quinta-feira, agosto 31, 2006

samba de voltar

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Depois que acabou é que a gente lembra
Depois que acabou é que a gente lembra

foi-se o tempo e eu não vi
que era muito de vagar
era muito de deixar
o tempo gabar-se de si

foi-se-me o dom de ir
donde fosse meu esmero
perdi a razão de existir
pondo a história no cemitério

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Depois que acabou é que a gente lembra
Depois que acabou é que a gente lembra

queria ter não tem mais
queria ser mas já não foi
o que era somente é saudade
e não tem um só remédio
que me desconte idade
me retire desse tédio

como era antigamente
tudo assim tão diferente
mais parece só agora
que quase sinto o cheiro
de antes do triste embora
desse tempo de primeiro

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Depois que acabou é que a gente lembra
Depois que acabou é que a gente lembra

Se a vida soubesse
que a gente não esquece
faria um relógio gigante
de ponteiros-estandarte
que despertasse no instante
de um momento-eternidade

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Ah! Se a gente soubesse
Que a gente não esquece

Depois que acabou é que a gente lembra
Depois que acabou é que a gente lembra
Corre,
e na fuga deixa
cairem todos os teus segredos
esparramados pelo chão.

Fica parado
Estático, feito um guri
cagado, esperando
um castigo.

Volta
e junta
todos, feito homem
um por um.

Olha prá eles,
mostra prá todos
perde a vergonha.
Eu já me dei conta do que estou prestes a fazer?

quarta-feira, agosto 30, 2006

Ilustrando

Foto: José Luis Anapolski


Cisplatina

Após a decepção da partida cancelada, a notícia de última hora de que iria. Pouco tempo depois, tudo ameaçado novamente. A falta de preparativos parecia botar tudo por água abaixo, assim como estava a cidade de Porto Alegre naquele dia. Mas foi abaixo d'água mesmo que a falta de preparativos nos deu mais 2 dias. Sairiamos em 8 horas, tudo muito rápido, correndo, intenso.
Uma noite de pouco sono. Excitação, novidade, ignorância. Na manhã, o desembarque. Caminhar para conhecer. Força e perseverança na andança não planejada. O ar morno do paradouro nos recebeu, mas a curiosidade que a cidade nos proporcionava venceu. E voltamos ao vento.
Num país de carnívoros, fogo por todos os lados, pirotecnia gaudéria encarregando-se de aguçar nosso apetite. A saciedade do corpo não é a da alma. Imagens sendo aprisionadas com avidez e outras fomes, de outras carnes, nos levando para frente.
Novas amizades, por certo efêmeras, mas nem por isto não aproveitadas colocam-se. Novidades, curiosidades do que se conhece apenas pelas percepções de outros. Por fim, o cansaço vence.
Num outro dia, mais amizades, estas prometendo instalar-se, trazem novos ares, novas caras, novas idéias e um novo rumo. Andanças, mais carne, mais álcool. Frio, escuro, encontros, desencontros. Saudosismo do que não se viveu. Hasta mañana.
Consumir, consumar. Andar, conhecer, voltar e beber. As chamas que nunca apagam-se chamam para com elas ficar. Mas nem por isso ficamos. Teimosos, não querendo dar ao tempo um minuto de nosso tempo, preferimos a insônia voluntária. Boas supresas saxônicas. Frio, estupidez, uma triste mas justificada imagem do Brasil. Fome, desejo, repulsa, Led Zeppelin, satisfação, cama.
Tarefas e trabalho. O sentimento de dever e de perseverança é capaz de atiçar o mais relutante fogo. Teimosia reconhecida e diversão. Risos em tantos idiomas. Sexo, carros, frutas, cabras. Sorrisos lindos que não compreenderam que poderiam ser mais felizes em companhia de outros sorrisos. La noche. A escócia porteña. Culturas tão diferentes, desejos tão desencontrados. Impotência, libido desarmada pela inocência. Separação, solidão. O cansaço vence. Será?
No clima de despedida, o sol brinda com a possibilidade de mais sorrisos. Sorrisos que deixam saudade, pois sabe-se que nunca mais serão vistos novamente, a não ser que o destino, que todos sabemos não existir, queira pregar uma peça boa. Estafa e a sensação do que ainda está por vir.
Melancolia tão portenha e tão guaíba. Uma noite separa duas cidades capitais. Gaúchos as descobrem tão semelhantes.

Política e comodidade

Só acreditar é mais fácil que prometer.

terça-feira, agosto 29, 2006

Sua primeira providência era tirar todos dali. Não queria sua família envolvida, eles não precisavam saber de nada... seria melhor para todo mundo. Ela não tinha o direito. Diabos, tinha sim, e ele esperava por aquele dia, sabia que chegaria.
Apesar da raiva e do medo que tomavam conta, a sutileza com que foi feito lhe dava um conforto estranho. Uma lembrança boa de Flávia. Todo o tempo que passaram juntos, não foi só sexo, e também não foi uma simples amizade, um simples namoro. Tinham um duelo permanente, estavam sempre desafiando um ao outro, sem nunca deixar isto claro. Eram desafios intelectuais ou morais cuja principal característica era exatamente que cada um se esmerava para que a afronta não fosse claramente percebida. Era um jogo de dissimulações, mas era antes uma disputa de egos. Quem tinha o senso de humor mais requintado, tão requintado que ninguém mais poderia perceber que ali havia humor. Admirava Flávia e sabia que era recíproco.
Precisava deixá-los em lugar seguro, iriam atrás dele com certeza, o que significava separação. Da esposa não tinha grandes problemas. Gostava dela, era uma boa pessoa e tinha consciência de que ela o amava. Mas separar-se dos pequenos seria um martírio. Notava em Israel as mesmas inquietações que sentia quando era um guri. Pensativo mas ao mesmo tempo dissimulado, ele não fazia perguntas. Não externava perguntas, bem entendido, aquele olhar vazio não enganava. Sozinho, era bem capaz de acabar como o pai.

Ao mesmo tempo, Israel sentia os olhos da coruja cada vez mais perto. A testa do pai estava suada, e ele preferiu ficar quieto. O pai não respondeu para onde iam. Não perguntou duas vezes, tinha aprendido que era melhor fingir que estava tudo bem. Ninguém gostava de fuxiqueiros. Ele não, pelo menos.

Estava enferrujado, não estava mais acostumado a estas fugas. A última tinha sido sua grande peça em Flávia. Claro que tinha todo o contexto da libertação, as cartas e tudo mais. Mas sabia que ela não deixaria barato, pregaria uma muito maior.

O primeiro carro cortou a frente deles. O segundo chegou logo em seguida, ninguém viu de onde surgiu. Saíram três homens com uniformes dos libertadores de cada um deles...


Acordou úmido e com frio, pelado no chão do box. Lembrou-se do escorregão e do momento de alívio. Estava com muito frio, mas a cabeça não doía. E tinha fome, muita fome. Quanto tempo passou deitado ali? A julgar por todas as memórias que tinha de depois do acidente, uma eternidade.

Sol em três por quatro

um retrato do sol
você pode olhar
demorado'lhar
e nem se queimar

molhar bem os olhos assim
como quem mergulha com
os olhos abertos
no mar
e ainda sem salgar
e ainda sem cegar

um retrato do sol
é quase sem
graça
não passa nada de luz
uma foto fria, opaca
tapa na cara de quem conduz
a câmera à procura de algo terno
não veremos assim
o que não sabemos é que é eterno

Entrevistando Chico

Este é um cara que admiro. Chico Buarque

segunda-feira, agosto 28, 2006

Com sorte, talvez ninguém o reconhecesse, ou, pelo menos, não alguém que fizesse caso com o contexto da foto. Mas era, definitivamente, um aviso, um último recado que pedia com urgência uma atitude. Mesmo a legenda estava cheia da perspicaz ironia de Flávia, dizendo tudo, quase sem dizer. Mas como, diabos, ela conseguira aquela foto? Olhou o retrovisor, sentindo-se vigiado e, depois, desprotegido, apesar de que, aparentemente, a rua estivesse deserta.

Israel não deixou de perceber a aflição calada do pai. De um certo modo, isso lhe acalmou um pouco. Afinal, não eram simples bobagens de criança aqueles sentimentos que lhe tomavam. Seu pai parecia ter mil segredos dentro de si, quem sabe colecionados ao longo da vida toda. Que ele, Israel, faria com os seus? O céu, as estrelas, a lua, todos confidentes que lhe entendiam como se parte dele fossem. Restava-lhe ainda uma vontade de que, não só que o ouvissem, respondessem às suas indagações ou ao menos compartilhassem seus mistérios de forma menos silenciosa.

A irmãzinha puxou seu cabelo, já estava virando costume. Antes que Israel revidasse de alguma forma, porque criança nunca deixa barato, a mãe interveio, falando firme com a caçula. A pequena Samira queria atenção, e a cabeça de Israel era a única ao seu alcance. Talvez mais alguns poucos anos e já pudessem conversar sobre isto de caminhar com as próprias pernas.
Não era exatamente uma notícia, era antes um aviso disfarçado na seção de variedades. Mas não havia dúvidas de que era ele.
Não havia mais volta. Tinha começado.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Justificando o estudo das escolhas sociais

Deparamos-nos com processos de decisão coletiva em toda a parte. As sociedades precisam escolher quanto de seus recursos comuns deve ser alocado em estradas, na transferência de recursos dos mais abastados para os mais necessitados, ou para o pagamento de bolsas de estudo de pós-graduação. Para isto, alguma regra de decisão deve ser criada. Nas sociedades democráticas modernas, a maneira mais comum é que uma parte dos indivíduos da sociedade, chamados de eleitores, escolha um grupo de representantes encarregado de, sob determinadas regras pré-estabelecidas, fazer esta alocação. Nestas sociedades, tanto a escolha destes representantes como a alocação por estes efetuada costuma ser realizada através do voto. Mesmo em pequenos grupos, efetuamos escolhas que envolvem mais de um indivíduo: condomínios decidem se devem contratar um jardineiro ou pintar a fachada; clubes escolhem seus representantes; amigos escolhem se acompanharão o jantar com vinho, cerveja ou água. Enfim, as escolhas sociais são importantes em uma infinidade de aspectos de nossas vidas e uma boa parte delas envolve, implícita ou explicitamente, a existência de um sistema eleitoral. Quando se debate sobre a adequação de um sistema eleitoral, uma questão importante é a capacidade deste sistema de levar em consideração de maneira igual a escolha de cada indivíduo do grupo. Daí a importância do cálculo do poder de voto de cada eleitor e de cada colégio eleitoral, pois, dependendo das regras de votação utilizadas, os eleitores dentro de cada colégio eleitoral podem ter poderes diferentes para influenciar o resultado da eleição. Intuitivamente, em um sistema eleitoral justo, a preferência de cada eleitor deve ser igualmente levada em conta para a escolha social.

Os cestos

Dois cestos. Um é verde; outro, cinza. Isto porque têm um propósito: separar lixo seco e orgânico. O fim é louvável e a todos beneficia. No entanto, é sabido que necessários são a regulamentação, a ordem de execução e a fiscalização, em processos que contrariam a prática do caos. Em condições naturais, verifica-se com facilidade, conduzem-se a conclusões tipicamente desvinculadas de preocupações que envolvam conceitos mais elaborados, como a ética - salvo sociedades mais avançadas em âmbito educacional. Muito maior é a parcela das populações que seguem as leis primitivas,-para citar alguns exemplos-, do simples contornar dos obstáculos e das vontades, por vezes excêntricas, sempre centralizadoras, do ego.

Por tal realidade é que um é verde; outro, cinza. Como é verde o sinal permissivo do semáforo, lembrando que legal e moralmente aceito é contribuir para a convergência, quem sabe universalização, das necessidades. O homem precisa ser lembrado, mais quanto menos educado. Se bem que é difícil desligar da memória o processo através do qual alguém é educado.

O fato é que cada cesto tem a sua cor específica. Os usuários é que são das mais diversas. E é sobretudo de cada um que dependerá o sucesso da empreitada, ou a sua derrocada. Ainda que as regras estejam normativamente estabelecidas, mesmo que tenham sido transmitidas com clareza, a operação estará sujeita às atitudes das pessoas, nem sempre constantes ou determináveis, como sabemos. O mecanismo da fiscalização tem, sem dúvida, uma essencial função de solicitar maior responsabilidade dos usuários, parece claro, estando atrelada à aplicação de penalidades para os casos que infringirem o estabelecido.

É preciso lembrar (o homem precisa ser lembrado) que, em certas instâncias, essa fiscalização pode acarretar em comportamentos não-esperados, dependendo do modo que é empregada. Sob o jugo do autoritarismo, tendemos a buscar a subversão e o radicalismo, ou seja, a não-cooperação. Daí o cuidado que merece a prática da inspeção.

Mas as nossas cestas não são vigiadas. Foi concedida a nós plena liberdade de ação, ou, pelo menos, foi reservada aos meios do convívio interpessoal a direção do projeto.

Alguém soube que os funcionários encarregados de recolher o lixo estavam misturando tudo no final das contas. Outro, teve a mesma informação, mas avisou a chefia. O primeiro passou a desacreditar no processo por inteiro. O último confiou na ação da chefe e continuou colocando cada lixo no seu lugar.

Obviamente, aqui, o papel da chefia é muito decisivo. Porém, é igualmente importante perceber que, tendo esta feito sua parte, não há definitivamente certezas sobre as respostas dos outros agentes do processo. Na verdade, o que se pode antecipar, com alguma propriedade, é que um ato que leve ao caos desencadeia outros tantos. E o costume dá conta da perpetuação do atraso.
A mãe achou que tivesse mijado nas calças, o que não deixou de mencionar à mesa do café-da-manhã. Engoliu a vergonha com pão e leite, mais dificilmente porque era simulada. A irmã menor lançava-lhe um olhar incômodo. Lembrou-se da coruja - já não sabia se tinha sonhado com ela ou se a vira de fato na noite anterior. O olhar silencioso e perturbador que inquiria a solução de seus enigmas. Enigmas que ele mesmo não saberia resolver.

O pai fechou o jornal, levantou-se. Era o sinal, todos para o carro.

Alguma notícia importante, pai?

O pai manteve-se quieto e muito sério.

Sim, havia uma. Mas o pai de Israel não havia gostado nem um pouco dela.
O pecado é bem mais confuso. Porque o pecado é mau. Mas, quando é pecado, é porque tá bom. Se é ruim, se eu não gosto, se machuca, não é pecado. Ficar dormindo até mais tarde quando tem serração é pecado. Contar prá todo mundo que eu acertei tudo no ditado é pecado. Pecado mesmo é a Rita, eu não sei bem porque, mas sinto.
Coruja curiosa, parece deus espiando prá me ver pecando, olhos arregalados grudados em mim.
Coruja de sobretudo, esperando eu pensar maldade para me prender em suas garras.
Calças geladas. Molhadas. Não posso me trocar... fazer barulho nem pensar. Se se dão conta que me escapuli... melhor frio do que surra. Não sei. Surra passa logo, frio rasga.
Rasgando carne, trincando ossos, frestas tão pequenas espantam um sono que o cansaço convidou com tantos folguedos. Silvando baixo, intermitente, parecia estar por todos os lados. Sobretudo, os olhos crescem no escuro, fixos, inquirindo, lendo tudo, até o que fica lá no fundo. A gangorra tão conhecida toma proporções assustadoras quando sobe, o equilíbrio acaba, e o abismo não parece ter fundo. Queda sem fim, nem fim no tempo, nem fim no espaço. Concomitantemente, tudo no mesmo ponto, no mesmo instante. Silêncio igual teria duvidado pouco tempo atrás, tudo junto muito longe.
Escureceu.

quarta-feira, agosto 23, 2006

As corujas

Caçadoras eficientes, usando sobretudo seus olhos extremamente aguçados e movimentos rápidos. Além disso, são extremamente atentas ao ambiente podendo girar sua cabeça em até 270° e voar silenciosamente devido a penas especiais muito macias e numerosas que compõem suas asas.

São aves tímidas, geralmente solitárias, consideradas entre os prepadores mais sofisticados do mundo.

Na antiga Grécia, os filósofos pré-socráticos cunhavam moedas com a imagem da coruja. A ave era associada à deusa Atena e, portanto, era considerada um símbolo de sabedoria.

Fonte: Wikipedia

terça-feira, agosto 22, 2006

Está ficando muito tarde - pensou, quando deu-se por si. Caminhou de volta à casa. No trajeto, deteve-se, como de costume, um breve tempo na pracinha longe dois quarteirões de sua casa.

O orvalho escorria silencioso pela gangorra. O balanço movia-se levemente, mas não a ponto de se fazer ouvir. Chegou ao centro da pracinha e tomou assento no gira-gira. Depois, ainda que este estivesse úmido, deitou-se, com o corpo pequeno que facilmente se adaptou à forma circular do brinquedo. Com a ponta do pé esquerdo fez força para conseguir embalo, e começou a girar com velocidade cada vez maior, até não precisar mais dar impulso. Sua visão era a de um céu em espiral, as estrelas fundindo-se e se separando como se fossem cometas cruzando-se. O negro profundo do espaço ganhava ares de mistério, como o interior impenetrável de uma caverna. Agarrou-se com mais firmeza ao metal, tinha a sensação de que poderia perder-se pra sempre caso voasse dali e fosse engolido pela escuridão. Fechou os olhos, dentro de si ainda era quente.

O gira-gira foi perendo velocidade, parou. Abriu os olhos, o céu sobre si ainda girava, confuso. Com esforço levantou-se. Andou alguns passos até sentir novamente o frio da noite, sua única companhia ali. Dirigiu-se à gangorra. Abaixou a ponta que estava no alto - estava mais seca - e se sentou, primeiro mantendo-a equilibrada através das pernas, depois, baixando aos poucos, até fazer chegar ao chão. Pôs-se a mirar a ponta oposta, agora em situação diversa, no ponto alto. Por um momento, quis que alguém estivesse ali com ele - nem que fosse o Rafael -, só para sentir-se mais longe do chão, no ar, como a estrela que brilhava em linha reta com a ponta oposta. Um peso para a leveza. Sempre sonhara em voar...

A umidade veio concentrar-se em sua direção. Pensou na força da gravidade, tão constante e silenciosa. A professora havia explicado com uma maçã. A mesma maçã sobre a qual falara a tia da catequese, pra falar de pecado, mas isto ele não havia entendido bem. A gravidade sim.

Levantou-se. Já estava se molhando demais.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Silêncio. Silêncio completo. Não dá prá ter silêncio completo. Sempre fica uma vozinha. Não vou pensar em nada ... tão escuro ... dia de TV ... cheiro... ? ... fumaça? ... queria ser adulto prá ficar acordado... droga! Não consigo ficar sem pensar. Sempre fica alguma coisa. Será que alguém consegue? O Rafael acha que pode tudo, abobado. Aposto que nem ele consegue. Tomara que amanhã tenha suco no café... suco no café? A gente diz café, mas não é sempre café... coisa louca... estudar prá ser importante. Queria saber jogar, correr, sei lá. Aí podia ser importante sem estudar... pena que não pode ligar a luz ... bomba ... e a professora? Ela é muito mais esperta do que o Rafael, me ensinou tudo que eu sei, vai que ela sabe não pensar também? Aí pode ouvir o silêncio, mas deve dar medo, ficar sozinho, sem nem a tua cabeça, mas não pode dar medo, senão não é silêncio, aí já pensou, então como é? ... fez frio mas tava bom brincar, correr esquenta, mas eu canso, droga, coisa sem graça, aí ninguém me escolhe pro time, mas eu sou bom em história, ninguém vai melhor que eu, mas ninguém se importa com aula, mas a professora me elogiou! ... hoje teve TV depois da oficina ... aquela boneca ... quem não ia ver? Nem se importaram, e ela tava sem cabeça ... uma vez vi matarem uma galinha ... festa ... quebraram o pescoço e depois cortaram a cabeça ... assaram ... ... escuro ... amanhã tem... que morno... ... galinha ... ... ... boneca ... ... morno ... ... ...

sexta-feira, agosto 18, 2006

À noite, a tensão já tinha ido embora junto aos últimos raios do entardecer. Um vento suave mas gelado como que o anestesiou por completo, e, agora, um único sentimento brotava do fundo de sua alma. Na verdade, melhor seria dizer que não se percebiam as raízes daquela sensação que mais parecia um gigantesco nada, tão profundo e infinito como o negro céu sobre sua cabeça, tão trespassante como aquele minuano. Sua dor desta vez não era sentida, era, antes, impossível, da mesma maneira que sua própria existência lhe parecia infactível. Teria pensado, se naquele momento pudesse pensar, em todas as perguntas que ao mundo pudesse fazer. Divorciado de seus sentidos, quem sabe tenha desejado apenas que aquela noite nunca acabasse, e a reticência compulsória da sua natureza reinasse para todo o sempre.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Muito bem crianças, hora do passeio no pátio. Aproveitem que o sol está lindo.

Ver a televisão era um momento bastante esperado por todos seus colegas e por ele também. Mas naquele dia a experiência tinha sido completamente diferente. Aquela imagem era diversa de tudo que já tinha visto. Imagens da glória da libertação eram comuns, não era aquilo que despertava sentimentos contraditórios em seu peito. Era a boneca que apareceu no filme, sem ser notada por mais ninguém. Poucos segundos, num canto da tela, e sem cabeça. Já tinha brincado com uma daquelas uma vez na sala de jogos. Já tinha estado lá sete vezes, e lembrava de cor de cada uma delas. Na última, tinha sido um dos melhores da turma naquele ano. Orgulho! Pode brincar com um carrinho sem fio! A imagem não lhe saia da cabeça, podia sentir até agora o poder de dirigir aquele carro que se movia como num passe de mágica, pelo mero apertar de botões. Mas aquilo não fazia sentido, não havia brinquedos antes da libertação. As crianças trabalhavam naquele tempo por todo o tempo. Como haveria uma boneca na rua, ignorada e destroçada daquela maneira? Algo estava errado. E aquilo embrulhava o estômago.