulso último se despede de sua propriedade. Parte-se em migalhas que pouco recordam o segundo anterior. A explosão fôra grande. Afinal, tudo poderia ser menor. Parca definição de silhuetas. Talvez estivesse em outra galáxia, nenhuma diferença faria. Reconheceu ao seu lado um velho abajur de lâmpada cega. Mais à frente, notou uma esfera de tristelento andar, que percorreu uma trajetória óbvia na mesa de pinball, até cair em algum vão e desaparecer. Sentiu um vazio. Não era fome, não era frio. Era como se ainda estivesse caindo, mas o mundo lhe parecia parado; era como se estivesse girando, mas o mundo lhe parecia quadrado. Tentou visualizar um ponto fixo específico, mas tudo se apresentou imóvel à mesma maneira. Fechou os olhos demoradamente, quem sabe estivesse sim num movimentado sono. Sentiu uma certa resistência ao tentar abri-los novamente, e quase sorriu pensando ser a luz do dia a lutar contra sua pupila dormente. Mas não. Olhos abertos, o que identificou foram os mesmos pesados traços de rara retidão. Aquilo o estava sufocando e era cada vez mais concreto e estreito. Até que um som veio lhe trazer outro suspiro, quando nem sentia soar as batidas de seu coração. Era uma marcha precisa, marcada em intervalos rigidamente iguais. Um relógio. O tempo, enfim, voltava a dar sinais. Ganhou calma e sentou-se sobre o que parecia ser uma pedra. Quem o visse diria se tratar de uma estátua, homem em reflexão, cotovelo sobre a perna, mão sob o queixo; quiçá até um filósofo. Em verdade, o único pensamento que tinha é que era estático: tudo era, afinal, uma questão de tempo. Desapareceu.
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Dá-se por si e está caminhando para algum lugar, vindo de outro mais vago ainda. Sente-se num desenho animado, colinas se perdendo à vista, um caminho sublinhando os bosques, árvores de primavera e algo de faz-de-conta no ar. Enquanto segue em frente, corre os olhos ao redor, à procura de um outro personagem. Nenhum movimento e muito silêncio, em pouco tempo, já não se apercebe de nada. Vai assim, distraído, quando surge, por detrás de um arbusto, um menino de cabelos encaracolados – toma um susto. Diz-lhe o menino, com voz suave, que não tenha medo, que é só um menino. Pede desculpas, explica que andava desatento, pensando. É claro que estava pensando – respondeu o garoto – pude ver bem acima de ti. Deu-se conta, o menino não falava, melhor, não se ouvia sua voz, dava-se o diálogo através de balõezinhos legendados, como numa história em quadrinhos. Vendo a cara perplexa e de estranheza daquele homem (e lendo seus pensamentos confusos bem acima de sua cabeça), o garoto riu, discretamente, e se pôs a explicar: se há, por aqui ou por detrás destas intermináveis colinas, algo de real... são os pensamentos. Nada de concreto de fato existe, a não ser que se diga: existe só para si. Em comum, tu e eu, temos a vida, mas poucos têm satisfação em dividi-la. Por fim, cada um tem o seu mundo pensado_ dirão, a solidão. Iguais na essência, mas igualmente perdidos por falsos desejos. Constroem personagens para atuar de forma diversa nesse ou naquele contexto, porque, parece-lhes, é impossível representar o mesmo papel em quadros tão desencaixados. Assim vão sendo contextualizados automaticamente, enquanto suas verdadeiras vidas estão em cantos escuros de um longínquo primeiro capítulo. Sinta a artificialidade no ar...

Com essas reticiências, desfez-se o menino e a cena toda em que se encontrava. Uma profusão de pensamentos seus, feitos fumaça, subiu os céus, em busca de outros ares.

domingo, fevereiro 19, 2006

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

I've got to admit, it's getting better
a little better all the time

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Caminhos (pela metade)


Pior foi quando não podia mais terminar o que, consciente, havia deixado pela metade. E era muita meia coisa.

Era tanto vento que o castelo não resistira sequer à fração de tempo em que o menino solicitou ao pai que olhasse seu pequeno feito. “Pai, olha, meu caste...”, e o vento decapitou duas das três torres. O pai, que lutava nervosamente contra o mesmo vento na tentativa de ler o jornal, desviou meio segundo os olhos para o filho e sua assimétrica construção, moveu os lábios traçando uma boca reprovativa e balançou a cabeça negativamente. A mãe já tinha ido pra casa_ queria tomar banho de sol, não de areia. Mas pouco importava, ela já vira seus castelos muitas vezes, foi quem o ensinara a construí-los. O menino queria apresentar sua arte ao pai, pois raro era o momento em que podia mostrar como se tornava esperto à medida que crescia. Certamente não sabia tanto quanto o pai, que era bem maior que ele, mas disseram-lhe que um dia chegaria lá. Ultimamente vinha fazendo muitas descobertas. Uma dúzia eram doze ovos e meia dúzia eram só seis. A lua era feita de queijo e não era bom olhar muito tempo pro sol. As formigas pouco resistiam à concentração dos raios solares na lupa de um amiguinho, mas era feio fazer isso com os pobres insetos que, afinal, também tinham uma casa. E o mais incrível: coelhos não colocavam ovos, nem meia dúzia. A questão do Coelhinho da Páscoa ficou confusa, mas a tia da escola disse que ele era um coelho especial que punha ovos especiais e, quando perguntou se ele conhecia algum outro bicho que pusesse ovos de chocolate, o menino só pôde concordar, sabia que a tia sabia bem mais que ele, assim eram os adultos. Sabia também, pelo tio, que a água fortalecia a areia, embora tivesse sido um tanto difícil de entender isso já que a água justamente parecia encolher seus castelinhos. Aprendeu que teria que usar mais areia, mas que a água era sim essencial se quisesse erguer uma fortaleza segura. Foi buscar mais água com seu baldinho. Antes avisou ao pai, que não lhe deu atenção_ parecia preocupado, a testa franzida sobre os óculos escuros. O mar estava revoltoso. As ondas, reparou o menino, tinham aumentado de número e iam e voltavam em maior velocidade. Não teve medo, sua mãe lhe ensinara que, se respeitasse o mar, ele não o faria mal algum. Respeitá-lo significava não passar da beirinha.

Caminhou em direção ao oceano pois tinha um castelo a construir.

Por que ser um economista?

Economistas só fazem sexo com modelos

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Outra pequena divagação


Tem-se certezas quando se está distraído.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Quanto mais incentivos sejam dados a um homem, mais dispersos ele terá os seus prórios.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Mercados resolvem

"Um fazendeiro de Curvelo (167 km de Belo Horizonte) resolveu cobrar um pedágio de R$ 10 dos automóveis que quiserem cortar caminho por sua propriedade, após a interdição de uma ponte na BR-135. "
(Folha Online, 04/01/06 - http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u74940.shtml)

Muita gente acha que o estado deve agir onde mercados falham. Aí está o mercado agindo onde governos falham.
Antes que alguém reclame da atitude do fazendeiro, lembre-se que a alternativa dos motoristas, caso ele não tivesse tomado esta atitude, seria não seguir viagem.
Economizar no Paraguay - no sentido de não gastar muito - é difícil a um brasileiro. Os preços em guaranies, convertidos em reais, tornam-se muito tentadores. Com dez mil guaranies (4 reais) se faz uma boa refeição. Hoje, de volta a Porto Alegre, paguei, com um nó na garganta, dez reais pelo almoço. São 25 mil guaranies!, pensei...

Isso não torna a vida do povo de lá mais fácil, como tu bem sabes. Ganhe-se proporcionalmente menos, bem como ter emprego é difícil tarefa. Não bastasse isso, o maior problema parece ser a estagnação no tempo, o continuísmo de práticas políticas conservadoras, ecos de uma longa ditadura, algo que parece freá-los, tirando-lhes a voz que permitisse acompanhar essa onda latina de "esquerda", "populista" ou "popular", o tempo dirá melhor que eu. Como disse Veríssimo em sua coluna na Zero Hora de hoje, a hipocrisia, que passou a ser intrínseca à política, tem suas fases agudas e crônicas. No Paraguay é como se a aguda tivesse virado quase usual, e talvez seja difícil de se ver através dela.

Voltando ao meu período de 15 dias por lá. Tratei de não gastar muito (e consegui), não trouxe nenhum eletrônico de e a única presenteada será minha mãe que completará anos na quarta-feira. E de recuerdo, claro, trouxe para mim uma camisa da seleção paraguaia que custa três vezes menos lá, e dois quilos do meu dulce de leche favorito.

De modo que é extremamente lucrativo fazer uma viagenzinha de compras para nosso querido país vizinho. Mas, no meu caso, o lucro foi me buscar na rodoviária.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

"Com a justificativa de participar de congressos e cursos de qualificação, vereadores e servidores de câmaras municipais estão fazendo roteiros turísticos pelo país com viagens custeadas pelos legislativos. " (Zero Hora, 01/02/2006)

O trecho acima dá muito pano prá manga. Em primeiro lugar, não são viagens custeadas pelos legislativos, mas viagens custeadas pelos cofres públicos. Mais, são viagens custeadas por impostos. Melhor ainda, são viagens custeadas pelos salários e demais rendimentos das pessoas que moram nestes municípios e também do resto do país, afinal, existem repasses dos estados e do governo federal para os municípios.

Outro ponto interessante é o papel da imprensa livre como instituição fiscalizadora da sociedade. Ainda que o reporter não tenha motivos nobres como lutar pela verdade (talvez ele só queira ganhar prêmios ou vender jornal, ou talvez seja um idealista mesmo), o resultado é o mesmo, e é isto o que importa. Existe quem ache que a imprensa deve responder a alguém. Mas, será que as preferências de um grupo são as mesmas de toda a sociedade (ou, vá lá, da maioria da população)? Talvez o grupo no poder em determinado momento fosse composto dos amigos dos vereadores turistas e, em agrado a seus compadres, os controladores da imprensa, nomeados pelos donos do poder, acabassem com os jornais, revistas, canais de rádio e TV que pudessem apresentar pudores cívicos e denúnciar a mamata. Ou, inversamente, talvez os inimigos dos vereadores turistas estivessem no poder e, por isto, estes nem teriam sido eleitos. Mas, quem sabe se os vereadores amigos dos inimigos dos vereadores turistas não seriam piores ainda? O que importa é que, sem uma imprensa livre, ficamos à mercê do grupo político no poder. E, sem a imprensa livre, o grupo político no poder pode utilizar sua influência para perpetuar-se.

Mais uma questão. Com as leis que temos, seria de se estranhar se nossos legisladores NÃO tomassem este tipo de atitude. Primeiro, que não é em qualquer emprego que se consegue receber alguns salários para ir para a praia passear. Se eu não espero ser pego (e eles pareciam ter certeza da impunidade) por que não fazer?! Segundo, com esta possibilidade aberta, quem irá se esforçar mais para ser eleito? Alguém honesto que pretende trabalhar pelo bem da população ou alguém que quer férias muito bem pagas? Garanto que o que espera usufruir das benesses do cargo despenderá mais recursos. Até porque, uma vez eleito, o desonesto tem uma fonte a mais de recursos de campanha.

É brabo mas é queijo.